LITERATURA E ENSINO

PALESTRANTES: Ana Crelia Dias (UFRJ); Benedito Antunes (UNESP); Fabiane Verardi (UPF)
DATA: 6 de outubro, das 10h às 12h.

Ana Crelia Dias - Leituras de quem para quem? A complexidade nos endereçamentos e as implicações na formação de leitores

Resumo: Quais são os limites entre os textos infantis/ juvenis/ e os destinados a adultos? Em que ponto um texto deixa de ser do interesse de um nicho de um público e se dirige a outro? Seria possível pensar a formação de leitores a partir da concepção de uma literatura sem adjetivação indicativa de direcionamento de público leitor? A indicação de destinatário na literatura está longe de se configurar como território pacífico do ponto de vista de quem escreve, do mercado que edita e promove a circulação das obras e ainda no olhar de quem seleciona as leituras. Este texto tem por objetivo trazer algumas reflexões acerca do endereçamento prévio das obras, em cujas bases se constroem os estatutos (ainda que precários) das literaturas infantil e juvenil, e as possíveis transgressões a esses processos de destinação dos textos a públicos específicos. Para tanto, serão analisadas obras cujas zonas de endereçamento são fronteiriças, a fim de pensar os possíveis impactos dessas leituras em ambientes formais de escolarização.

Minibiografia: Ana Crelia Dias possui mestrado e doutorado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição em que atua desde 2005 como docente. Realizou estágio pós-doutoral na Universidade de São Paulo, entre 2017 e 2018, debruçando-se sobre a pesquisa Mulheres na formação de leitores: retratos conhecidos, ainda em andamento. É líder do grupo de pesquisa Literatura e educação literária, registrado no CNPq. Coordena o GT Literatura e Ensino, da ANPOLL.

Benedito Antunes – Ensino de literatura: a disciplina da liberdade

Resumo: O título desta intervenção é tomado de Fernando Savater (1947), filósofo espanhol que escreveu o livro O valor do educar (1991), no qual faz instigantes reflexões sobre a educação. Dentre elas, destaco uma que servirá de mote para o que vou apresentar: "Se a educação implica certa tirania, é uma tirania da qual só passando pela educação poderemos, em alguma medida, nos livrar mais tarde". Se a educação em geral proporciona a crianças e jovens a compreensão necessária para enfrentar as limitações e mesmo as injustiças impostas pela sociedade, a educação literária tem um mérito adicional por eleger como objeto de estudo uma produção artística, que não se reduz a um conteúdo programático, passível de ser objetivamente definido, sistematizado, transmitido e avaliado após o processo de assimilação como conhecimento adquirido. A arte literária, evidentemente, pode submeter-se a esse processo, e é por isso que consta dos currículos escolares, mas configura uma espécie de aporia ao combinar conhecimento com imaginação. Com efeito, a presença da literatura na sala de aula instaura certa tensão entre disciplina escolar e liberdade. Talvez por isso ela nem sempre encontre o lugar adequado na escola, levando muitos professores e teóricos a defenderem a leitura livre da obra literária, em que se oferecem obras para serem lidas, mas sem cobrança ou comentários da experiência estética. Trata-se de um equívoco que, em última instância, nega a própria necessidade de se ensinar literatura por meio de uma disciplina escolar. É preciso, assim, recuperar o próprio sentido do ensino de literatura e reconhecer que ele se insere no quadro da educação em geral. E educar é uma tarefa que exige definição de objetivos, de métodos e de resultados a serem alcançados. Como qualquer outra, a literatura é uma disciplina que exige esforço, trabalho, desenvolvimento de atividades às vezes penosas. Mas é justamente esse esforço que poderá libertar o aluno. São as implicações desse entendimento que pretendo abordar.

Minibiografia: Doutor em Letras pela Faculdade de Ciências e Letras – Unesp, Câmpus de Assis, mestre em Teoria Literária pela Unicamp, graduado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, docente de Literatura Brasileira da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp, Câmpus de Assis. Foi Diretor-Presidente da Vunesp – Fundação para o Vestibular da Unesp –, é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, nível 2, e integra o grupo de trabalho Literatura e Ensino da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll). Suas pesquisas concentram-se na literatura brasileira do século XX e no ensino de literatura, estudando o Modernismo, o Pré-Modernismo, o romance moderno e a formação do leitor literário. Publicou Juó Bananére: As cartas d'abax'o Pigues, pela Editora Unesp, em 1998, A literatura juvenil na escola, pela Editora Unesp Digital, em 2019, e A olho nu, pela Editora Appris, em 2020, e organizou, com Sandra Ferreira, 50 anos depois: estudos literários no Brasil contemporâneo, Editora Unesp, 2014.

Fabiane Verardi - A literatura no chão da escola: itinerários de pesquisas sobre a formação de professores leitores

Resumo: O trabalho objetiva apresentar, a partir do resultado de pesquisas do Grupo de Pesquisa, "Literatura e Ensino", coordenado por mim, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo. Me debruço sobre as pesquisas que abordam, apresentam e refletem sobre as práticas de leitura e o perfil do professor de língua portuguesa e literatu ra da região norte do Rio Grande do Sul. Assim, busco identificar concepções, trajetórias e modos de leitura destes docentes, examinando as relações entre tais práticas e as vivências de situações de leitura.

Minibiografia: Graduada em Letras pela Universidade de Passo Fundo, Mestre em Letras (Teoria Literária) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Doutora em Letras (Teoria Literária) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Pós-Doutorado pela Universidade de Coimbra. Atualmente é professora Titular III da Universidade de Passo Fundo, no curso de Letras, no Programa de Pós-Graduação em Letras e Coordenadora das Jornadas Literárias de Passo Fundo. Desenvolve projetos na linha de pesquisa de Leitura e Formação de Leitor, focalizando seus trabalhos na questão da leitura na escola, metodologias de ensino da literatura infantil e juvenil. É, também, líder do Grupo de Pesquisa CNPq: Sobre Ensino de Literatura.

TRADUÇÃO E POESIA

PALESTRANTES: Johnny Lorenz (Montclair University); Francesca Cricelli (USP); Jeffrey Angles (Western Michigan University)
DATA: 5 de outubro, das 10h às 12h.

Johnny Lorenz - Mario Quintana em inglês: tradução além das palavras na página

Resumo: A poesia não se trata apenas das palavras no papel; muitas vezes ela explora o aspecto musical de uma língua - o eco das rimas entre as palavras e a dança métrica, a estrutura rítmica das linhas. Além disso, a poesia está sempre atenta aos silêncios sob e por entre as palavras. Porém, como o tradutor de um poema - sobretudo de um poema verso - se envolve com o que a página não deixa visível? Durante esta apresentação, considerarei alguns poemas em versos de Mario Quintana, além de minhas próprias traduções desses poemas, presentes em meu livro de poemas e traduções originais, Education by Windows. Pensaremos juntos sobre as maneiras pelas quais a música - ou a prosódia - acrescenta uma dimensão emocionante e dinâmica ao trabalho de reinvenção do tradutor. A tradução de um poema em versos é, de certa forma, um convite em aberto a outros tradutores. Vamos analisar dois dos poemas mais famosos de Mario Quintana: o curto epigrama "intraduzível", "Poeminho do Contra", e a ode do poeta a Porto Alegre, "O Mapa" - dois poemas que se deliciam em música.

Minibiografia: Johnny Lorenz é poeta, tradutor de literatura brasileira, crítico literário e professor universitário de inglês e suas literaturas. Sua tradução de "Um sopro de vida" (A Breath of Life), de Clarice Lispector, foi finalista do prêmio Best Translated Book Award, e sua tradução de "A cidade sitiada" (The Besieged City), também de Lispector, foi listada como um dos melhores livros de 2019 pela revista Vanity Fair. Entre seus méritos estão um sibsídio do PEN/Heim Translation Fund Grant, um programa de bolsa de estudos Fulbright e, mais recentemente, um incentivo do fundo NEA (National Endowment for the Arts), que subsidiou a tradução de "Torto Arado" (Crooked Plow), de Itamar Vieira Júnior. Seu livro de poemas, Education by Windows, foi publicado pela Poets & Traitors Press. Seus ensaios acadêmicos já foram contemplados nos periódicos Luso-Brazilian Review e Modern Fiction Studies.

Francesca Cricelli - Das múltiplas tessituras da língua: poesia e autotradução em Zingonia Zingone, Prisca Agustoni e Francesca Cricelli

Resumo: A autotradução, ou re-criação poética, pode ser analisada no senso estrito da escrita e em outro, mais amplo, e até metafórico (Grutman, 2014). Os estudos sobre migrações identificam essa prática como uma forma que os autores encontram para manifestar seus diferentes eus, os quais sofrem alterações a partir das mudanças de países, assim como pelo processo de integração numa nova língua e cultura (Besemeres, 2002). Ainda que as autoras que criam e recriam suas obras são as mesmas pessoas, não são vozes idênticas que simplesmente se manifestam em uma ou outra língua.

Partindo de uma perspectiva de contaminações de categorias, sendo a autora poeta-plurilingue e tradutora, o trabalho de escrita e autotradução das poetas Zingonia Zingone (Itália/Costa Rica) e Prisca Agustoni (Suíça/Brasil) será visitado e comentado, assim como será tratada, brevemente, a própria produção poética de Cricelli. Nesse exercício, abre-se espaço para um diálogo expandido em que a autotradução é vista como um processo plural que se manifesta além do trabalho individual (D'Angelo, 2011). A liberdade da autotradução se acomoda na possibilidade de recortar para si mesma um nicho no qual o autor é a autoridade e, ao mesmo tempo, o agente que se autoriza a traduzir (Grutman, 2014). Essa dinâmica já aprofundada e estudada em autores como Beckett, Ungaretti e Henriques-Britto etc. será observada na produção de duas poetas que desenvolvem sua obra entre-mundo e entre o português, o espanhol e o italiano.

Minibiografia: Francesca Cricelli é poeta, tradutora e pesquisadora. É doutora em Letras Estrangeiras e Tradução pela Universidade de São Paulo, tendo descoberto, em sua pesquisa, um acervo inédito de cartas de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco. Publicou os livros de poemas Repátria no Brasil e na Itália (Selo Demônio Negro, 2015 e Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 nos EUA (edição de autora, 2017), na Islândia (Sagarana forlag, 2017) e na China (Museu Minsheng, 2018), além da plaquette As curvas negras da terra/Las curvas negras de la tierra (edição bilíngue, Nosotros Editorial, 2019). Suas crônicas de viagem e uma breve prosa de autoficção foram reunidas no livro Errância (Edições Macondo e Sagarana forlag, 2019). Sua poesia já foi publicada em revistas como Época (Brasil), Nuovi Argomenti (Itália) e Tímarit Máls og menningar (Islândia) e sua prosa nas revistas Ventana Latina (Reino Unido) e Amarello (Brasil) e na Folha de São Paulo. Traduziu para editoras brasileiras escritoras italianas como Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016), Igiaba Scego (Nós, 2018), Claudia Durastanti (Todavia, 2021) e Fernando Pessoa para o italiano (Interno Poesia, 2021). Vive atualmente em Reykjavík, a capital mais ao norte do mundo, na Islândia, onde estuda língua e literatura islandesas.

Jeffrey Angles - Poesia, Trauma e Tradução

Resumo: Graças ao trabalho de Sigmund Freud, psicólogos há muito tempo reconhecem que as pessoas que passam por trauma costumam apresentar certas características linguísticas incomuns quando falam sobre experiências traumáticas. Por exemplo, a fala de vítimas de trauma pode conter gagueira, repetições, autointerrupções, perda de linearidade, meandros, ou no caso de bilíngues, interferência de um idioma em outro. Psicólogos observaram que, quando a linguagem funciona desta forma imprevisível, ela pode revelar tanto sobre o estado psicológico da vítima quanto uma linguagem mais comum e direta.

Não é surpreendente que a literatura sobre experiências traumáticas utilize com frequência tais recursos linguísticos como técnica narrativa. É possível observar esse fenômeno, por exemplo, na obra de Hiromi Itō, uma importante poeta feminista que escreve com foco em vários aspectos da experiência das mulheres.

Itō nasceu no Japão e imigrou para a Califórnia nos anos 90 junto das duas filhas ainda pequenas, arrancadas de repente do próprio lar e arremessadas em um ambiente novo no qual não conseguiam se comunicar. Como resultado desse trauma, a segunda filha de Itō ficou sem falar por mais de um ano e, ao retomar o ato da fala, o discurso estava repleto de características linguísticas estranhas, o que surpreendeu Itō.

Em 2004 e 2005, Itō escreveu um longo poema narrativo, Wild Grass on the Riverbank (Kawara arekusa, em japonês), em que as experiências da filha da autora são recontadas em primeira pessoa. O livro, que dá guinadas repentinas para o surreal, é uma obra prima da literatura de migração, mas o que interessa a esta apresentação é o uso constante de recursos linguísticos por Itō através do poema, associados ao trauma, que demonstram o estado psicológico da jovem narradora imigrante.

Em 2015, publiquei a tradução desse poema, porém, durante o processo de tradução, passei muito tempo em cima de soluções para as caraterísticas pouco usuais da linguagem poética de Itō, sobretudo para as que refletiam o trauma psicológico da narradora.

O pesquisador da área de Estudos da Tradução Antoine Berman observou que tradutores naturalmente tendem a suavizar características linguísticas incomuns dos textos, apagando as características únicas da obra traduzida. Essas "deformações" não são intencionais, necessariamente, e com frequência acontecem sem que o tradutor perceba. Para ajudar tradutores a entenderem como uma tradução "deforma" o texto, Berman tenta catalogar os diferentes tipos de características que tendem a sofrer no processo de tradução. De frente à lista de Berman, percebe-se que muitas dessas características são similares àquelas que compõe a linguagem de vítimas de traumas.

Se as características linguísticas que aparecem na linguagem traumática são parecidas com as que apresentam dificuldades para tradutores, o que o tradutor deve fazer ao trabalhar em um texto sobre trauma? Esta apresentação discutirá os desafios específicos que o tradutor de poemas sobre trauma pode enfrentar, entre eles, desafios éticos e linguísticos. Para explorar essa questão complexa, tratarei da minha própria experiência e dos desafios ao traduzir Wild Grass on the Riverbank para o leitor em língua inglesa.

Biografia: Jeffrey Angles é poeta, tradutor e professor de literatura japonesa na Western Michigan University, nos Estados Unidos. A sua coletânea de contos próprios em língua japonesa recebeu o prêmio Yomiuri de literatura, uma honra singular concedida a poucos falantes não-nativos desde o surgimento do prêmio em 1949. Ele traduziu dezenas dos mais importantes autores e poetas japoneses da atualidade para o inglês. Ele mantém uma forte crença no papel do tradutor como ativista e focou em sua carreira na tradução de autores e autoras feministas, queer e engajados socialmente para o inglês. Entre suas inúmeras traduções premiadas e aclamadas pela crítica estão: Killing Kanoko: Selected Poems of Itō Hiromi (Action Books, 2009), Forest of Eyes: Selected Poems of Tada Chimako (University of California Press, 2010), Twelve Views from the Distance (University of Minnesota Press, 2012), de Takahashi Mutsuo, e Wild Grass on the Riverbank, de Itō Hiromi (Action Books, 2014). Sua tradução mais recente encontra-se na edição crítica e anotada do clássico modernista The Book of the Dead, de Orikuchi Shinobu (University Minnesota Press), de 2016. No momento ele está trabalhando em vários projetos de tradução, entre eles a primeira tradução ao inglês do romance Godzilla, de Kayama Shigeru, o mesmo autor de ficção científica que escreveu o roteiro para o famoso filme de 1954.

CAMINHOS DA LITERATURA COMPARADA: ESTADO DA ARTE

PALESTRANTES: Zulma Palermo (UNSa); Rita Terezinha Schmidt (UFRGS); Eduardo Coutinho (UFF – UFRJ)
DATA: 4 de outubro, das 14h às 16h.

RESUMOS: Como um modo de produção de conhecimento sobre o fenômeno literário e suas inter-relações o comparatismo foi marcado por uma ousadia intelectual que revolucionou a tradicional divisão disciplinar ao promover um movimento contínuo de ultrapassagem dos limites que sistematizaram o saber literário em termos de subáreas nos estudos de literatura. A expansão da Literatura Comparada ao longo do século XX representou uma inovação ímpar não só no sentido de colocar em destaque as relações entre textos de literaturas provenientes de diferentes geografias, mas também no sentido de promover novos estudos das literaturas nacionais ao levantar questões-chave concernentes às relações entre centros e margens, identidade cultural/regional, produção literária e cânones literários, bem como as implicações político-culturais de processos de transferências por vias de identificações, confluências e diferenças. Em seus movimentos de reinvenção epistemológica, a literatura comparada colaborou, de forma decisiva, na descompartimentalização do saber literário via a incorporação de aportes teóricos provenientes de áreas das Ciências Humanas e Sociais bem como das Artes resgatando, desse modo, os estudos de literatura de sua insularidade institucional. Poderia se afirmar que a marca registrada da práxis comparatista é a sua indisciplina, em termos de seu movimento em direção ao outro: o outro texto, a outra literatura, a outra história, a outra cultura, a outra linguagem, o outro imaginário. Para tanto, entram em cena conceitos tais como hibridismo, heterogeneidade, margem, diferença, liminaridade e fronteira na produção de um conhecimento que além da intertextualidade, incorpora a interdisciplinaridade e a interculturalidade. A proposta desta mesa-redonda é colocar em destaque alguns dos caminhos do comparatismo atual.

A Professora Zulma Palermo, em seu texto intitulado "Glocalizaciones y descentramentos fronterizos", enfatiza a heterogeneidade cultural das sociedades e as formas diferenciadas com que essas se colocam no espaço das práticas comparatistas na região latino-americana, evocando o legado da Pátria Grande de José Marti em seu Nuestra America (1852). Argumenta ela que nesse momento particular de imposições decorrentes da globalização econômica, surge com força a necessidade de redefinir territorialidades, pertencimentos e particularidades. Nesse contexto, a professora Palermo coloca em foco a problemática do conceito de fronteira no cenário de migrações diversas que impõem atenção ao surgimento de novas formas culturais e literárias que se situam num "entre-lugar" (cf. Homi Bhabha) por apresentarem racionalidades, códigos e retóricas próprias. Ao preconizar o abandono da nomenclatura 'subalterno' para definir a relação dessa produção com a cultura central e dominante, a pesquisadora pontua a necessidade de um comparatismo contrastivo (cf. Ana Pizarro), decentrado e pluritópico (cf. Henrique Dussel) que leve ao reconhecimento da pluralidade da produção de códigos e linguagens no espaço de uma determinada região/país. Tal movimento, segundo ela, implica uma ultrapassagem do projeto histórico de uma cultura nacional una e totalizante.

Com o título de "Tendências atuais do comparatismo" o Professor Eduardo Coutinho argumenta que a Literatura Comparada sempre caminhou lado a lado às principais tendências do pensamento de seu tempo, presentes nas correntes críticas e teóricas de abordagem do fenômeno estético-literário. Nessa direção, pontua os dois grandes momentos do comparatismo em termos da Escola Francesa no século XIX, e da Escola Norte-Americana na primeira metade do século XX. Considera o professor Coutinho que a partir da segunda metade do século passado a pluralização das tendências do pensamento crítico-teórico levou a literatura comparada a acompanhar essa transformação, fato que ampliou significativamente o seu campo de atuação. Ao apresentar um recorte de tendências do comparatismo contemporâneo, o pesquisador estabelece um diálogo do comparatismo com algumas correntes que tiveram um papel relevante em processos de transculturação tais como a Desconstrução, os Estudos Culturais e Pós-Coloniais, bem como as tendências que se abrigam sob a chamada "Literatura-Mundo". No seu entendimento, a despeito das diferenças, é possível identificar nessas correntes um traço que tem se tornado marcante na literatura comparada e que, segundo ele, ainda que com cuidado, seja possível definir o referido traço como a busca de um novo humanismo.

Em "Por um comparatismo decolonial" a professora Rita Terezinha Schmidt parte de algumas colocações da comparatista Mary Louise Pratt em sua obra Olhos imperiais: escrita de viagem e trasnculturação, de 1992 (traduzido para o português em 1999) como moldura de sua fala. Segundo Pratt, em tempos de diásporas e exílios transnacionais em escala planetária, produzidos por um sem-fim de conflitos étnico-raciais, pela intolerância religiosa e pelos novos fundamentalismos, o exercício da cidadania é continuamente violado e a democracia é tomada de assalto por velhas formas de autoritarismo. À luz da pertinência contemporânea das colocações de Pratt torna-se impossível não reconhecer que em geografias de forte passado colonial como a América Latina, a democracia não raro assume formas de autoritarismo as quais reinstituem legados coloniais/ocidentais em termos de hierarquias de raça, classe, gênero e sexualidades que perpetuam marginalizações e exclusões, inclusive no campo literário. Considerando a descolonização do pensamento como um processo de desocidentalização associado à expansão da literatura comparada na América Latina, na África e na Ásia nas últimas duas décadas, a professora coloca em pauta a teoria decolonial e sua voltagem teórico-crítica a partir do pensamento de uma de suas pioneiras, a filósofa argentina Maria Lugones.

BIOGRAFIAS:

Zulma Palermo: Professora Emérita da Universidade Nacional de Salta (Argentina), Doutora HC da Universidade Nacional de Formosa (Argentina), dirige sua pesquisa a partir da crítica à cultura latino-americana, investigando a formação de imaginários nas culturas locais. Desenvolve seminários e oferece conferências de sua especialidade em diferentes universidades do país e do exterior e foi premiada com diversos prêmios por seu trabalho acadêmico.

Seus livros Escritos al margen , La región, el país. Estudios sobre poesía salteña actual, De historia, leyendas y ficciones, Hacia una historia literaria en el Noroeste Argentino, enfocam a produção literária. Os artigos publicados em diferentes revistas e livros coletivos estão mais definitivamente orientados para o campo das construções teóricas: "De nacionalismos y regionalismos o los avatares de las políticas culturales metropolitanas", "Los 'Estudios Culturales' bajo la lupa: la producción académica en América Latina", "Semiótica del vacío y de la espera",El sentido de la diferencia: pensar desde los márgenes andinos”, “Estudios culturales y epistemologías fronterizas en debate”, “Texto cultural y construcción de la identidad. Contribuciones a la interpretación de la ‘imaginación histórica’, Salta, S. XIX”. Últimos livros: Desde la otra orilla. Pensamiento crítico y políticas culturales en América Latina  y Cuerpo(s) de Mujer. Representación simbólica y crítica cultural, Las culturas cuentas, los objetos dicen…; Como coordenadora e / ou compiladora:: Colonialidad del poder: discursos y representaciones, Arte y estética en la encrucijada descolonial, Para una pedagogía decolonial y Aníbal Quijano; textos de fundación.

Rita Terezinha Schmidt: PhD pela Universidade de Pittsburgh (EUA), professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Atua no Programa de Pós-Graduação de Letras desde 1985, sendo que desde 2016 é professora convidada do referido Programa. É bolsista de produtividade do CNPq, com projetos na área de literatura comparada e foco na ficção de autoria feminina nas literaturas brasileira e latino-americana. Organizou reedições de obras (romance e poesia) de escritoras brasileiras do século XIX bem como seis coletâneas de ensaios de Literatura Comparada. Foi Vice-Presidente da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada, 2002-2004) e é Membro do Comitê Executivo da ICLA ( Associação Internacional de Literatura Comparada, 2019-2022). Além de livro, artigos em periódicos e capítulos em obras publicadas no país, tem capítulos em coletâneas no exterior: Episodes from a History of Undoing: The Heritage of Female Subversiveness (2012); The Cambridge History of Latin American Women´s Literature (2016); Tropical Gothic in Literature and Culture: The Americas (2016); Brazilian Literature as World Literature (2018); e Comparative Perspectives on the Rise of the Brazilian Novel (2020). Desenvolve pesquisas sobre corpo, trauma, poder, violência, gênero e sexualidade a partir da interface literatura, filosofia e direito e na perspectiva de teorias feministas contemporâneas.

Eduardo de Faria Coutinho: Professor Titular Emérito de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pesquisador 1 A do CNPq. É Mestre em Literatura Comparada pela Univ. da Carolina do Norte, Chapel Hill (EUA), e Doutor (PhD) em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA (1983). Além de sua atividade docente na UFRJ, tem sido Professor Visitante em diferentes universidades no Brasil e no exterior (La Habana, Cuba; Córdoba, Argentina; Bochum, Alemanha; Illinois-Urbana/Champaign, EUA). Foi Vice-Presidente da Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (ANPOLL), e membro do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. É membro fundador e Ex-Presidente da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), Ex-Vice-Presidente da Associação Internacional de Literatura Comparada (AILC/ICLA), membro do PEN Clube Internacional e Consultor Científico de diversas agências de fomento à Educação (CAPES, CNPq, FAPERJ, FUJB). Tem 30 livros publicados como autor e/ou organizador, e numerosos ensaios e artigos em jornais e periódicos especializados no Brasil e no exterior.

LIVROS:

The Process of Revitalization of the Language & Narrative Structure in the Fiction of João Guimarães Rosa & Julio Cortázar. Valencia (Espanha): Estudios Hispanófilos, 1980.

Guimarães Rosa.  Coleção "Fortuna Crítica". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.  (Organizador) 2a ed.: 1991.

A unidade diversa: ensaios sobre a nova literatura hispano-americana.  Rio de Janeiro: Anima, 1985.  (Organizador)

José Lins do Rego. Coleção "Fortuna Crítica". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. (Org. em colaboração com Ângela Bezerra de Castro). 

The "Synthesis" Novel in Latin America: a Study on João Guimarães Rosa's Grande sertão: veredas. Chapel Hill, North Carolina Studies in Romance Languages & Literatures, 1991.

Em busca da terceira margem: ensaios sobre o Grande sertão: veredas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.  

Literatura Comparada: textos fundadores. Rio de Janeiro, Rocco, 1994. (Org. em colaboração com Tania Franco Carvalhal). 2ª ed.: 2011. 

Cânones e contextos: 5o. Congresso ABRALIC - Anais. 3 vols. Rio de Janeiro, ABRALIC, 1997-98. (Organizador)

Sentido e função da Literatura Comparada na América Latina. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000.

Fronteiras imaginadas: cultura nacional/teoria internacional. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.  (Organizador). 

Literatura Comparada na América Latina: ensaios. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003.  

Literatura Comparada en América Latina: ensayos. Cali, Colômbia: Universidad del Valle, 2003.  

Elogio da lucidez: a comparação literária em âmbito universal. Porto Alegre: Evangraf, 2004.

Empréstimo de ouro: cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2009. (Org. em colaboração com Teresa Cristina Meireles de Oliveira).

Discontinuities and Displacements: Studies in Comparative Literature. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (Organizador).

Crossings and Contaminations: Studies in Comparative Literature. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (Organizador). 

Identities in Process: Studies in Comparative Literature. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (Organizador).  

Discursos de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2011 (Org. em colaboração com Vera Lúcia Teixeira Kauss). 

O bazar global e o clube dos cavalheiros ingleses. Textos seletos de Homi Bhabha. Rio de Janeiro: Rocco, 2011 (Organizador).

Afrânio Coutinho. Coleção “Essencial”. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2011. 

Literatura Comparada: reflexões. São Paulo: Annablume, 2013.

Grande sertão: veredas. Travessias. São Paulo: É Realizações Editora, 2013. 

Afrânio Coutinho: textos reunidos. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2013.

Rompendo barreiras: ensaios de literatura brasileira e hispano-americana. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014. 

Angélica Soares: memória sem margens. Rio de Janeiro: 7Letras, 2015. (Org. em colaboração com Ângela M. Dias e Maximiliano Torres). 

Brazil. Santa Barbara, CA; Denver, CO: ABC-CLIO, 2016. (Org. Em col. com Luciano Tosta).

Raul Pompeia. Coleção “Fortuna Crítica”. Foz do Iguaçu: EDUNILA; Rio de Janeiro: CEAC/ UFRJ, 2016.

Literatura Comparada: reflexiones. Bucaramanga, Colômbia: Universidad Industrial de Santander, 2017. 

Brazilian Literature as World Literature. (Organizador). N. York: Bloomsbury, 2018. 

Comparative Literature as a Transcultural Discipline (Organizador). São Paulo: Annablume, 2018.