CRÍTICA TEXTUAL E LITERATURA COMPARADA: ESTRATÉGIAS DE COMBATE AO APAGAMENTO DA HISTORICIDADE DA PRODUÇÃO, DA TRANSMISSÃO E DA RECEPÇÃO DAS OBRAS LITERÁRIAS

SIMPÓSIO - ST15

COORDENADORES

Ceila Maria Ferreira (UFF)
Pedro Theobald (PUCRS)
Viviane Arena Figueiredo (Doutora pela UFF)

RESUMO

A Crítica Textual, assim como a Literatura Comparada, trabalham, com frequência, no espaço da transdisciplinaridade. E, quando nos reportamos à Literatura Comparada, estamos nos referindo outrossim aos Estudos de Tradução e à Tradução de obras literárias e sobre literatura. É dessa interface que surge nossa proposta: a partir de estudos da história da transmissão textual, abrangendo sua tradição indireta, como é o caso das traduções, que contribuem para a divulgação e para a formação da fortuna crítica de um número expressivo de obras, sem nos esquecermos da teoria e da metodologia da Crítica Textual/Filologia de preparação de tipos especiais de edição, conforme Cambraia (2005, p. 87-107), convidamos as e os colegas a pensarem e dialogarem conosco acerca dos papéis da Crítica Textual Tradicional e Moderna, assim como da Tradução, no resgate de textos, nomes de autoras e de autores, como também de leituras, que ficaram registradas em periódicos, livros, cartas, guardados em arquivos, bibliotecas, universidades, institutos públicos ou com particulares, mas que foram emudecidos e invisibilizados pela ação da censura, como política de Estado, e/ou pela propagação de correntes de investigação que não colocaram entre suas preocupações a questão da historicidade, assim como do contexto de produção, transmissão e recepção de obras literárias e/ou sobre literatura, sejam elas ensaios de crítica literária e/ou de história da literatura. Para tal, propomos dialogar com o resgate da História dos Vencidos e com o “escovar a história a contrapelo”, conforme escreveu, em 1940, Walter Benjamin, em Sobre o conceito da história (2012, p. 245), num país com passado colonial e escravagista, como é o Brasil, numa época de profunda crise do Capitalismo, de revival de discursos anticomunistas, de crescimento e de fortalecimento da extrema-direita, na contemporaneidade, em que estão afiadas as armas da necropolítica, na acepção dada a esse termo por Achille Mbembe (2018, p. 5). E tal contribuição, para o resgate de textos, de leituras, de nomes de autoras, de autores, de críticas e de críticos literários, além de historiadoras e de historiadores da literatura, abrange discussões acerca de questões relacionadas inclusive a gênero, raça e classe, assim como modo e época de produção e de divulgação de obras literárias e sobre literatura. Tais temáticas contemplam também indagações acerca da contribuição do trabalho da Crítica Textual e da Tradução para a formação de um público leitor mais crítico. Serão bem-vindas igualmente reflexões sobre a crítica ao Historicismo, realizada por Benjamin em texto acima mencionado (2012, p. 241-252), discussão que entendemos como fundamental para a Crítica Textual, assim como para a Literatura Comparada, e para a maior divulgação da Crítica Textual nas univerisidades brasileiras. Vale destacar que esta proposta de Simpósio reivindica um lugar de destaque para a Crítica Textual nos Estudos de Literatura, já que, sem os pressupostos teóricos e metodológicos da Crítica Textual não são colocadas em discussão ou o são, mas sem dialogar com toda uma tradição de estudos relacionados à transmissão textual, questões relacionadas a problemas de trasmissão de obras literárias, de materialidade textual, de mudança de suportes textuais e uma série de problemáticas relevantes para o estudo da transmissão de textos, assim como para sua edição e recepção, o que de cerca forma é abordado por Roger Chartier em A mão do autor e a mente do editor (2014). Em relação a tais problemáticas, faz-se necessário mencionar a constituição da Comissão Machado de Assis, aqui no Brasil, no final da década de 1950, para a edição da obra daquele que dá nome à referida Comissão, além da formação. Acerca da obra de Machado de Assis, também gostaríamos de discutir a “perda do sentido do tempo, ou de um sentido mais seguro do lugar que as pessoas ocupam num continuum histórico […]” (GLEDSON, 2003, p. 219). Voltando às equipes de edição crítica, em Portugal, há o Grupo de Trabalho para o Estudo do Espólio e Edição Crítica da Obra Completa de Fernando Pessoa, coordenado por Ivo Castro, e a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, coordenada por Carlos Reis. Nossa proposta também passa pela discussão do conceito de literatura e do engajamento em literatura, na acepção dada a essa última expressão nos termos propostos por Sartre, em Que é a literatura?, que recebeu nova edição, no Brasil, pela Editora Vozes, em 2019, lembrando que em 2021 as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense e a Comuna de Paris completam 150 anos, sendo que Eça participou do Programa das Conferências e escreveu sobre a Comuna no último capítulo das versões de O crime do padre Amaro (REIS/CUNHA,2000). Vale lembrar que trabalhar com Crítica Textual é também possibilitar o desenvolvimento e a divulgação de estratégias de combate ao apagamento da historicidade da produção, da transmissão e da recepção das obras literárias.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas I. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 2012. CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005. CHARTIER, Roger. A mão do autor e a mente do editor. Tradução George Schlesinger. São Paulo: Editora da UNESP, 2014. GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. Tradução Sônia Coutinho. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018. REIS, Carlos/CUNHA, Maria do Rosário (eds). O crime do padre Amaro. Edição crítica das obras de Eça de Quierós. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000. SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradução Carlos Felipe Moisés. Petrópolis: vozes, 2019.

PALAVRAS-CHAVE

Crítica Textual; Filologia; Tradução; Literatura Comparada; Historicidade.

PROGRAMAÇÃO

S1 01/09 14h-19h - https://youtu.be/d782hpy46r8

S2 08/09 14h-19h - https://youtu.be/33CkZfeuoOY

S3 15/09 14h-19h - https://youtu.be/Eibj6beh9jM

S4 22/09 14h-19h - https://youtu.be/o4m347rA1MM

S5 29/09 14h-18h - https://youtu.be/tdwJUrsC3r8

S6 30/09 12h-13h - https://youtu.be/VLsWbItQKFg