ESCRITA DA CRISE

SIMPÓSIO - ST20

COORDENADORES

Gabriela Lopes Vasconcellos de Andrade (Universidade Federal da Bahia e Universidade Federal de Minas Gerais)
Antonia Torreão Herrera (Universidade Federal da Bahia)
Livia Laene Oliveira dos S. Drummond (Universidade Federal da Bahia)

RESUMO

A escrita do sujeito em crise perpassa a trajetória e a obra de Antonin Artaud. O livro, A Perda de si: cartas de Antonin Artaud, organizado por Ana Kieffer (2017), é um compilado das cartas do autor. Tal escrita epistolar tece a arte como experiência radical e cruel do substrato da vida, que aparece na correspondência como uma tentativa de sistematização do sofrimento que o acomete. Os textos poéticos de Artaud apresentam uma negação radical do centro até no uso da forma – do espaço físico –, eles empreendem uma torturante busca pelo espaço em suspensão da própria crise, do mal, da doença, da crueldade que atravessam o ser e o ser-escrita, não como representação, mas como absurdo e loucura da vivência cruel. O que fica evidente é como essa escrita da crise, um sujeito à margem do pensamento, no flerte com a “loucura”, se dispersa nos próprios limites da escrita e da língua. A crise acontece justamente por uma consciência da própria língua como uma moldura indissociável do pensamento e da vivência humana. A crise, do corpo em falência, da mente em retalhos, impede uma escrita pela consciência da falência da própria língua. Não é por acaso que Artaud ensaia a criação de uma língua própria, na qual as palavras são antes de tudo sons e imagens, uma língua que não comunica sentidos, mas evoca o ilimitado, o impossível da experiência interior do sujeito em crise. O impasse da escrita e da língua é abordado por Jean Starobinski (2011) em Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo. O autor analisa a questão da mediação da linguagem em Rousseau – o oblíquo do significante e do significado. A fala traz a espontaneidade da manifestação imediata do pensamento, enquanto a escrita opera na ausência do falante, é estética e deformada. Um signo enganador. Um signo que desloca, descentra e emaranha-se. Escrever é um acréscimo, uma completude de algo que falta, uma doença da fala. A escrita estetiza o agora, torna-se um encadeamento infinito, que se multiplica ilimitadamente. Artaud, em sua carta à Jacques Rivière, após a recusa da publicação da sua poesia, descreve uma escrita permeada pelo sofrimento de uma doença, um mal que lhe impede a formulação, que põe em suspensão a língua. Artaud desenha sobre si a crise do sujeito enquanto uma crise da escrita. Questionado sobre a veracidade desta crise, principalmente porque a sua escrita epistolar e teórica é tão profícua, Ele responde: “Existe algo que destrói o meu pensamento; algo que não me impede de ser isso que eu poderia ser, mas que me deixa, se assim posso dizer, em suspensão. Algo furtivo que rouba as minhas palavras [...] que destrói ao fim e ao cabo, na sua substância, a massa do meu pensamento” (ARTAUD apud KIFFER, 2017, p. 27). Peter Pál Pelbart (2019), em Ensaios do Assombro, afirma que Artaud vive a impossibilidade do pensamento. Para o autor, o pensar não é um mecanismo automático e natural, mas sim um corpo-objeto artificial, atravessado por diversas formas, que impedem um automatismo livre. “Se o pensamento é impossível, para Artaud, é porque em seu espírito a forma foi quebrada. Portanto, nem formas, nem imagens, nem representações, nada daquilo que prenderia ou escamotearia as flutuações intensivas do ser” (PÁL PALBERT, 2019, p. 278). Segundo Pelbart, o pensamento de Artaud, no seu impasse com a linguagem, busca fluxos que abandonam os limites de organização do corpo, justamente porque a crise fratura a economia das formas. A crise questiona a linguagem como instância de relação e de significado, que mitifica todas as coisas. E por isso, a escrita da crise recusa a linguagem como representação, em sua fragilidade da designação e do seu oblíquo. “Os signos, em Artaud, são linhas finas, flutuantes, em movimento. E a aspiração de Artaud é tornar-se uma linha impalpável, mas poderosa, indeterminada. Tornar-se uma linha em vez de ocupar o espaço” (PÁL PALBERT, 2019, p. 280-281). Nesse sentido, o presente simpósio propõe a seguinte discussão: o que pode uma escrita da crise? E assim, outras questões desdobram-se: quais os processos de suspensão da linguagem que transbordam em um sujeito em crise? Quais os atravessamentos de uma escrita permeada pela perda dos limites das estruturas e das organizações racionais? Dessa forma, utilizando o pensamento de Artaud como uma elaboração inicial, mas não limitado a ele, buscam-se trabalhos que abordem o tema da escrita da crise – uma escrita que rompe os limites da linguagem – e os desdobramentos de um sujeito em sofrimento, em dissociação com a realidade. A partir dessa temática, espera-se a eleição e análise de diversos autores e produções poéticas e artísticas que coloquem em cena o sujeito em crise e suas escritas impossíveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KIFFER, Ana (org). A perda de si: cartas de Antonin Artaud. Tradução de Ana Kiffer e Mariana Patrício Fernandes. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. PELBART, Peter Pál. Ensaios do Assombro. São Paulo n-1 edições, 2019. STAROBINSKI, Jean. Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

PALAVRAS-CHAVE

Escrita; Crise; Sujeito; Antonin Artaud; Linguagem;

PROGRAMAÇÃO

S01 29/09 09h-12h - https://youtu.be/u42-XF03-cA

S02 29/09 14h-17h - https://youtu.be/bj9ViboLQBw

S03 30/09 09h-12h - https://youtu.be/rCIfIlzAeRw

S04 30/09 14h-17h - https://youtu.be/gW6M2HqSN64