A LITERATURA GÓTICA EM SUAS CARTOGRAFIAS AMERICANAS

SIMPÓSIO - ST5

COORDENADORES

ROGERIO LOBO SABER (Universidade do Vale do Sapucaí)
Ayda Elizabeth Blanco Estupiñan (Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia)
Julio Cesar França Pereira (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

RESUMO

O diagnóstico realizado por Glennis Byron (2013) enfatiza o potencial difuso do fenômeno gótico e ressalta como, à medida que ingressamos mais e mais em processos culturais globalizantes e em novas dinâmicas de intercâmbio cultural, criativas inflexões têm sido garantidas à arte do excesso e da transgressão (BOTTING, 1996) ou, como designada por Marie Mulvey-Roberts (1998), à arte do mal-estar (un-ease) e da patologia (dis-ease). A passagem do século 20 para o 21 confirmou a plasticidade da literatura gótica — já reforçada por Andrew Smith e Jeff Wallace (2001) — e serviu de momento histórico que deu à luz “novos góticos nacionais e regionais, do gótico Kiwi ao gótico da Flórida, do gótico de Barcelona ao gótico japonês” (BYRON, 2013, p. 1). As obras contemporâneas, quer estabeleçam diálogo estreito ou distanciado com as obras da matriz europeia, se esforçam por recolher seu próprio inventário de “tropos ou estratégias” para garantir seus contrapontos culturais, “por mais diferentemente que sejam modulados por histórias e sistemas de crença específicos” (BYRON, 2013, p. 3). Na esteira do estudo de Byron, Enrique Ajuria Ibarra (2014, p. 6) corrobora que o gótico é um modo ficcional que se caracteriza por seu deslocamento entre “limites geográficos, culturais e artísticos”. Em Tropical Gothic in Literature and Culture, Justin D. Edwards e Sandra Guardini Vasconcelos (2016) analisam também o gótico como fenômeno de transculturação. Tabish Khair (2009) reforça as profícuas possibilidades hermenêuticas resultantes da aproximação entre a literatura gótica e os estudos pós-coloniais, fundamentais à percepção de questões relacionadas à alteridade. Tal abordagem permite que o gótico seja lido como um inventário estético que representa e denuncia a complexidade inerente a conceitos como privilégio e poder, ao colocar frequentemente em cena relações culturais orientadas por uma lógica de pensamento que reconhece o Outro como um “self pronto para ser assimilado” (KHAIR, 2009, p. 4-5). Qualquer que seja o tipo reconhecido como monstruoso escolhido para povoar as obras (demônios, vampiros, bruxas, judeus) é indispensável reconhecer as obras góticas como inventário para exploração dos medos e ansiedades enfrentados coletivamente por determinada cultura. No caso do gótico estadunidense, a figuração do Outro fica inicial e insistentemente a cargo dos nativos indígenas e dos negros. Por sua vez, o gótico canadense marca-se por sua exploração de figuras sobrenaturais folclóricas, e o gótico do Caribe concede espaço para personagens exóticos que protagonizam contos de escravos e de rituais mágicos (SNODGRASS, 2009, p. 6-7). No Brasil, o gótico de Lygia Fagundes Telles se preocupa com questões de opressão feminina (BALDERSTON; GONZALES, 2004). Nota-se, a partir desses exemplos, que o gótico adquire contornos regionais, embora mantenha seu propósito matricial de mergulhar nos medos que assombram a coletividade. Para Byron (2013), o gótico do fim do século 20 e o gótico do século 21 caracterizam-se por ser espaço estético para exploração de ansiedades decorrentes do mundo globalizado e, embora a análise de Ibarra (2014) recaia sobre um objeto cinematográfico da cultura mexicana, é semelhante seu posicionamento ao nos sugerir que o gótico é um instrumento de catarse coletiva, capaz de “explorar diferentes aspectos da nossa psique social e cultural” (IBARRA, 2014, p. 7). A proposta classificatória de Mary Ellen Snodgrass (2005) permite-nos observar com mais atenção o emblemático vilão gótico, figura que, principalmente nas obras do século 18, personifica a alteridade ameaçadora que deve ser extirpada ou assimilada. No entanto, no decorrer dos séculos, o vilão gótico tem permanecido em seu posto de complexo personagem justamente porque a compreensão de suas motivações e ações nos obriga a encarar um território de “ambiguidade moral” (SNODGRASS, 2005, p. 351) que intensifica a dificuldade de qualquer julgamento. Retomados por autores como Isabel Allende e Gabriel García Márquez, temas como violência, vingança, mal, sonambulismo e reencarnação recorrem nas obras góticas latino-americanas, que compõem um portentoso acervo a partir do qual tensões coloniais e pós-coloniais podem ser aprofundadas, tais como “os sofrimentos da classe agrária” (SNODGRASS, 2005, p. 184), que suportou séculos de exploração. O modo literário gótico permanece sendo útil e instigante instrumento para a encenação e discussão de relações interpessoais predatórias e, especificamente no caso da América Latina, o toque sobrenatural entrelaça-se com o plano representacional realista, compondo o que Snodgrass (2005, p. 184) resumiu como “alto drama que une cenários de contos de fadas e pavores supersticiosos com paixão e incidentes acreditáveis”. Na América Latina, sinaliza Snodgrass (2005), as obras despontam por sua remodelagem das convenções góticas e por sua densa carga de comentário social. É objetivo deste GT acolher propostas investigativas que discutam criticamente a literatura gótica produzida por autores das Américas. Embora não haja restrição quanto à abordagem crítica empregada para incursão nas obras, destacamos a promissora aproximação entre o gótico e estudos culturais, que nos convida a aprofundar a compreensão das tensões sociais vivenciadas pelo Canadá, Estados Unidos, América Latina e o Caribe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BALDERSTON, Daniel; GONZALES, Mike. Encyclopedia of Latin American and Carib-bean Literature 1900-2003. London: Routledge, 2004. BOTTING, Fred. Gothic. London: Routledge, 1996. BYRON, Glennis (ed.). Globalgothic. Manchester: Manchester University Press, 2013. EDWARDS, Justin D.; VASCONCELOS, Sandra Guardini (ed.). Tropical Gothic in litera-ture and culture. New York: Routledge, 2016. IBARRA, Enrique Ajuria. Introduction: Exploring Gothic and/in Latin America. Studies in Gothic Fiction, Cardiff, vol. 3, issue 2, p. 6-12, 2014. KHAIR, Tabish. The Gothic, postcolonialism and otherness: ghosts from elsewhere. Ba-singstoke: Palgrave Macmillan, 2009. MULVEY-ROBERTS, Marie. The handbook of Gothic literature. Basingstoke: Macmillan Press, 1998. SMITH, Andrew; WALLACE, Jeff (ed.). Gothic modernisms. Basingstoke: Palgrave, 2001. SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic literature. New York: Facts on File, 2005.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura gótica; Gótico nas Américas; Estudos culturais.

PROGRAMAÇÃO

S01 01/09 08h-12h - https://youtu.be/zTLXJxNc-Tw

S02 01/09 14h-18h - https://youtu.be/oIXYN0I2cos