TEMAS, FORMAS E OBSESSÕES DO ROMANCE PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO

SIMPÓSIO - ST81

COORDENADORES

Pedro Fernandes de Oliveira Neto (Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN))
Maria Aparecida da Costa (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN))
Jonas Jefferson de Souza Leite (Universidade Federal de Pernambuco (UFPE))

RESUMO

A literatura portuguesa nos últimos sessenta anos se revestiu de uma variabilidade de formas, expressões, estéticas, temas e obsessões que, entre as águas da ficção de viés ou teor mais social advindas do que foram as produções do chamado Neorrealismo (e mais distante, do Realismo) e as da ficção mais preocupadas com o trato estético, eivadas dos resquícios das vanguardas, tem assumido uma nova face, mais aberta, plural e ingressada no que poderíamos designar como uma literatura de corte universal. Isto é, tal literatura desplega os localismos ao se mostrar interessada pelas transformações e variações comuns a toda comunidade humana; trata-se isso ora como uma força marcadamente típica do post-modernismo (cf. Arnaut, 2002), ora como fluxo comum dado a uma época de dinamizações e integrações, afinal toda literatura é sempre um “modelo orgânico, vivo” (cf. Real, 2012). Nesse caso específico, as circunstâncias históricas que parecem influenciar os escritores advêm, dentre outras, do reconhecimento de Portugal numa dinâmica político-geográfica da Europa e das contínuas trocas culturais favorecidas em momentos pouco depois do fim das obstruções ditatoriais impostas ao largo de mais de quatro décadas e a possibilidade de integração do país para as correntezas das globalizações, que, positiva ou negativamente têm assumido o protagonismo de novos valores contrários aos estilemas da opressão. Independente de qual perspectiva teórica nasça uma compreensão sobre as modificações no âmbito do literário, o fato é que se cobra dos investigadores maneiras de pensarmos sobre e com intuito de construir detalhadamente suas implicâncias seja para com o cânone, a forma, seja para com as questões sociais, culturais e políticas, porque, no fim de tudo, o que todas as mudanças favorecem, numa dialética, são também novas formas de ser e estar no mundo (cf. Seixo, 1984). O produto das transformações por que passa a ficção, sabemos, se faz de motivações de ordem diversa e a principal delas responde pela presença de como os sujeitos se relacionam com as novas posições assumidas nos contextos pelos quais transitam; ao mesmo tempo, a literatura tece uma participação na variabilidade das forças reinauguradas no mundo fora do tecido textual. O que marca este período, então, no romance português, é o desenvolvimento de novas práticas e experiências com a narrativa, a proliferação das inquietações tornadas em matérias temáticas dos novos ficcionistas — ora afastando-se do conteúdo histórico-social e de uma reflexão sobre os modos de ser e estar português para se aproximar de preocupações a um só tempo interior e exterior ao indivíduo do seu país (nativo ou ingresso) ora reinventando os mananciais de criação, tais como a guerra colonial, os transes da imigração, outros episódios da história dos povos (as guerras, os regimes despóticos, as violências explícitas ou encobertas), as crises do sujeito, a diversidade das relações humanas desencadeadas no extenso e complexo jogo social etc. No caso da ficção romanesca, do ponto vista estético-formal, cite-se a diversidade da composição, acentuada na valorização da escrita e suas implicações na tessitura textual (das quais as intersemioses, o ready-made e os procedimentos metaficcionais são apenas alguns exemplos), nas relações entre os modos escriturais e orais, no uso de novos recursos estilísticos, de criação, recriação e interpenetração das formas discursivas, na diversidade de registro e conformação da narrativa seja decorrentes das constantes infiltrações dos tons subjetivos (cf. Cerdeira, 2020), marcados pelo recurso de intromissão lírica seja o desenvolvimento da reflexão sobre o cotidiano, a rotina íntima dos sujeitos agora olhada como mundividências de interesse ao literato. Ainda, o que seduz a escrita é um tipo de interesse por formas ficcionais diversas — tais como uso recorrente das chamadas narrativas marginais (em desordem, cf. Barrento, 2016), os gêneros de primeira pessoa, os relatos, os diários, as crônicas etc. Os rumos, portanto, são muitos e vastos; “o romance português sofreu, no seu todo, uma profunda rutura” (REAL, 2012, p. 22). No interesse de apontar, descrever, discutir, relacionar, construir diálogos com a pluralidade de eventos situados no âmbito da ficção romanesca, sua dinâmica geral, ora reafirmando essa tendência à dispersividade, ora estabelecendo uma busca por uma unidade dialética que possa compreender sujeitos e mundos na sua pluralidade, é que se constitui este simpósio. Vinculadas às discussões desenvolvidas no âmbito do Grupo Estudos Sobre o Romance, nosso intuito é, a partir da leitura de romances publicados em Portugal a partir dos anos 1950, abrir algumas coordenadas úteis crítica, teórica e metodologicamente para pensar sobre o que é, no fim de tudo, um afã da literatura portuguesa pela universalidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARNAUT, Ana Paula. Post-modernismo no romance português contemporâneo. Fios de Ariadne, máscaras de Proteu. Coimbra: Almedina, 2002. BARRENTO, João. A chama e as cinzas. Um quarto de século de literatura portuguesa (1974-2000). Lisboa: Bertrand Editora, 2016. CERDEIRA, Teresa. Formas de Ler. Belo Horizonte: Moinhos, 2020. REAL, Miguel. O romance português contemporâneo 1950-2010. 2 ed. Lisboa: Caminho, 2012. SEIXO, Maria Alzira. Dez anos de literatura portuguesa (1974-1984): ficção. In: Revista Colóquio/ Letras, Lisboa, n.78, março, 1984, p.30-42.

PALAVRAS-CHAVE

Estudos sobre o romance; Literatura portuguesa; Romance português contemporâneo.

PROGRAMAÇÃO

S01 08/09 09h-12h - https://youtu.be/UGlDWn3oKX8

S02 09/09 09h-12h - https://youtu.be/n8uxY3smlMQ

S03 10/09 09h-12h - https://youtu.be/nXPvZscbs04