LITERATURA E CULTURA: OBJETOS CULTURAIS EM ANÁLISE

SIMPÓSIO - ST41

COORDENADORES

Yuri Jivago Amorim Caribé (Universidade Federal de Pernambuco (UFPE))
MARIA SUELY DE OLIVEIRA LOPES (Universidade Estadual do Piauí (UESPI))
João Batista Martins de Morais (Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE))

RESUMO

Desde a década de 1950, quando foram publicadas as primeiras obras relacionadas diretamente aos Estudos Culturais, pesquisadores desse campo também incluíram em sua pauta o estudo da literatura como uma prática cultural específica. Passaram ainda a relacionar a literatura com outros discursos, algo que, segundo Culler (1999), é importante para os Estudos Literários. Ademais, entendemos que, ao examinar os papéis culturais em obras literárias diversas, reafirmamos o estudo da literatura como um fenômeno intertextual complexo. Podemos perceber que as pesquisas envolvendo literatura e cultura ampliaram o cânone literário de forma a incluir textos de outros grupos historicamente marginalizados. Essas pesquisas também fomentaram o interesse por obras que representam uma gama de experiências culturais e de formas literárias (CULLER, 1999). Nesse sentido, este simpósio pretende promover o diálogo entre pesquisadores que se interessam pela análise de obras literárias como objetos culturais, considerando ainda uma ampliação do conceito de “literário” e, portanto, de alguns paradigmas estéticos. Logo, à essa proposta, interessam não apenas objetos classificados como gêneros literários mais conhecidos (romances, contos, novelas, poemas e peças), mas também importam outros formatos não tradicionais, tais como filmes, quadrinhos, graphic novels, fan fictions e séries, dentre outros. Isso nos leva a perceber um diálogo entre objetos culturais e a ideia de intermidialidade, conforme conceito de Müller (2012), que considera as materialidades, os formatos ou gêneros e os significados das mídias, além do conteúdo. Sabemos ainda que, no tocante a essa inclusão de textos sobre temas e grupos historicamente marginalizados, alguns trabalhos foram, ao longo das décadas, considerados como reconhecidamente basilares para as discussões que ora propomos. A pesquisa de Bhabha (1998) sobre questões que envolvem identidade e cultura, além da problemática da pós-colonialidade é uma delas. Em trabalho anterior, Bhabha (1991, p. 184) já se debruçava sobre esses temas, especialmente sobre as “formas de discurso colonial ou suas descrições, escritas a partir do fim do século XIX até o presente”. Nessa mesma reflexão afirmou que o discurso colonial pretende “construir o colonizado como população de tipo degenerado, tendo como base uma origem racial para justificar a conquista e estabelecer sistemas administrativos e culturais” (BHABHA, 1991, p. 184). Assim, traz efeitos de classe, gênero, ideologia e formações sociais diferentes. Temos ainda o trabalho de Fanon (2008), que nos permite perceber o quanto a prática de negação da humanidade não apenas se restringiu aos territórios colonialmente ocupados, mas também se configurou como eixo estruturante da própria modernidade, como enfatiza: “Sim! A civilização europeia e seus representantes mais qualificados são responsáveis pelo racismo colonial”. (FANON, 2008, p. 88-89). O colonialismo em Fanon é um aspecto da realidade social que se mostra como exterioridade concreta aos sujeitos, não se resumindo, em hipótese alguma, a um regime de verdade ou a uma visão de mundo, mas sim, conformando as condições de possibilidades para as representações (distorcidas, diga-se, e não apenas inventadas) de colonizadores e colonizados. Outra questão relevante é aquela levantada por Davis (2016), quando trata do racismo sofrido por mulheres negras nos Estados Unidos da América e de questões como o estupro e a negação de direitos fundamentais. Davis aprofundou estudos sobre a situação dos negros nos Estados Unidos desde o período da escravatura, até a abolição em 1863 e seus reflexos na sociedade contemporânea. Simultaneamente, nos convoca a refletir sobre o machismo, as relações de classe e o caminho percorrido pelas mulheres negras na política, na cultura, na produção de novas análises e questionamentos. Nesse pensamento, o entendimento da universalidade na definição dos conceitos de homem e de mulher fragiliza-se diante da diversidade cultural, sexual e política. De forma mais exata, os fatores raciais/étnicos, socioeconômicos e de gênero que se destacam na obra da autora, não podem ser descuidados, uma vez que são preponderantes para a desconstrução do conceito universalizante de mulher. Em suma, este simpósio pretende promover debates oportunos sobre questões diversas que relacionam literatura e cultura. Desse modo, serão recebidos recortes de pesquisas que envolvam obras literárias (considerando a amplitude do termo “literário”), sejam brasileiras ou estrangeiras, em que figuram temas caros aos Estudos Culturais, tais como o debate sobre identidade e cultura, multiculturalismo, globalização, cibercultura, agenda cultural, o pós-colonialismo, questões étnicas, questões raciais, a subalternidade, questões de gênero e sexualidade ou ainda sobre a problemática do pós-modernismo, etc. Por isso, o arcabouço teórico dessas pesquisas (a depender do tema abordado na obra literária em questão) deverá estar relacionado aos Estudos Pós-Coloniais, ou aos Estudos de Gênero e Sexualidade (incluindo a Crítica Literária Feminista e os Queer Studies), além dos Estudos Subalternos e Estudos Étnicos e Raciais, dentre outras possibilidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BHABHA, Homi K. A questão do “outro”: diferença, discriminação e o discurso do Colonialismo. Tradução de Francisco Caetano Lopes Júnior. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). Pós-Modernismo e Política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. p. 177-203. BHABHA, Homi K. O Pós-Colonial e o Pós-Moderno: A Questão da Agência. In: BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Glaucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998. p. 239-273. CULLER, Jonathan. Teoria Literária: uma introdução. Tradução de Sandra Vasconcelos. São Paulo: Beca, 1999. p. 48-58. DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016. FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008. MÜLLER, Jürgen Intermidialidade revisitada: algumas reflexões sobre os princípios básicos desse conceito. Tradução de Anna Stegh Camati e Brunilda Reichmann. In: DINIZ, Thais Flores Nogueira; VIEIRA, André Soares (orgs.). Intermidialidade e Estudos Interartes: desafios da arte contemporânea. v. 2. Belo Horizonte: Rona Editora e FALE/UFMG, 2012. p. 75-95.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura; Estudos Culturais; Objetos Culturais; Minorias; Contemporaneidade.

PROGRAMAÇÃO

S1 13/09 14h-17h - https://youtu.be/D0p-lFl6ja4

S2 14/09 14h-17h - https://youtu.be/CXW1Gzc6tYQ

S3 15/09 14h-17h - https://youtu.be/WzsGPniXCh0

S4 16/09 14h-17h - https://youtu.be/EVwIuNkUXMo