ESTUDOS DA TRADUÇÃO: QUESTÕES DE GÊNERO

SIMPÓSIO - ST24

COORDENADORES

Andréa Moraes da Costa (Universidade Federal de Rondônia - UNIR)
Válmi Hatje-Faggion (Universidade de Brasília - UnB)

RESUMO

Redefinições críticas envolvendo gênero e tradução sob a perspectiva dos Estudos Culturais, especialmente a partir da década de 1970, têm ampliado as possibilidades de pesquisa no campo dos Estudos da Tradução, uma vez que objetos de pesquisa, até então preteridos no universo acadêmico, passaram a ser percebidos com atenção especial, sendo, então, incluídos em suas investigações. Como um dos resultados dessa dinâmica, houve, por exemplo, um movimento no sentido de redefinir a própria concepção de tradução. A ação de traduzir passou a ser compreendida como o ato de reescrever, e o tradutor, por sua vez, passou a ser considerado como reescritor. Assim, passaram a importar, por exemplo, investigações voltadas para o contexto de produção e comercialização de obras traduzidas. O interesse nesse contexto deve-se ao fato de que as condições de produção de determinadas obras estão condicionadas a vários fatores políticos, ideológicos e culturais propensos a polêmicas, como subalternidades e questões de gênero vigentes na cultura receptora. No que tange especificamente ao gênero, o empenho em tais investigações provocou novos questionamentos e novas problemáticas advindos de diferentes esferas de onde a mulher se situa, tais como classe social, profissão, dentre outras. Os debates colocando ao centro o sexo da autoria passam a dar lugar a discussões “involving gender signs encoded in the text” [envolvendo marcas inscritas no texto], como atesta Susan Bassnett (1992, p. 63). Atem-se, então, paralelamente a isso, à compreensão de feminino para além da visão que o define como contraposição ao masculino. Nesse contexto, as publicações de Translating and Gender (1997), Translating Women (2011) e Translating Women: Different Voices and New Horizons (2017), da canadense Luise von Flotow, servem de ilustração no que diz respeito a possíveis estudos orientados pela associação das temáticas tradução e gênero. Nessa última obra, por exemplo, a pesquisadora oferece ampla discussão considerando políticas identitárias aplicadas à tradução, ao feminismo, ao gênero e à teoria queer. Assim sendo, no processo tradutório a atuação dos tradutores se mostra diretamente relacionada ao modo de sua leitura para compreender, interpretar e reescrever o texto de partida em suas diversas possibilidades. Nessa reescritura revelam-se tomadas de decisão, escolhas e estratégias que permitem a reflexão sobre as questões levantadas pelo texto que envolvem feminismo, poder e uso da linguagem em momentos históricos e lugares diversos que asseguram a sobrevida/pervida do texto de origem (BENJAMIN, apud HEIDERMANN, 2001). Ainda, é possível refletir acerca de que textos adicionados, na tradução publicada, como os prefácios assinados pelos tradutores, anunciam o surgimento de uma outra presença discursiva, “the presence of a second hand”, a inscrição de duas assinaturas, uma “double signature” (SIMON, apud BASSNETT; LEFEVERE, 1990, p. 111), resultando na pluralidade de vozes inscritas no texto traduzido. Desse modo, a tradução reconhecida em seu valor intrínseco e como elemento de difusão literária e prática legitimada contribui para produzir uma história cultural que se escreve em diferentes dimensões e modulações, as quais revelam dados importantes de dada época e lugar. Por isso, a relevância de analisar o texto traduzido – cotejado com seu texto de partida –, como procedimento literário e manifestação cultural, bem como a interferência que provoca em cada novo polissistema que o recebe (CARVALHAL, 2003, p. 255). Nesse âmbito, a (in)visibilidade das tradutoras, relevante no escopo dos estudos da tradução feminista, permite a análise da presença da pluralidade de vozes, da linguagem (não) sexista, das normas vigentes para explorar novos espaços de prolongamento de dada obra. Observa-se, portanto, que nesta proposta se evidencia a relação intrínseca entre os Estudos da Tradução e os Estudos de Gênero, visto que ambos os estudos são interligados ao sujeito da linguagem a qual, assim como suas múltiplas manifestações, ocupam papel fundamental no que diz respeito à promoção da visibilidade de tradutoras e suas traduções. Nesse sentido, em diálogo com os aspectos abordados aqui, este Simpósio aceita propostas que contemplem a análise de traduções publicadas com relação aos seguintes aspectos: – modelos de tradução utilizados nas tomadas de decisões das tradutoras; – processo tradutório e uso da linguagem; – tradução feminista comentada; – discursos paratextuais e suas possíveis implicações; – tradução e (in)visibilidade da tradutora; – tradução feminista sob a perspectiva do polissistema literário; – a (auto)representação da tradutora; – crítica, tradição e história da tradução e da tradutora.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASSNETT, SUSAN. Writing in no man’s land: questions of Gender and Translation. In: Ilha do Desterro. Florianópolis, n. 28, 1992. pp. 63-74. BENJAMIN, Walter. A tarefa–renúncia do tradutor. Tradução de Suzana K. Lages. In: HEIDERMANN, Werner (Org.). Clássicos da teoria da tradução. Florianópolis: USFC, Núcleo de Tradução, 2001, p. 189-215. (Antologia bilíngüe, alemão–português, 1) CARVALHAL. Tania Franco. O próprio e o alheio. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003. SIMON, Sherry. Translating the will to knowledge: prefaces and Canadian literary politics. In: BASSNETT, Susan; LEFEVERE, André (Ed.). Translation, history and culture. London and New York: Cassell, 1990. p.111-117. VON FLOTOW, Luise. Translating and Gender. Ottawa: University of Ottawa Press, 1997. VON FLOTOW, Luise. Translating Women. Ottawa: University of Ottawa Press, 2011. VON FLOTOW, Luise. Translating Women: Different Voices and new horizons. London and New York: Routledge, 2017.

PALAVRAS-CHAVE

Gênero; Estudos da Tradução; Paratextos; Tradutores; Uso de linguagem.

PROGRAMAÇÃO

S01 29/09 14h-16h30 - https://youtu.be/cfDCqzBw4tc

S02 30/09 14h-16h30 - https://youtu.be/p38D0xI_6EQ