POESIA E TRANSGRESSÃO

SIMPÓSIO - ST73

COORDENADORES

André Cechinel (Universidade do Extremo Sul Catarinense)
Cristiano de Sales (Universidade Tecnológica Federal do Paraná)

RESUMO

O arlequim que Mário de Andrade nos apresenta em muitos momentos de sua Paulicéia Desvairada opera de maneira precisa na proposição de uma estética modernista para a literatura brasileira. O modo como esse personagem aparece dentro da outra personagem, São Paulo, evoca um dos temas mais caros ao grupo que se empenhou na utopia modernista da década de 1920, a saber, o devaneio. Este, que carregava também um desejo de liberdade ganhou corpo em versos harmônicos – uma invenção formal de Mário. Essa refinada artimanha de amalgamar forma e conteúdo não apenas colocou o poeta paulistano no centro do movimento como também revelou um potente modo de transgredir. A transgressão, sabemos, ocupa lugar cativo nas tentativas de teorização acerca do modernismo. No entanto, não se pode baratear esse conceito no mero sentido de desvio ou negação de um sistema em curso (seja este sistema estético ou ideológico), pois, como fez o autor de Macunaíma, transgredir consiste sobremaneira em estabelecer contato com a tradição da qual se intenta libertar. Modificar algo num sistema demanda transformação e não se transforma nada encerrando a dialética entre a herança material-cultural e o novo que se pretende fazer aparecer. O ser contemporâneo de Agamben não é o que vê os limites do tempo e o nega, mas sim aquele que estabelece dialéticas distintas e desestabiliza o dispositivo do tempo. Por isso o arlequim de Paulicéia tentou cantar na cidade e foi levado pela polícia, porque seu canto não compunha mais melodias como queria a industrialização moderna que tomava conta da cidade, seu canto fazia harmonias com outros desejos, outros sonhos, oferecia outro ritmo. A transgressão estava em se permitir devanear. Ela é uma das principais potências do que chamamos modernismo em literatura. É uma potência que nos faz hoje acreditar que é característico da poesia transgredir. Tendo em vista o cenário maniqueísta que se transformou a arena pública dos debates que tocam a política no Brasil hoje, e que esse binarismo chegou a colocar objetos de arte no centro de uma discussão antes moralista do que estética, queremos com esse simpósio colocar em questão o caráter transgressor da poesia nos meios em que ela ainda opera (e isso inclui espaços instituídos, como universidades e escolas, e não instituídos, como circuitos que independem do academicismo). Tendo em vista também que vivemos hoje cenários muito antes distópicos do que o cenário utópico que sedimentou o ato de transgredir como marca da poesia, queremos discutir a transgressão em diferentes momentos históricos, abrindo, com isso, espaço para estudiosos dos diferentes períodos e tradições poéticas. Seja pelo inutensílio de Paulo Leminski – para quem a rebeldia era um bem absoluto que se manifestava na linguagem por meio da poesia –, ou pelos corpos riscados de Ana Cristina Cesar – onde o contorno de um seio e os traços da escrita de um poema se confundiam na tentativa angustiada de não separar a poesia da vida –, ou ainda na assumida luta inglória com o corpo da linguagem a que se entregou Ferreira Gullar, o rastro estendido no tempo que faz de certas escritas algo canônico (mesmo que em princípio à margem) parece trazer sempre a cicatriz de uma subversão num sistema operante. Mesmo quando nos afastamos das constelações de Mallarmé ou da postura mais radical de Rimbaud, encontramos vozes que permaneceram no tempo e no espaço porque desestabilizaram algo, não legitimaram o status quo da vida ou da literatura. E isso não é um mérito moderno, ocorre desde muito antes das interpretações românticas que damos à história da literatura. Enquanto Baudelaire parecia entender e explicar algo da Modernidade com seu cisne atordoado no asfalto, ou com a passante que desperta paixões à última (e não à primeira) vista, Walt Whitman libertava o verso com eloquência contagiante. Rilke equilibrava conteúdo e forma de maneira cirúrgica não para dizer o que fazia a poesia moderna, mas para escancarar justamente o que as teses sobre a lírica moderna não davam conta de explicar. De certo modo foi o que fez também o marujo Neruda que não cessou de sonhar e se fazer lírico, ou Hilda Hilst que ousou fazer de deus uma via de acesso sensorial (sensual) e não um fim. Cecília, que transgrediu a objetividade triunfante de Drummond para assumir-se só e afinada com uma subjetividade ibérica... Enfim,o que entrelaça esses poetas todos na mesma carne, ou campo, é o fato de não terem deixado estabilizar algo (estético ou ideológico). Isso também o faz quem se exprime em outras linguagens (Miró lido por João Cabral). Por isso queremos com esse simpósio não apenas homenagear os que já o fizeram, mas também ver posto em movimento obras e leituras que nos permitam debater novamente com quais dialéticas queremos nos comprometer em cenários tão ideologicamente estanques.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, Giorgio. A ideia da prosa. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova Reunião 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989. BERARDINELLI, Alfonso. Da poesia à prosa. São Paulo: Cosac Naify, 2007. CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. GULLAR, Ferreira. Toda Poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. HILST, Ilda. Exercícios, São Paulo: Globo, 2002 MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global Editora, 2012. NETO, João Cabral de Melo. Obras completas. Rio de Janeiro: Niva Aguilar, 1999 RILKE, R. M. Poemas. (Edição bilíngue). Tradução Geir Camos. São Paulo: Luzes no Asfalto, 2010. WHITMAN, Walt. Folhas de Relva. Tradução Bruno Gambarotto. São Paulo: Hedra, 2011.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura; Poesia; Transgressão.

PROGRAMAÇÃO

S01 01/09 09h-12h - https://youtu.be/8cfN_X1kdtI

S02 01/09 14h-17h - https://youtu.be/2o5Ra9GnCIc

S03 02/09 09h-12h - https://youtu.be/OQzyB0bKm24