ENTRE O CÂNONE E O ESQUECIMENTO: PROCESSOS DE (NÃO) CANONIZAÇÃO DE AUTORES E OBRAS

SIMPÓSIO - ST19

COORDENADORES

VALDINEY VALENTE LOBATO DE CASTRO (UERJ)
Alan Victor Flor da Silva (CMBEL)
Yurgel Pantoja Caldas (UNIFAP)

RESUMO

Segundo Robert Darnton (2010), os autores constituem um segmento de um circuito de comunicação associado a muitos outros elementos, como os editores, os tipógrafos, os livreiros, os leitores, entre outros. Esse circuito demonstra que os escritores não são os únicos envolvidos nos processos de produção e circulação de impressos. Muito pelo contrário, são completamente dependentes dos demais agentes do circuito de comunicação e estão à mercê das influências intelectuais, da conjuntura econômica e social e das sanções políticas e legais. Do mesmo modo, Roger Chartier (1999) afirma que os autores também estão constantemente sujeitos a uma série de tensões que delimitam a atividade da escrita, pois quase sempre são obrigados a atender as exigências implícitas ou explícitas impostas pelos editores, pelo suporte material onde se materializam os textos, por uma ou várias comunidades de leitores e, de um modo bem mais geral, por um mercado de circulação de impressos. Sendo assim, a compreensão acerca do cenário literário construído na entronização de um escritor expande-se como um processo de aceitação para além da mera relação entre autor e público: Bourdieu (1996) destaca afinidade do escritor com seus pares como elemento singular no processo de canonização. Nesse sentido, todos esses segmentos do circuito de comunicação interferem diretamente não apenas na atividade de produção literária, como também no estatuto do qual desfruta um escritor na sociedade na qual está inserido. Em razão do papel que esses agentes desempenham, alguns autores desfrutam de um espaço privilegiado no meio artístico-literário, enquanto outros são relegados ao esquecimento. Reconstruir, portanto, o processo de canonização de um determinado escritor é remontar todos os seus passos percorridos ao longo dos anos para alcançar um lugar de relevo no cânone literário, o lugar ao qual pertence o grupo seleto dos autores mais representativos de uma determinada nacionalidade. Segundo Marisa Lajolo (2001) e Márcia Abreu (2004), um escritor, para alcançar esse lugar de prestígio, deve passar pelo número máximo de instâncias de legitimação ou consagração, a exemplo das universidades, dos suplementos culturais dos grandes jornais, das revistas especializadas, dos livros didáticos, das histórias literárias, entre outros. Essas instâncias, de modo geral, apresentam a tarefa de julgar e hierarquizar o conjunto de textos que circulam em meio a uma determinada sociedade e, consequentemente, são as responsáveis pelo estatuto social atribuído aos autores, pois têm o poder institucional de declarar escritores e obras como pertencentes ao cânone literário. A (não) canonização implica, além da avaliação da qualidade estética e literária das obras, diversas consequências mais concretas. Os autores canonizados, por exemplo, desfrutam de um espaço muito mais privilegiado no cenário literário, pois são estudados por diversos críticos e especialistas e apresentam uma extensa fortuna crítica, assim como também as obras desses literatos possuem várias e diferentes edições (para todos os gostos e, sobretudo, para todos os bolsos) e, por conseguinte, podem ser lidas por um público leitor muito mais amplo e diversificado. Os não canonizados, em contrapartida, possuem pouco espaço no cenário literário, pois carecem de críticos e especialistas, de referências bibliográficas, de fortuna crítica, de edições para suas obras e, principalmente, de leitores. Em alguns casos não muito raros, até mesmo informações biográficas a respeito de escritores que ficaram à margem do cânone são difíceis encontradas, a exemplo do ano de nascimento e morte, naturalidade, bibliografia, entre outras. As pesquisas em periódicos, por exemplo, revelam uma série de escritores brasileiros que produziram durante os séculos XIX e XX, mas hoje são completamente desconhecidos dos leitores deste século, isso porque os impressos desenharam a imagem da leitura: periodicidade, diversidade de temas, atualidade e propagação mudaram as práticas de produção e leitura do texto literário, o que produziu uma democratização da leitura devido o acesso fácil tanto no que concerne ao barateamento dos custos quanto às condições de manuseio do suporte. Com isso as folhas públicas passam, então, a desenhar a imagem da leitura e as relações que por ela se estabelecem entre os sujeitos que cooperam para a circulação do texto literário. Desse modo, a proposta deste simpósio temático é congregar trabalhos que procurem traçar aspectos da trajetória de consagração ou de esquecimento de autores e obras de qualquer nacionalidade e de qualquer século. Para tanto, esses trabalhos devem considerar o papel da crítica literária, das história literárias, das universidades, das editoras, das livrarias, dos jornais, entre tantos outros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU, Márcia. Cultura letrada: literatura e leitura. UNESP, 2004. BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. 1 ed. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo. Companhia das Letras, 1996. CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitoras, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Trad. Mary Del Priori. Brasília: Editora da Universidade de Brasília,1999. DARNTON, Robert. A questão dos livros: passado, presente e futuro. Trad. Daniel Pellizzari. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. LAJOLO, Marisa. Literatura: leitores e leitura. São Paulo: Moderna, 2001.

PALAVRAS-CHAVE

Cânone literário; Processo de canonização; Instâncias de legitimação; Autores; Obras.

PROGRAMAÇÃO

S01 02/09 19h-21h30 - https://youtu.be/d1g1RiODh2k

S02 09/09 19h-21h30 - https://youtu.be/CWwQR7VUVns

S03 16/09 19h-21h30 - https://youtu.be/LtCcBVMxIKI

S04 23/09 19h-21h30 - https://youtu.be/2us5KokQpMs

S05 30/09 19h-21h30 - https://youtu.be/eHPzMMllmmc