LITERATURAS HISPÂNICAS EM DIÁLOOG: MEMÓRIAS, HISTÓRIAS E NARRATIVAS NOS SÉCULOS XX-XXI

SIMPÓSIO - ST58

COORDENADORES

Luciana Ferrari Montemezzo (Universidade Federal de Santa Maria)
Phelipe de Lima Cerdeira (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Rosane Maria Cardoso (Universidade do Rio Grande)

RESUMO

O presente simpósio tem por objetivo discutir e refletir sobre as literaturas de língua espanhola produzidas nos séculos XX e XXI, partindo da análise de seus contextos de produção e de recepção, tendo em vista as relações que elas estabelecem com o Brasil. A proposição de friccionar os múltiplos espaços de enunciação do universo hispânico, a partir dos horizontes de recepção e de crítica estabelecidos em universidades e grupos de pesquisa, amplia a busca pela fissura de determinado campo de poder (BOURDIEU, 1990, 2002). Esse processo reverbera conjuntos de epistemologias outras (MIGNOLO, 2003), capazes de escapar de hipertrofias e ideias de literaturas nacionais sistematizantes, que pouco parecem dialogar com as expectativas e exigências trabalhadas via Literatura Comparada, há muito, libertas do estigma do texto devedor (COUTINHO, 2004). Ao resgatar postulados como os estabelecidos por Claudio Guillén (1985), fomentamos o quanto parece ser, sobretudo na América Latina, cada vez mais producente o exercício que prevê o pensar literário, a partir de uma dialética entre o local e o pretenso universal, entendendo que a única constante verdadeiramente possível é a da pluralidade. Da década de 30 – entendida como um ponto de inflexão para pensar as literaturas hispânicas para além das múltiplas contribuições das estéticas vanguardistas –, passando pelo boom – movimento-chave para que a literatura se transforme em personagem de si – e pelo pós-boom, são diferentes as experiências que nos permitem pensar a literatura a partir de suas mutações (PERRONE-MOISÉS, 2016). Por outro lado, é preciso considerar as situações de pouco prestígio que o português e o espanhol ocupam no que Pascale Casanova (2002) denominou “República Mundial das Letras”: um espaço de origem eurocêntrica que se espalha de forma irregular e desigual pelo planeta. Sob tal ponto de vista, as desigualdades tornam-se mais evidentes nos países colonizados. Entendemos que as literaturas estrangeiras surgem em um novo sistema literário devido à demanda de novos leitores. Esses leitores procuram, a partir de textos estrangeiros, preencher uma lacuna deixada pelo seu próprio sistema literário. Em busca da diversidade de vozes e de multiculturalidade, o leitor de um texto em língua estrangeira almeja aquilo que não é dito – ou é dito de modo diverso – na sua língua. Seja por meio de divulgação editorial, viagens, publicidade, críticas literárias, correspondências, prefácios, traduções (anotadas e comentadas ou não), entrevistas ou por informações divulgadas em rede, os leitores ampliam seus horizontes para além de sua língua materna e passam a desejar ler autores estrangeiros. De acordo com Carvalhal (2003), esses elementos, somados aos “fenômenos editoriais, as revistas e jornais literários”, são fundamentais para a divulgação do conhecimento. Nesse espaço, os novos textos são recebidos pelo novo público. Além disso, tais fontes podem trazer à tona aspectos relevantes, insólitos, obscuros sobre a biografia ou a obra de um determinado autor ou período literário. Compreender que aspectos chamaram a atenção do público brasileiro para um autor que não faz parte da sua cultura e que não escreve na sua língua potencializa o diálogo e estabelece vínculos que fortalecem a memória cultural entre diferentes povos e culturas. Para Steiner (2005), “cada língua mapeia um mundo diferente”. Nesse sentido, interessa mapear os espaços percorridos para que os textos produzidos em língua espanhola cheguem ao público brasileiro. Portanto, este simpósio, cujo eixo parte da premissa de estabelecer diálogos entre as literaturas hispânicas, receberá propostas de trabalhos inseridos nas seguintes temáticas: a) o desenvolvimento das literaturas escritas na Península Ibérica e na América em contraste, fortalecendo a quebra de hierarquias entre as partes; b) a retroalimentação cultural e literária entre escritores e escritoras desde o século XX; c) estudos tradutórios de obras publicadas a partir do século XX; d) estudos e pesquisas que expandam as lacunas e silenciamentos sistematicamente perpetrados pelas historiografias literárias, valorizando as autorias feminina, indígena e afro-hispânica; e) problematizações acerca de vozes periféricas apagadas por processos ditatoriais e/ou hegemônicos, dando vazão para experiências de migrações, exílio e insilio; f) leituras de poéticas que discutam os múltiplos encontros e desencontros dos discursos ficcional e histórico; g) problematizações sobre os conceitos de autoficção e escritas do eu; h) trocas culturais e memória histórico-literária; i) fontes primárias: o papel de entrevistas e de epistolários na fortuna crítica de um autor; j) interpretação e divulgação de autores contemporâneos: temas e metodologias de pesquisa comparatista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, Pierre. El campo literario. Prerrequisitos críticos y principios de método. Criterios, La Habana, n.25-28, enero 1989-diciembre 1990, p. 20-42. Trad. Desiderio Navarro. Disponível em: http://educacion.deacmusac.es/practicaslegitimadoras/files/2010/05/bourdieucampo.pdf. Acesso em: 26 abr. 2021. CARVALHAL, Tania Franco. O próprio e o alheio. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2003. CASANOVA, Pascale. A República Mundial das Letras. Tradução Marina Appenzeller. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. COUTINHO, Eduardo. La reconfiguración de identidades en la producción literaria de América Latina. In: ELGUE DE MARTINI, Cristina et al. Espacio, memoria e identidad: configuraciones en la literatura comparada. Córdoba: Comunicarte Editorial, 2005. p. 117-126. GUILLÉN, Claudio. Entre lo uno y lo diverso. Barcelona: Editorial Crítica, 1985. MIGNOLO, W. Historias locales, diseños globales. Colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo. Buenos Aires: Akal Ediciones, 2003. PERRONE-MOISÉS, Leyla. Mutações da literatura no século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. STEINER. George. Depois de Babel. Curitiba: UFPR, 2005. Tradução de Carlos Alberto Faraco.

PALAVRAS-CHAVE

Literaturas Hispânicas; Memória; História; Tradução; Fontes primárias.

PROGRAMAÇÃO

S1 13/09 14h-17h - https://youtu.be/OLraiLZkvKI

S2 15/09 14h-17h - https://youtu.be/pMHe7AGfd7I