ESTUDOS DE TRADUÇÃO E AUTORIA: O TRADUZIR E O TRADUZIDO

SIMPÓSIO - ST25

COORDENADORES

Valeria Silveira Brisolara (UNISINOS)
Paulo Roberto de Souza Ramos (UFRPE)

RESUMO

No cenário contemporâneo de globalização, muitos se engajam em e interagem através de traduções e não é preciso um olhar minucioso para se constatar a ubiquidade da tradução na vida diária das pessoas em diferentes contextos. A partir disso, a prática tradutória tem ganhado visibilidade no cenário mundial nas últimas décadas e o campo denominado como Estudos da Tradução tem tido crescente importância, especialmente após 1990, com o advento de novas tecnologias e formas de interação, que levaram ao surgimento de novas possibilidades de tradução e, consequentemente, de novas teorias. Correntes teóricas como a Escola da Manipulação, vem ganhando espaço e colocando uma maior ênfase em aspectos culturais e sociais ligados às traduções. Teorias de cunho ideológico, cultural e sociológico, como a feminista e, mais recentemente, a teoria queer, tem tomado o lugar de teorias de ênfase mais textual. Pesquisadores têm ampliado o foco de suas investigações, levando em conta o contexto cultural e social em que as traduções são feitas e circulam, deixando de se concentrar unicamente nos textos em si, mas em suas circulações e repercussões, como se pode observar nas teorias dos autores que embasam esta proposta, tais como Lawrence Venuti, Antoine Berman e Itamar Even-Zohar, e a visão de tradução e literatura que compartilhamos, enquanto práticas sociais que têm uma natureza política e ideológica (VENUTI, 1995, 1998). Assim, este simpósio alinha-se a essas teorias contemporâneas da tradução, nas quais a tradução não é mais vista como uma atividade secundária, mas sim tomada como uma prática social e autoral situada na medida em que as escolhas do tradutor são vistas como uma intervenção cultural com impacto no polissistema literário (EVEN-ZOHAR, 1990) ou campo literário maior (BOURDIEU, 2015) e a literatura como um elemento relevante poderoso na sociedade. (EVEN-ZOHAR, 1990). A tradução é parte relevante de um sistema literário maior e está ligada a engrenagens desse sistema do qual faz parte, mas dentro do qual tem grande influência (EVEN-ZOHAR, 1994). Nessa perspectiva, surgem questionamentos sobre o papel da tradução e o papel do tradutor na sociedade contemporânea. Nesse contexto, surgem indagações relevantes sobre que textos ou discursos devem ser traduzidos, por quem devem ser traduzidos, como e onde devem ser traduzidos e, ainda, para quem devem ser traduzidos. Da mesma maneira, ainda tomando a perspectiva de Venuti, a tradução é governada pelo objetivo de manter uma relação com o texto original (VENUTI, 1998, p. 44), sendo, no entanto, um outro original, o que a caracteriza como uma prática autoral; com isso, Venuti chama atenção para o frequentemente ignorado papel de quem traduz. Ainda, por conta do já referido contexto de globalização e da multiplicidade de perspectivas nos estudos da tradução, parece propício revisitar à questão de normatividade em tradução (TOURY, 1985/1995; HERMANS, 1996; DARWISH, 1999) e se discutir o peso das normas tradutórias vistas, conforme Hermans (1996, s.p.) “como realidades sociais e culturais, bem nos moldes que os sociólogos e antropólogos poderiam usá-las” na ações e concepções de quem traduz e nos produtos resultantes destas, considerando o impacto das escolhas ou decisões tradutórias. Assim, interessa-nos enfocar os “princípios e objetivos da tradução” ? (VENUTI, 1998, p. 3), que têm sido objeto de nossas pesquisas recentes. O objetivo do simpósio é acolher trabalhos que reflitam sobre o cenário atual da tradução no Brasil, ou seja, o que está sendo traduzido no Brasil, para quem está sendo traduzido, onde está sendo traduzido e como está sendo traduzido, ou seja, o impacto e lugar das traduções no cenário literário e social. São de especial interesse do simpósio os trabalhos que analisem traduções enfocando as estratégias de tradução (domesticação/estrangeirização) (VENUTI, 1995; SCHLEIERMACHER, 2011) adotadas, a literatura brasileira em tradução e retradução; as retraduções e temporalidade das traduções (BERMAN, 2007); a tradução e o plágio; as questões éticas associadas à tradução; ghost-translating; os paratextos e os espaços para a voz do tradutor; a normatividade em tradução; os trabalhos utilizando teorias contemporâneas da tradução, como a Tradução queer, a tradução queerificadora; os trabalhos que lidem com questões relacionadas à Visibilidade/invisibilidade do tradutor, ou seja, a presença discursiva do tradutor; e o tradutor como “agente social” (BOURDIEU, 2004); assim como os papéis e as identidades do tradutor no cenário atual de tecnologia com uso de ferramentas, sistemas e programa de tradução.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERMAN, Antoine. A Tradução e a Letra ou o Albergue do Longínquo. Tradução de Marie-Heléne Catherine Torres, Mauri Furlan e Andreia Guerini. Rio de Janeiro; 7Letras/ PGET, 2007. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2015. DARWISH, A. Towards a Theory of Constraints in Translation – A work in progress. 1999. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/290195054_Towards_A_Theory_of_Constraints_in_Translation>. Acesso em: 25 Abr. 2021. EVEN-ZOHAR, Itamar. Polysystem studies. Poetics Today. Durham: Duke University Press, v.11, n.1, 1990. EVEN-ZOHAR, Itamar. A Posição da literatura traduzida dentro do polissistema literário. Translatio, n. 3, 2012, Porto Alegre. EVEN-ZOHAR, Itamar. Literature as goods, literature as tools. Neohelicon XXIX, 2002, v. 1, p.75–83. HERMANS, T. Norms and the Determination of Translation. A Theoretical Framework. 1996. Disponível em: <https://pdfs.semanticscholar.org/59b7/f08e71d148e627ca3e676a14bb1252fb24d0.pdf> Acesso em: 25 Abr. 2021. HERMANS, T. Translation and Normativity. 1998. Disponível em: <https://pdfs.semanticscholar.org/365b/847ce77aa8e3177a119ea45c44763c411dec.pdf> Acessado em: 25 Abr. 2021. SCHLEIERMACHER, Friedrich. Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens / Sobre os diferentes métodos de tradução / Sobre os diferentes métodos de traduzir / Dos diferentes métodos de traduzir. Tradução de Margarete von Mühlen Poll, Celso R. Braida, Mauri Furlan. Scientia traductionis, nº 9. Florianópolis: UFSC, 2011. TOURY, Gideon. Descriptive Translation Studies and Beyond. John Benjamins Publishing Company. 1995. VENUTI, Lawrence. The translator’s invisibility: a history of translation. London/New York: Routledge, 1995. VENUTI, Lawrence. The Scandals of Translation: towards an ethics of difference. New York: Routledge, 1998.

PALAVRAS-CHAVE

Tradução; Autoria; Visibilidade; Normatividade; Ética.

PROGRAMAÇÃO

S01 13/09 14h-17h - https://youtu.be/lPpH77hZ3Mw

S02 14/09 09h-12h - https://youtu.be/4CCKzmft3hQ

S03 14/09 14h-17h - https://youtu.be/9O65b-ORj40