A ESCRITA DE AUTORIA FEMININA NA LITERATURA: MEMÓRIA, DECOLONIALIDADE, IDENTIDADE E RESISTÊNCIA

SIMPÓSIO - ST3

COORDENADORES

Algemira de Macêdo Mendes (Universidade Estadual do Piauí)
geovana quinalha de oliveira (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)
Lucilene Machado Garcia Arf (Universidade Federal e Mato Grosso do Sul)

RESUMO

A ESCRITA DE AUTORIA FEMININA NA LITERATURA: MEMÓRIA, DECOLONIALIDADE, IDENTIDADE E RESISTÊNCIA Este simpósio propõe congregar reflexões sobre a literatura de autoria feminina. A partir de uma perspectiva decolonial busca-se discutir a dimensão do poder de dominação e exploração do sistema colonial/moderno/capitalista/patriarcal (María Lugones, 2020) perpetrado em distintas sociedades. Desde proposições precedentes das relações gênero-raça, o objetivo é pensar criticamente os modos de sujeição a que as mulheres do Sul global foram submetidas com a efetivação do processo da colonialidade. Tais questões são constantemente atualizadas nos posicionamentos femininos inscritos nas produções literárias vigentes e enriquecidas pelos aportes teóricos e críticos dos estudos feministas decoloniais. Ao aprofundar as pesquisas de Aníbal Quijano, Lugones (2020) preconiza o que chamou de “sistema moderno colonial de gênero” como uma forma de olhar minuciosamente a teorização da estrutura opressiva da modernidade colonial, seu uso de dicotomias hierárquicas e de lógica categorial. Essa postura crítica de escritura/leitura desvela silenciamentos e invisibilidades e, por extensão, denuncia as mais diversas e diferentes formas de opressão e de violência de gênero praticados pelo arranjo colonial. Por meio de uma releitura crítica do passado e de propostas de valoração de epistemologias locais e pluriculturais, como sugerem Yuderkys Miñoso (2020), Julieta Paredes (2018), Ochy Curiel (2020), Françoise Vergès (2020), entre outras feministas, esse simpósio espera reunir pesquisas que tratam criticamente de questões sobre a memória, identidade e alteridade nas produções de mulheres a partir de diferentes lugares de fala. Trata-se de pensar o modo como a escrita de autoria feminina rompe silêncios, preenche lacunas e, por extensão, reescreve a história constituída por colonizações, ditaduras, confronto étnicos, exploração capitalista e relações hierárquicas/dicotômicas de gênero. Por esse viés, a literatura será aqui apreendida como um constructo cultural, cuja potência é representativa do espaço e da voz conquistados ao longo do tempo, permitindo a construção de novas subjetividades nos modos de ser e sentir em uma visão interseccional de categorias como as de classe, raça/etnia, lugar e gênero (Carla Akotirene, 2019). A escrita de mulheres promove, nesse sentido, projetos críticos mais conscientes de nossa condição e, consequentemente, das nossas especificidades de sujeitos colonizados pelo sistema capital/moderno/patriarcal. Como afirma Adrienne Rich (2017), a literatura é um indício de como vivemos, como temos vivido, como nós mulheres temos sido levadas a nos imaginar e, sobretudo, como nossa linguagem tem nos aprisionado ou libertado. Certamente, estudar a literatura de mulheres é uma forma de refletir sobre os dispositivos que regulam a recepção e a circulação de obras definindo quais merecem pertencer ao cânone. Por essa razão, podemos dizer que as questões apontadas até aqui atuam, inevitavelmente, como elementos de articulação em que a autoria feminina pode ser analisada como lugar de des-encontro, deslocamento, diferença e resistência voltados para a compreensão dos procedimentos e das implicações políticas da produção discursiva e simbólica de elementos históricos, culturais, identitários e de alteridades. Como nos ensina bell hooks (2019), a tendência acadêmica de ressignificação radical dessas categorias é enraizada nos esforços antirracistas de libertação negra, o que abre espaço para produções que se enquadram na perspectiva da diferença. Ao pensar sobre identidade, alteridade e diferença, Stuart Hall (2006) coloca em xeque a relação entre natureza e identidade cultural, ressaltando que, embora os indivíduos tendam a tratar as identidades como características genéticas, as culturas nacionais não passam de comunidades imaginadas, produzidas a partir de sistemas de representação que se impõe, não raro, de forma violenta, no afã de mascarar a alteridade e a diferença. Para dizer de forma simples: não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça/etnia, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural para representá-los todos como pertencendo à mesma e grande família nacional (HALL, 2006, p. 47). Como forma de combater a imposição desse opressivo discurso de identidades homogêneas e hegemônicas instaurado pela colonialidade eurocêntrica, o feminismo decolonial vem atuando em diversos campos como o político, o acadêmico, o social e o cultural. Essa perspectiva crítica que quer revolucionar as práticas cotidianas almeja uma sociedade que se atende para a valoração dos saberes e das epistemologias da diferença e das minorias, a exemplo os dos corpos das mulheres e as muitas pluralidades que os compõe. Na perspectiva exposta acima, esse simpósio busca, portanto, reunir trabalhos e pesquisas de diferentes reflexões críticas e teóricas e de múltiplas áreas do conhecimento que dialogam com memória, decolonialidade, identidade e resistência. Palavras-chave: Autoria feminina; memória; identidade; decolonialidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, Ed: DPA, 2006. CURIEL, Ochy. Construindo metodologias feministas a partir do feminismo decolonial. Trad. Pê Moreira. HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro. Bazar do tempo, 2020. HOOKS, bell. Anseios: raça, gênero e políticas culturais. São Paulo: Elefante, 2019. LUGONES, María. Colonialidade e gênero. Trad. Pê Moreira. HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro. Bazar do tempo, 2020. MIÑOSO, Yuderkys Espinosa. Fazendo uma genealogia da experiência: o método rumo a uma crítica da colonialidade da razão feminista a partir da experiência histórica na America Latina. Trad. Pê Moreira. HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro. Bazar do tempo, 2020. PAREDES, Julieta. Descolonizar las luchas: la propuesta del feminismo comunitario. Mandrágora, v. 24, n. 2, p. 145-160, 2018. RICH, Adrienne. Quando da morte acordamos: a escrita como re-visão. Tradução de Susana Bornéo Funck. In: BRANDÃO, Izabel; et al. Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas (1970-2010). Florianópolis: EDUFAL / Ed. UFSC, 2017. VERGÈS, Françoise. Um feminismo decolonial. Trad. Jamille Pinheiro Dias; Raquel Camargo. Um feminismo decolonial. São Paulo: UBU editora, 2020.

PALAVRAS-CHAVE

Autoria feminina; memória; identidade; decolonialidade.

PROGRAMAÇÃO

S1 13/09 15h-19h - https://youtu.be/10kxiZMYVBA

S2 14/09 15h-19h - https://youtu.be/OE6OzfbmLjg

S3 15/09 15h-19h - https://youtu.be/IHypCN4CbjI

S4 16/09 15h-19h - https://youtu.be/YLHq90fjmfM