VERSÕES DA LUSOFONIA

SIMPÓSIO - ST86

COORDENADORES

Andreia Guerini (Universidade Federal de Santa Catarina)
Odile Cisneros (University of Alberta)
Orlando Grossegesse (Universidade do Minho)

RESUMO

Embora falada por mais de 250 milhões de pessoas de 09 países em 04 continentes (https://www.cplp.org/), a língua portuguesa ocupa um lugar "periférico" no sistema-múndi globalizado. Em termos literários, a produção desses países lusófonos é muito rica e variada, mas pouco conhecida no âmbito da literatura universal. Não por acaso, em Gênio. Os 100 autores mais criativos da história da literatura (2003), Harold Bloom elege como representantes da língua portuguesa Camões, Eça de Queirós e Machado de Assis, escritores consagrados, mas todos anteriores ao século 20. E em O Cânone Ocidental: Os livros e a escola do tempo (2001), publicação anterior ao Gênio, temos Fernando Pessoa, junto com Borges e Neruda. Bloom cita e destaca a obra de três autores portugueses, um brasileiro e nenhum africano ou asiático. Curiosamente, Pessoa, considerado o maior poeta português do século 20, teve uma recepção muito tardia no universo de língua inglesa. No entanto, em 1975, a publicação de New Portuguese Letters (tradução de Helen Lane para o inglês de Novas Cartas Portuguesas, uma obra coletiva e heterogênea de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, também conhecidas como “as três Marias”, e publicada originalmente em 1972), teve um impacto importante em correntes feministas internacionais. Mais recentemente, autores como o português José Saramago e o moçambicano Mia Couto ficaram conhecidos pelo mundo fora, o primeiro recebendo o Prêmio Nobel em 1998 e o segundo o Prêmio Neustadt em 2014. Essa fortuna literária desigual do mundo de língua portuguesa leva a questionamentos importantes: qual é o lugar das literaturas de língua portuguesa no mapa da literatura mundial? Como ela se posiciona perante a outras literaturas dominantes? Se, como argumenta o crítico literário americano David Damrosch (2003), “literatura mundial” é a forma em que as obras literárias circulam fora de seu contexto nacional, as literaturas de língua portuguesa podem apresentar um estudo de caso bastante rico e diversificado além de paradoxal por ter tido, apesar de sua riqueza, pouca disseminação em outros contextos. Por isso, este simpósio tem por objetivo, em um primeiro momento, dar continuidade ao seminário "Versões do Brasil 1 e 2", que aconteceu no âmbito da Associação de Literatura Americana Comparada (ACLA), de 09 a 11 de abril de 2021, que se propôs a discutir como a literatura brasileira circula no exterior, mais especificamente nos sistemas literários de língua inglesa, espanhola, francesa e italiana. O seminário da ACLA abordou variados assuntos, das recentes traduções e retraduções de Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado e autores do Nordeste brasileiro, até questões de internacionalização, pedagogia, teoria e performance em ficção e poesia contemporâneas. Em um segundo momento, este seminário quer ampliar a discussão incorporando um âmbito maior da lusofonia a fim de verificar como as literaturas de língua portuguesa (e não apenas a brasileira) têm sido recebidas em outros sistemas culturais. Apesar de uma longa história e conquistas inquestionáveis, em geral, as obras literárias de língua portuguesa, aparentemente, não se destacam no cenário literário mundial ou ficam circunscritas a determinadas épocas (o caso de Os Lusíadas, de Camões) ou a determinados grupos, como o da academia (o caso das obras de Machado de Assis), ou ao mercado editorial (o caso das obras de Paulo Coelho). Grande parte da circulação de obras só é possível através da tradução, e as traduções atuam como uma força e podem interferir em seu funcionamento, como já destacado por Itamar Even-Zohar (2000) em sua Teoria do Polissistema Literário. Entre as perguntas mais importantes que surgem está a questão do impacto da tradução na fortuna literária das que, no contexto nacional, ou da língua, são consideradas obras-primas. Por que e como as obras literárias escritas em português atingem públicos e reconhecimento para além do contexto da lusofonia? Há escritas que assumem o lugar de “born translated” (Walkowitz 2015)? Este seminário quer examinar textos-chave da lusofonia e sua tradução em vários idiomas (alemão, inglês, espanhol, francês, italiano, russo, chinês e outros), para avaliar a sorte de tais “versões” no cenário literário mundial. Quais autores tiveram sucesso fora do seu contexto nacional e linguístico e quais não? Foi a tradução responsável pelo sucesso ou falta dele? Qual seria o mapa, ou mapas (Lambert, 1990) das literaturas de língua portuguesa no mundo não-lusófono? É possível esboçar uma história das traduções (Lambert, 2020) de literaturas de língua portuguesa? Como as micro-histórias (Adamo, 2006 e Ginzburg, 1993) podem ajudar a compreender a macro-história da recepção de autores de obras de língua portuguesa?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADAMO, S. “Microhistory of translation”. In BASTIN, G. L. & BANDIA, P. F. (eds). Charting the Future of Translation History, Ottawa: University of Ottawa Press, 2006, p. 81–100. BLOOM, H. Gênio. Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Tradução de José Roberto O'Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. BLOOM, H. O Cânone Ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. DAMROSCH, D. “From the Old World to the Whole World.” What Is World Literature? Princeton: Princeton University Press, 2003. EVEN-ZOHAR, I. The Position of translated literature within the literary polysystem. In: Lawrence Venuti (Org.). The Translation Studies Reader. Londres: Routledge, 2000, p. 192-197. GINZBURG, C. “Microhistory: Two or three things that I know about it”. Translated by John & Anne C. Tedeschi. In Critical Inquiry 20/1, 1993, p. 10–35. LAMBERT, J. “A la recherche de cartes mondiales des littératures”, in Janos Riesz & Alain Picard, Eds. Semper aliquod novi. Littérature comparée et Littératures d’Afri - que. Mélanges offerts à Albert Gérard. Tübingen, Gunter narr, 1990, pp. 109-121. LAMBERT, J. 2 “On the Fragmented History of Translation Historiography”. Moniz, Maria Lin, Isabel Capeloa Gil & Alexandra Lopes (eds). Era uma vez a tradução... / Once upon a time there was translation. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020. WALKOWITZ. R. L. Born Translated: The Contemporary Novel in an Age of. World Literature. New York: Columbia UP, 2015.

PALAVRAS-CHAVE

Literaturas de língua portuguesa; Literatura Mundial; Recepção; Tradução; Versões.

PROGRAMAÇÃO

S01 28/09 10h-12h - https://youtu.be/Tf1LbK-bHcs

S02 30/09 10h-12h - https://youtu.be/FgNwlvkugMM