A LITERATURA, O PENSAMENTO E A FILOSOFIA

SIMPÓSIO - ST6

COORDENADORES

Josué Borges de Araújo Godinho (Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG (Carangola))
Alexssandro Ribeiro Moura (Instituto Federal de Goiás - IFG (Aparecida de Goiânia))

RESUMO

Este Simpósio tem por objetivo principal o estudo das relações entre a literatura, o pensamento e a filosofia, ponto em que a língua literária se dá a ler como as “Ideias que o escritor vê e ouve nos interstícios da linguagem, nos desvios da linguagem” (DELEUZE, 1997, p. 16). No prólogo de Crítica e Clínica, Deleuze, com Proust, diz que “o escritor inventa na língua uma nova língua de algum modo estrangeira” (PROUST apud DELEUZE, 1997, p. 9). Afirma, portanto, que a literatura inventa “novas potências gramaticais ou sintáticas”, o escritor desorganiza o status quo da gramática e da sintaxe e as faz delirarem. Há uma potência fora dos caminhos da língua comum que, tensionada e extraída de seu lugar ordinário, mas devolvida a seu interior, apresenta, no ato da escrita literária, o “limite ‘assintático’, ‘agramatical’, ou que se comunica com seu próprio fora”. (DELEUZE, 1997, p. 9). Nesses termos, é importante apontar para a leitura que Rancière faz das relações entre o pensamento de Deleuze e a literatura. A literatura enquanto fórmula, pontua Rancière, é o processo “que desorganiza a vida, uma certa forma de vida. A fórmula corrói a organização racional do estudo e da vida [...], estilhaça as hierarquias de um mundo mas também aquilo que as sustenta” (RANCIÈRE, 1999, p. 2). Lê-se, portanto, a literatura no processo, no movimento de deslizamento da sintaxe e da gramática, “passagem da vida na linguagem” (DELEUZE, 1997, p. 16), que é também o processo de minoração e decomposição da língua maior, oficial, que, levada ao seu limite, a um avesso de si, não pertence a si mesma, mas se dá internamente ao seu próprio sistema. Tais posicionamentos levam-nos a pensar a literatura além do atavismo às teorias miméticas aristotélicas, isto é, além dos postulados aristotélicos e, pensando com Sontag, uma alternativa à interpretação centralizadora dos sentidos e da representação. Em Contra a interpretação, Sontag afirma que a teoria da arte no Ocidente se consagrou na teoria grega “da arte como mimese ou representação” (SONTAG, 1998, p. 12), e que tal teoria é um problema, pois, prossegue a autora, trata-se de um pensamento que antepõe forma e conteúdo e sobrepõe este àquela, tornando-o, o conteúdo, essencial, e ela, a forma, acessória. (SONTAG, 1998, p. 12). Não parecem ser outros os procedimentos que se encontram em textos os mais diversos da literatura brasileira. Nesse sentido uma gama de escritores cujas obras retomam e reelaboram tal herança literária. Nessas, ocorre a problematização da tradição e da fundamentação aristotélica ancorada nas três unidades (sujeito, espaço e tempo), reviradas ao avesso através da experimentação da linguagem ficcional e poética. Essa linhagem experimental, a nosso ver, tem seu ponto de partida em Machado de Assis, passando por Oswald e Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Murilo Rubião, os concretos, Manoel de Barros, Carolina Maria de Jesus, Sérgio Sant’Anna, Ana Cristina César, Wilson Bueno, Luiz Ruffato, Maria Esther Maciel, os marginais (tanto os da década de 1970 como os periféricos pós 1990), entre outros. Assim, esses autores seriam agenciadores de uma língua para a qual não só a experimentação é uma tônica, como a familiarização e a contaminação com outros sistemas de linguagens se faz de forma intensa. Exemplos desses procedimentos escriturais são os devires-outros que se leem em Vidas secas, em que o escritor, desorganizando as hierarquias que separam homem e cão, dá a visão, em um devir-intenso, da cachorra Baleia, e o narrador, ao rés do chão, narra como um cão. Também se lê no devir-mulher de “Desenredo”, de Guimarães Rosa, em que narrador e protagonista veem-se desorganizados da hierarquia narrativa estruturada numa história com começo meio e fim e, em um exercício intenso de sintaxe e de pensamento, “amatemático”, o barquinho de papel navega o abismo. São potências de “ruptura da literatura como tal com o sistema representativo, de origem aristotélica, que sustentava o edifício das belas letras” (RANCIÉRE, 1999, p. 2). Assim, interessa-nos, neste simpósio, a literatura em ponto de intensidade, de invenção intensa e torção da sintaxe, processo de produção de uma sintaxe nova, ao ponto de o escritor escrever como um animal, como um outro absoluto, como um burro, um rato, um cão “(Mas um cão não escreve. – Justamente, justamente).” (DELEUZE; GUATTARI, 2014, p. 52).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. Cíntia Vieira da Silva. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014. (Coleção Filô/Margens, 4) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 64.ed. Posfácio de Álvaro Lins. Rio de Janeiro/São Paulo: Record. 1993. RANCIÈRE, Jacques. Deleuze e a literatura. "Encontros Internacionais Gilles Deleuze", no Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares, UERJ, nos dias 10, 11 e 12 de junho de 1996. Trad. Ana Lúcia Oliveira. In: Matraga, n. 2, 1999. Disponível em: www.pgletras.uerj.br/matraga/matraga12/matraga12ranciere.pdf. Acesso em: 27 abr. 2021. ROSA, João Guimarães. Tutameia (terceiras estórias). 3.ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969. SONTAG, Susan. Contra a interpretação. Trad. Ana Maria Capovilla. Porto Alegre: L&PM, 1987.

PALAVRAS-CHAVE

Teoria da literatura; Literatura menor; Pensamento; Sintaxe; Representação.

PROGRAMAÇÃO

S01 22/09 08h-12h - https://youtu.be/ZAQdYlA5cdo

S02 22/09 13h-17h - https://youtu.be/hH9tfnYNttk

S03 23/09 08h-12h - https://youtu.be/O3KqhsuIGUc

S04 23/09 13h-17h - https://youtu.be/PIXvluk8_w8

S05 24/09 08h-12h - https://youtu.be/D2OhH3jAYC4