FABULANDO O REAL UTÓPICO

SIMPÓSIO - ST29

COORDENADORES

André Carvalho (Universidade Federal de Santa Catarina)
Guilherme de Figueiredo Preger (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

RESUMO

FABULANDO O REAL UTÓPICO “Realismo capitalista” é o termo de Mark Fisher (2009) para resumir o estilo da exaustão, da esterilidade cultural e do esvaziamento da imaginação transformadora no presente. Franco Berardi (2011) percebe que o século XX foi definido pela crença no futuro, estilizado nas poéticas de diversos modernismos. “Os modernos ainda acreditavam que poderia se conhecer o futuro e fazê-lo obedecer a vontade humana”, escreve o filósofo italiano (2011, p. 38). No entanto, após as sucessivas crises econômicas, sociais e psíquicas promovidas pelos governos “sem alternativas” de Thatcher, Reagan e outros, além da derrocada da alternativa soviética, Berardi nos situa no “pós-futuro”, um cenário que veta a antecipação do vindouro. Ele afirma que estamos vivendo uma “asfixia” e que precisamos de uma “insurreição da linguagem” (2020). Dardot e Laval vaticinam na abertura de Comum: “o futuro parece bloqueado” (2018, p. 12). Darko Suvin define a utopia como “um gesto de apontar” (1977, p. 37) e “uma violação dos limites” (1977, p. 32). Raymond Williams liga utopia à declaração consciente de um desejo e ao soar de um alerta (1978, p. 203), atos performativos que dependem da crença no porvir. Mas, se o futuro está bloqueado, como as utopias podem se articular? A imaginação utópica se esvaiu? Utopia e movimento socialista estão profundamente conectados. As utopias literárias do final do século XIX (BELLAMY, 1890; MORRIS, 1908) são a sublimação ficcional de um período de imaginação utópica fervente, por vezes concretizado em experimentos sociais como os de Saint-Simon e Fourier. Durante o período do socialismo real, autores da URSS produziram utopias ficcionais, como Hard to be a God (STRUGATSKY; STRUGATSKY, 2015) e Red Star (BOGDANOV, 1984). Mesmo após a derrocada do regime, o “experimento” soviético ainda é tema de especulação ficcional, como no romance Red Plenty (SPUFFORD, 2010), e a Revolução Cultural chinesa é pano de fundo para a trilogia de ficção científica de Liu Cixin (2014). Em 1890, Edward Bellamy (1890) já imaginava uma rede de comunicação orientada por emissores e receptores conectados por válvulas a vácuo. Vladmir Khlebnikov (1987) escreve em 1921 sobre “o rádio do futuro”. Tais autores pressentem a utopia da “sociedade em rede”, que nos anos 2000 era defendida por autores como Manuel Castells (2000) e Kevin Kelly (2002). Hoje, o “socialismo digital” (MOROZOV, 2018) permanece uma questão em aberto, conforme é cercado por monopólios de vigilância, empacotamento e venda de dados privados. Mesmo assim, existem aqueles que ouvem o chamado de uma forma diferente de comunicação, capaz de alterar a consciência do possível, como no conto “Story of Your Life” (CHIANG, 2016). O ativismo ecológico organizado na obra de Rachel Carson, Silent Spring (2002) dá origem à Ecotopia (CALLENBACH, 1975), que funda o gênero de “ficção (científica) climática”. Kim Stanley Robinson continua e atualiza o tema, com The Ministry for the Future (2020), obra que mistura tratado científico e ficção especulativa, ampliando o cenário de sua obra anterior (2017) para imaginar formas alternativas de organização coletiva frente à ameaça do aquecimento global. Por outro lado, o transumanismo acredita no momento da “singularidade” quando a humanidade sofrerá um “upgrade” para Homo sapiens 2.0 (O’CONNELL, 2018) ou para Homo Deus (HARARI, 2016). É uma fantasia antiga, que vai desde Frankenstein (SHELLEY, 1818) à série de jogos eletrônicos Deus Ex (2013). Fredric Jameson, que analisara o conceito e o gênero da utopia (2005), agora se dispõe a apresentar um programa, An American Utopia (2016), que daria conta de conciliar as esferas da “necessidade” e da “liberdade” sem a mediação do mercado. O marxista Erik Olin Wright (2010) fala em “utopias reais”, com programas concretos para o presente. Nessa linha, Anton Benanav (2020) discute propostas de realização da abundância articulado à automação do trabalho, sem as ilusões de que a tecnologia e a evolução maquinal resolverão as contradições do capital. Dardot e Laval (2018) recuperam o conceito de “comum” como o gatilho de um movimento político, enquanto Manu Saadia (2016) mobiliza a economia de Star Trek (ou “trekonomia”) como modelo de um futuro possível. Esses são alguns exemplos das articulações teóricas e fabulações literárias que o conceito de utopia ainda pode gerar. Como disse Robert Scholes (1975), “não há mais mimesis, apenas poiesis”: para conhecer a realidade precisamos distorcê-la pela criação ficcional. Esperamos, no simpósio, acolher trabalhos que fabulem sobre a persistência do espírito utópico em nossa época, compreendendo o termo tanto no sentido específico de utopia “literária”, quanto como “princípio” ou “impulso” (BLOCH, 2005) presente nas manifestações cotidianas e em obras insuspeitas. Se a realidade capitalista distorcida se tornou distópica e asfixiante, a fabulação da utopia pode ser a atmosfera que nos retorne à respiração vital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BELLAMY, E. Looking Backward: 2000–1887. Chicago: F. J. Schulte & Co, 1890. BENANAV, A. Automation and the Future of Work. London: Verso, 2020. BERARDI, F. After the Future. Tradução de Ariana Bove et al. Chico: AK Press, 2011. ______. Asfixia: Capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem. Tradução de Humberto Do Amaral. São Paulo: Ubu, 2020. BLOCH, E. (1959) O princípio esperança. v. 1. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. BOGDANOV, A. Red Star: The First Bolshevik Utopia. Bloomington: Indiana University Press, 1984. CALLENBACH, E. Ecotopia. Berkeley: Banyan Tree, 1975. CARSON, R. (1962) Silent Spring. Boston: Houghton Mifflin, 2002. CASTELLS, M. The Rise of the Network Society. Oxford: Blackwell, 2000. CHIANG, T. (2002) Stories of Your Life and Others. New York: Vintage Books, 2016. CIXIN, L. (2006) The Three-Body Problem. Tradução de Ken Liu. New York: Tor, 2014. DARDOT, P.; LAVAL, C. Comum: ensaios sobre a revolução no século XXI. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2018. DEUS Ex. Jogo digital multiplataforma. Montreal: Eidos Interactive, 2013. FISHER, M. Capitalist Realism: Is There No Alternative? Winchester: Zero Books, 2009. HARARI, Y. Homo Deus: Uma breve história do amanhã. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. JAMESON, F. An American Utopia. London: Verso, 2016. ______. Archaeologies of the Future: The Desire Called Utopia and Other Science Fictions. London: Verso, 2005. KELLY, K. God Is the Machine. Wired, [S. l.], v. 10, n. 1.2, 2002. KHLEBNIKOV, V. The Radio of the Future. In: ______. Collected Works of Velimir Khlebnikov: Letters and theoretical writings. Tradução de Paul Schmidt. Cambridge: Harvard University Press, 1987. p. 392. MOROZOV, E. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. Tradução de Claudio Marcondes. São Paulo: Ubu, 2018. MORRIS, W. News from Nowhere. London: Longmans, Green, and Co., 1908. O’CONNELL, M. How to Be a Machine. London: Granta Books, 2018. ROBINSON, K. S. New York 2140. London: Orbit, 2017. ______. The Ministry for the Future. London: Orbit, 2020. SAADIA, M. Trekonomics: The Economics of Star Trek. San Francisco: Pipertext Publishing, 2016. SCHOLES, R. Structural Fabulation: An essay on fiction of the future. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1975. SHELLEY, M. W. Frankenstein, or the Modern Prometheus. London: Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones, 1818. SPUFFORD, F. Red Plenty. Minneapolis: Greywolf Press, 2010. STRUGATSKY, A.; STRUGATSKY, B. (1964) Hard to be a God. Tradução de Olena Bormashenko. London: Gollancz, 2015. SUVIN, D. Metamorphoses of Science Fiction: On the Poetics and History of a Literary Genre. New Haven: Yale University Press, 1977. WILLIAMS, R. Utopia and Science Fiction. Science Fiction Studies, Greencastle, IN, v. 5, n. 3, p. 203–214, nov. 1978.

PALAVRAS-CHAVE

utopia; ficção científica; distopia; ficção utópica

PROGRAMAÇÃO

S01 23/09 15h-18h - https://youtu.be/7suwr2n9JZY

S02 24/09 15h-18h - https://youtu.be/JP00bMXHtfU