HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA: TRADIÇÃO E NOVAS ABORDAGENS

SIMPÓSIO - ST32

COORDENADORES

Silvia Maria Azevedo (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Assis)
Maria Eunice Moreira (PUCRS)

RESUMO

Ao longo das últimas décadas, observa-se uma tendência de recusa às posições essencialistas no que se refere à concepção do cânone e de seus critérios. Durante muito tempo, a discussão teórica sobre a formação do cânone negligenciou a historicidade dos critérios utilizados, representada pelo componente de exclusão, ou seja, “os traços de violência inerentes a todo gesto de escolha e seleção estética.” (KLEIN, 2013, p. 113) A tomada de consciência do potencial de violência inerente às estratégias de composição canônica tem levado ao exercício de revisão do cânone, pautado pelo que foi chamado de “política da memória”, a implicar decisões sobre “o que deve ser lembrado e o que pode ser esquecido.” (GUINSBURG, 2008, p.105) À ausência de consenso, entre os teóricos da literatura, no que diz respeito à formação do cânone soma-se ainda o questionamento sobre a própria validade e circulação do valor estético, em função das aberturas promovidas na incorporação de representatividades culturais, até então excluídas do cânone ocidental, a incorrer, segundo alguns críticos, como Andreas Huyssen, na diluição da atividade teórica e metodológica: “Em uma época em que se espera dos estudos literários que cubram cada vez mais territórios, geográfica e historicamente, o perigo é a disciplina perder a coerência como campo de pesquisa, atolar-se em estudos de casos locais ou tornar-se superficial, negligenciando a necessidade de manter um projeto metodológico e teórico.” (2002, p. 18) No cenário cultural contemporâneo, reafirmar os valores e os nomes do cânone implica, para alguns críticos, incorrer numa posição problemática, por desconsiderar que a arte deve ser democratizada tanto no consumo quanto na produção, enquanto para outros, como Leyla Perrone-Moisés, os apelos para essa democratização na verdade são fruto de uma geração para a qual “a globalização econômica não revelou os problemas nacionais em termos gerais e igualitários, e o multiculturalismo se transformou em enfretamento de particularismos.” (2016, p. 40) Essas questões dizem respeito às mutações que os conceitos e as formulações teóricas vêm sofrendo ao longo do tempo, em função das concepções e normas que regem a constituição do sistema literário. Ao mesmo tempo que essas concepções orientam a construção do arranjo discursivo conhecido como literatura, interferem também na avaliação e na organização desse mesmo arranjo. Diferentemente, portanto, do historiador do passado, o historiador (narrador) do presente envolve-se com uma série de questionamentos que comprova a fertilidade das reflexões teóricas sobre a literatura e sobre a história da literatura, em particular, atingindo a formação do cânone, entre outros aspectos. Nesse sentido, questionam-se os períodos históricos, os diferentes gêneros literários e até mesmo o conceito de literatura. Esse novo paradigma mostra que a história da literatura não está assentada sobre um discurso unívoco em torno de uma unidade nacional, mas é formada por diferentes vozes, provenientes de estratos variados. A discussão sobre a história da literatura (e da história da literatura brasileira, em especial) recai sobre o alargamento de conceitos como história, literatura, gêneros, cânone; sobre a intervenção ou a ausência das instâncias de recepção que provocam efeitos no discurso historiográfico; o papel dos sujeitos responsáveis pela escrita do discurso da história da literatura. Entende-se, portanto, que estamos em um terreno sujeito a alterações, em mutação e passível de múltiplas leituras, o que comprova a dinamicidade desse campo dos estudos literários, e que veio pôr em xeque certa posição conservadora adotada pelas Histórias da literatura brasileira, escritas a partir de 1970, na observação de João Alexandre Barbosa: “Mesmos autores, mesmas obras, na sucessão de quadros canônicos seculares, acrescidas, aqui e ali, mas sem maiores repercussões de análise literária, pelo próprio tempo histórico, e em decorrência dos métodos historiográficos adotados. Não aquela adição ao cânone advinda de uma releitura capaz de pôr em xeque as fables convenues da historiografia tradicional.” (1996, p. 57) No que se refere à literatura brasileira, por conta desse movimento revisionista, vem ocorrendo nos últimos tempos o resgate de autores e obras literárias que ficaram à margem do cânone, assim também de crônicas, cartas, diários, autobiografias, histórias literárias, quer na forma de estudos e pesquisas, quer na forma de reedição de textos inéditos. Uma vez que o exercício de revisão implica muito mais do que a substituição e agregação de autores e obras marginalizados, o objetivo do simpósio é abrir espaço para a discussão dos critérios de exclusão e revisão na constituição da história literária brasileira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca imaginária ou o cânone na história da literatura brasileira. In: _______. A biblioteca imaginária. São Paulo: Ateliê, 1996, p. 56-57. GUINSBURG, Jaime. “O valor estético: entre universalidade e exclusão”. In: Alec. Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, 2008, p. 98-107. HUYSSEN, Andreas. “Literatura e cultura no contexto global”: In: Valores: Arte: Mercado e Política. MARQUES, R.; VILELA, L. H. (orgs.) Tradução de Júlio Jeha. Belo Horizonte, UFMG, 2002, p. 15-36. KLEIN, Kelvin Falcão. “Cânone e exclusão”. In: Em Tese, Belo Horizonte, v. 19, n. 2, 2013, p. 112-121. PERRONE-MOISÉS, Mutações da literatura no século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

PALAVRAS-CHAVE

Cânone; Exclusão; Revisão

PROGRAMAÇÃO

S01 02/09 08h-13h - https://youtu.be/sLn5t-V_FTk

S02 02/09 14h-18h - https://youtu.be/EPLKDuHo_FY

S03 03/09 08h-16h - https://youtu.be/b99xiQeVqU4