LITERATURA, LUGAR DE MEMÓRIA: A ARTE COMO UM DIREITO

SIMPÓSIO - ST55

COORDENADORES

Sabrina Vier (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)
Juciane dos Santos Cavalheiro (Universidade do Estado do Amazonas)
Márcia Lopes Duarte (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)

RESUMO

Em diálogo com Antonio Candido (2011, p. 177), compreendemos a literatura como “fator indispensável para humanização”, porque, “em sentido profundo, ela nos faz viver” (p. 178). Nesse sentido, em um país em que há um alto índice de desigualdade social, a assertiva “pobre não lê livros”, que serve como argumento para uma possível taxação de impostos sobre os livros, leva-nos a um abismo ainda maior. Havia, em um passado recente, uma prioridade que se voltava à extinção da fome, da miséria, do analfabetismo funcional. A literatura como um direito básico é o ponto de partida para propor, neste Simpósio, reflexões sobre a importância da arte em tempos de estado de exceção, de casos-limites. Uma teoria do estado de exceção é “condição preliminar para se definir a relação que liga e, ao mesmo tempo, abandona o vivente ao direito” (AGAMBEN, 2004, p. 12). Já apontava Walter Benjamin, em seu célebre artigo sobre a reprodutibilidade técnica da arte, que, “Tendo em vista que a superestrutura se modifica mais lentamente que a base econômica, as mudanças ocorridas nas condições de produção precisariam mais de meio século para refletir-se em todos os setores da cultura” (BENJAMIN, 1993, p. 165). Ou seja, é mais lenta a disseminação de bens simbólicos, que seriam, também, essenciais à manutenção do ser humano, principalmente no que se refere a suas manifestações culturais. Assim, a disseminação da arte, dialeticamente, se, por um lado, aproxima o olhar das grandes obras culturais, por outro, podem, também, ser apreendidas pelos regimes fascistas, com o intuito de, exatamente, impor limites à propagação das artes. Neste sentido, o pensador alemão implode o conceito de aura, “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja (BENJAMIN, 1993, p. 170). O poeta que melhor simboliza a perda desta aura, segundo Benjamin, é Charles Baudelaire, justamente porque ele dessacraliza os elementos da poesia e os aproxima da realidade mundana. Deste modo, sem a aura elitizante, a arte deveria aproximar-se das pessoas e garantir a elas o legado cultural de seus antepassados, a fim de que elas possam, também, deixar seu legado para o futuro. Nesse escopo, a literatura, como lugar de memória, é “um instrumento e um objeto de poder”, posto que “a memória”, como a compreende Jacques Le Goff , “procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro”, no sentido de contrapor-se a um discurso cada vez mais monológico e privatizado por determinados grupos que se pautam por interesses estritamente subjetivos (LE GOFF, 2013, pp. 435-437). Assim, neste Simpósio, propostas de análises comparativas de discursos críticos de vertentes diversas, confrontados com os contextos de produção e de circulação de obras da literatura contemporânea, sobretudo a latino-americana, podem contribuir para reflexões sobre o efeito estético suscitadas a cada ato de leitura, na medida em que “o texto só tem significado através de seus leitores; altera-se com eles” (CHARTIER, 1997, p. 12). Agregam-se, pois, nesse escopo, pesquisas que se identifiquem tanto com os fenômenos estritamente literários, como pesquisas sobre temas literários em sentido mais amplo e estudos comparatistas que visem demonstrar o potencial subversivo e reflexivo da arte em relação a outras áreas de conhecimento. O Simpósio pretende reunir pesquisadores e interessados na literatura como um direito e como possibilidade de um vir a ser – na experiência literária como “uma abertura para o desconhecido, para o que não é possível antecipar e pre-ver” (LARROSA, 2007, p. 148). Assim, este Simpósio objetiva reunir dispositivos e estudos que buscam, por meio do texto literário, refletir e problematizar sobre cada nova leitura realizada, que projeta leituras já ecoadas e que trazem novos sentidos a cada enunciação. Dispositivos e estudos, conforme aponta Agambem (2016), em diálogo com Foucault, como relações tecidas entre elementos de um conjunto heterogêneo, linguístico e não linguístico, que engloba diferentes discursos, cujos elementos são o dito e o não dito. Este Simpósio busca, enfim, com base em teóricos como Antonio Candido, Giorgio Agamben, Jacques Le Goff, Roger Chartier, Jorge Larrosa, Walter Benjamin, entre outros, pensar o texto literário “como algo que nos forma (ou nos de-forma ou nos trans-forma), como algo que nos constitui ou nos põe em questionamento com aquilo que somos” (LARROSA, 2003, p. 25-26).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, Giorgio. O amigo & O que é um dispositivo? Trad. Vinicius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2014. AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Trad. Iarci Poleti. São Paulo: Boitempo, 2004. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Trad. Sergio Paulo Rauanet. In.: ____. Magia e Técnica, Arte e Política. 5ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ___. Vários Escritos. 5 ed. São Paulo: Duas Cidades, 2011. CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. Trad. Leonor Graça. Lisboa: Vega Passagens, 1997. LARROSA, Jorge. La experiencia de la lectura: estudios sobre literatura y formación. México: FCE, 2003. LARROSA, Jorge. Literatura, Experiência e Formação: uma entrevista com Jorge Larrosa. In: COSTA, Marisa Vorraber (Org.). Caminhos Investigativos I: novos olhares na pesquisa em educação, 3. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007. LE GOFF, Jacques. História & Memória. Trad. Bernardo Leitão et al. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2013.

PALAVRAS-CHAVE

Estado de exceção; Literatura; Crítica literária; (Trans)Formação de leitores.

PROGRAMAÇÃO

S01 16/09 14h-18h - https://youtu.be/628beTeUxIg

S02 17/09 08h-12h - https://youtu.be/nWzKHBUz10U