LITERATURAS EM ABISMO: A PERSPECTIVA INTERSEMIÓTICA EM DEBATE

SIMPÓSIO - ST57

COORDENADORES

Fernando de Mendonça (Universidade Federal de Sergipe)
MARIA DO CARMO DE SIQUEIRA NINO (Universidade Federal de Pernambuco)
Mariângela Alonso (Universidade de São Paulo)

RESUMO

Retomando discussões iniciadas em edições anteriores da ABRALIC, este simpósio se organiza como um espaço para o debate de reflexões críticas voltadas à relação da literatura com as outras artes (cinema, fotografia, música, pintura, teatro etc.), baseando-se numa perspectiva de análise intersemiótica (PLAZA, 2013) e tendo como propósito ampliar e aprofundar os estudos advindos deste ramo da literatura comparada. Adotar a Intersemiose como postura de observação, continua sendo uma oportunidade para discutir as experiências literárias nas textualidades contemporâneas, notadamente marcadas pelo diálogo de linguagens e a hibridez de formas e mídias. Com o objetivo de melhor delimitar este complexo âmbito de pesquisa, multifacetado por natureza, propomos a aplicação do conceito de mise en abyme como uma âncora teórica, um denominador e ponto de interseção para as leituras que aqui possam emergir. Advinda de uma técnica romanesca explorada por André Gide, a partir dos últimos anos do séc. XIX, a expressão deriva de um termo que, na heráldica, vem se referir ao ponto em que diversas figuras e formas se relacionam, dentro de escudos e medalhões, compondo em abismo o fundo de uma imagem sem, necessariamente, se tocarem. Posteriormente teorizada por Lucien Dällenbach (1977; 1979), que aprofundou o caráter especular e destacou a presença desta ideia de composição narrativa como uma constante passível de identificação, da Antiguidade aos tempos modernos, esta consciência nos surge como um método de investigação para melhor uniformizar o heterogêneo cenário aberto pela relação das artes. Assim, importa não somente verificar a maneira como variadas obras podem se relacionar, mais do que isso, torna-se relevante perceber a influência destas relações no gesto criativo, em si mesmo. Uma obra que se constrói em abismo, segundo Dällenbach, vem também se desdobrar numa ‘autotextualidade’, em outras palavras, numa ‘intertextualidade autárquica’, passando a depender intrinsecamente do diálogo com outros textos e linguagens para subsistir como forma autônoma e original. Para Jean Verrier, o procedimento narrativo da mise en abyme reflete os problemas da gênese do romance, trazendo ao leitor um caminho sempre aberto e convidativo à leitura, rompendo com os meios e com o totalitarismo das narrativas tradicionais, uma vez que “l’oeuvre est une création où la lucidité joue un role majeur” (VERRIER, 1972, p. 60). Resultam dessa lucidez autoconsciente do escritor as reflexões em torno do processo de criação e da própria ficção. Nesse sentido, o processo de escrita instaura a investigação sobre o próprio ato criador que envolve a literatura. Espécie de construto artístico e crítico, a narrativa torna-se um caleidoscópio, que, por meio do reflexo da luz exterior em pequenos espelhos, apresenta, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis de efeitos visuais ou sentidos. Essa sobreposição de camadas de significação logo se percebe como um modus operandi muito expressivo e recorrente na literatura contemporânea, seja em obras que ultrapassem o verbo escrito para alcançar novos domínios de visualidade e, até mesmo, sonoridade; ou literaturas que vêm encontrar nas tecnologias eletrônicas, na cibernética e na rede virtual, novos horizontes de possibilidades textuais. O conceito de mise en abyme, desde os romances e apontamentos ensaísticos de André Gide, presta-se como instrumento de análise comparatista, pois instaura numa obra a reflexividade direta por outra(s) obra(s), seja através de semelhança ou de contraste. Jogo de reflexos a ser resgatado por Dällenbach, ao definir uma narrativa em abismo como obrigatoriamente estruturada por meio de um ‘relato espelhado’, assim como determina Umberto Eco (1989) em sua teoria de espelhamentos, ampliando o caráter vertiginoso das artes que se alimentam ininterruptamente. Diante disso, o simpósio propõe uma ampla discussão de obras que recorram a caminhos em composição especular, seja no direcionamento de textos que apontem para outros textos (obras dentro de obras), mas especialmente, no caso de linguagens que se voltem para outras linguagens, desafiando a percepção e inovando as estéticas contemporâneas. Acompanhando uma tendência dos estudos mundiais em literatura comparada, como se pode constatar pela organização de um periódico internacional da Università degli Studi di Verona (2014), integralmente voltado para pesquisas que contemplem a mise en abyme como escopo principal de análise crítica, espera-se contribuir aqui para a discussão e divulgação do tema. Diante da alta procura por esta proposta em edições anteriores da ABRALIC, a renovação do simpósio visa oportunizar um maior contato entre pesquisadores brasileiros que já se dediquem ao assunto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DÄLLENBACH, Lucien. Intertexto e autotexto. In: ______; et al. Intertextualidades. Tradução de Clara Crabbé Rocha. Coimbra: Almedina, 1979, p. 51-76. ______. Le récit spéculaire: essai sur la mise en abyme. Paris: Editions du Seuil (Poétique), 1977. ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. MISE EN ABYME: international journal of comparative literature and arts. Verona: Università degli Studi, 2014 - . ISSN 2284-3310. Disponível em: <https://journalabyme.wordpress.com/> Acesso em 16 Abr. 2021. PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013. VERRIER, Jean. Le récit réfléchi. Littérature, n. 5, Février 1972, p. 58-68.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura Comparada; Intersemiose; Mise en Abyme; Especularidade.

PROGRAMAÇÃO

S01 03/09 19h-22h - https://youtu.be/nGGHBpTnIOo

S02 10/09 19h-22h - https://youtu.be/Cp3Fkwqsje8

S03 17/09 19h-22h - https://youtu.be/uGmHLFHd8kk

S04 24/09 19h-22h - https://youtu.be/fFRdsozCnAA