POÉTICAS DA CONTENÇÃO: ENTRE IMAGENS, PALAVRAS E SILÊNCIOS

SIMPÓSIO - ST75

COORDENADORES

Deborah Walter de Moura Castro (Unifal-MG)
Paulo Henrique Caetano (UFSJ - MG)
Maria Rita Drumond Viana (UFSC)

RESUMO

No poema “Silêncio”, da poeta americana Marianne Moore (1887-1972), há dois versos que dizem “O sentimento mais profundo sempre se mostra no silêncio;/ não em silêncio, mas contenção” (trad. José Antônio Arantes). Nesse trecho, entendemos que os significados mais obscuros, e talvez mais complexos, são expostos não em uma escrita hemorrágica, mas quando guardam-se as palavras. Segundo George Steiner, em Linguagem e Silêncio, “o mais elevado e puro grau do ato contemplativo é aquele em que se aprendeu a abandonar a linguagem” (1988, p. 30). Steiner diz que o Apóstolo nos contou que o começo era o verbo e que aceitamos essa realidade sem discussão: “[é] a raiz e o córtex de nossa experiência e não podemos transportar facilmente nossa imaginação para fora dele. Vivemos no interior do ato do discurso” (1988, p. 30). Mas o autor admite que “existem atividades do espírito enraizadas no silêncio”, conjurando na nossa consciência uma lacuna existente “entre a nova compreensão de realidade psicológica e as antigas modalidades de manifestação retórica e poética” (1988, p. 30). A verdade é que o silêncio reveza com as palavras a árdua tarefa de comunicar. Ele está presente mesmo quando está também a palavra, e por isso ele é uma entidade que coexiste com a linguagem verbal, faz parte dela (ORLANDI, 2007). Mesmo quando o sujeito não estabelece um laço evidente com o silêncio, “quanto mais se diz, mais o silêncio se instala, mais os sentidos se tornam possíveis e mais se tem ainda a dizer” (ORLANDI, 2007, p. 69), como o princípio da polissemia, ou como um ponto que a palavra não atinge. Consideramos então que o silêncio não é ausência e nem implica a falta de sentido. O ‘vazio’ sempre adquire a proporção de alguma coisa – ou de qualquer coisa. Ou seja, o silêncio pode estar inclusive mais perto de uma possibilidade irrestrita de significados do que de significado nenhum. É como se ao nos aproximarmos de uma escrita silenciosa, admitimos a insuficiência das palavras em querer dizer. Manoel de Barros já dizia, em “O apanhador de sonhos”, que “as palavras são usadas para compor silêncios”. Uma poética da contenção pode se aproximar de um desafio criativo, como o desafio dos dadaistas em criar uma linguagem que transcendesse a razão; ou “Nudism”, o livro de páginas em branco do poeta Cégeste, no filme “Orfeu” (Orphée, 1950), de Jean Cocteau. Pode ser também, segundo Susan Sontag, no ensaio “A estética do silêncio”, uma forma de transformação da arte, uma relutância em se comunicar dentro dos padrões: “[o] mais comum é que continue a falar, mas de uma maneira que o público não pode ouvir” (SONTAG, 1987, p. 15). A artista e poeta sueca Cia Rinne (1973 - ) escreve em um de seus versos para Notes for soloists: “cut out from books/ important words/ destroy the book./ (diagonal reading)/ And then someone will notice.” Rinne afirma que sua preocupação é reduzir as palavras ao mínimo possível para permitir a visualização de um pensamento ou uma ideia. Segundo ela, a simplicidade ou o minimalismo, tanto na literatura quanto nas artes visuais, é também um movimento contra o excesso de informação e desperdício de materiais no mundo contemporâneo. Pensando então nas diversas formas como o silêncio pode ser tangenciado, seja como um desafio criativo, pela obliteração de palavras, rasura, minimalismo, ou em página em branco, o interesse deste simpósio é reunir trabalhos que tragam possibilidades poéticas que margeiem o silêncio de forma a chegar perto da ilegibilidade. O objetivo é colocar em debate também as possibilidades de leitura de textos literários e artísticos que acomodem uma poética silenciosa e sua projeção para além do texto. O silêncio, devido à impossibilidade de ser atingido em sua plenitude, deve apresentar características que sustentem a leitura dos poemas/obras nos limites do que é perceptível uma vez que são muitos os caminhos, as entradas e os desvios. Craig Dworkin, em seu livro Reading the illegible, diz que qualquer trabalho pode ser conceitualizado e lido ativamente, mesmo quando aparentemente não apresente nada a ser lido. Segundo Dworkin, sempre haverá a presença de um algo passível de leitura, ou o que ele chama de substrato. A questão não está entre presença ou ausência, mas o que de qualquer maneira significa. Quase como um postulado filosófico, uma leitura que tem como objetivo o silêncio já antecipa que seu fim é apenas o começo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DWORKIN, Craig Douglas. Reading the illegible: avant-garde and modernism studies. U. da California: Berkeley, 2003. MOORE, Marianne. “Silêncio”. Trad. José Antônio Arantes. Trapiche dos Outros. Acesso em: 15/04/2021. Disponível em: <https://trapichedosoutros.blogspot.com/2011/05/34.html> ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 6. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. SONTAG, Susan. “A estética do silêncio”. In: A vontade radical: estilos (1966). Tradução de João Roberto Martino Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Disponível em: Acesso em: 23/02/2015. STEINER, George. Linguagem e Silêncio: ensaios sobre a crise da palavra. Trad. Gilda Stuart e Felipe Rajabally. São Paulo: Companhia das letras, 1988.

PALAVRAS-CHAVE

Poéticas da contenção; Rasura; Apagamento; Minimalismo; Silêncio.

PROGRAMAÇÃO

S01 08/09 10h-13h - https://youtu.be/loPn1E8hvr8

S02 09/09 10h-13h - https://youtu.be/Jv2dWMyhqBA

S03 10/09 10h-13h - https://youtu.be/1baqdfl0ZL4