LITERATURA DE AUTORIA E DE EXPRESSÃO AMAZÔNICA: DIÁLOGOS COM A LITERATURA MUNDIAL

SIMPÓSIO - ST39

COORDENADORES

Cássia Maria Bezerra do Nascimento (Universidade Federal do Amazonas)
MIRELLA MIRANDA DE BRITO SILVA (Universidade Federal de Roraima)
ADRIANA HELENA DE OLIVEIRA ALBANO (Universidade Federal de Roraima)

RESUMO

O debate sobre a Amazônia, nos mais variados campos do saber, se intensificou no último século. Termo cercado de exotismo, equívocos e inexatidões, mesmo do ponto de vista físico-geográfico, a Amazônia é geralmente enunciada como sinônimo da Região Norte do Brasil, mas abrange outras regiões, se fazendo presente em Estados do Centro-oeste e Nordeste brasileiro, para além dos países fronteiriços, que concentram parte considerável de sua área. A porção brasileira da Amazônia chamou a atenção do mundo inicialmente durante a Revolução Industrial, funcionando como a maior fonte de matéria-prima de borracha, que supria as demandas das fábricas inglesas, que então começavam a operar (FILHO, 2015, p. 330). No governo de Getúlio Vargas, a chamada “colonização da floresta” passou a ser vista como estratégica para os interesses nacionais, na chamada “Marcha para o Oeste”. Desde então, em busca de diferentes el dorados, a região passou por vários boons migratórios, com impactos diversos. Entretanto, apesar de todo o tempo transcorrido, a Amazônia ainda é um espaço cujos limites e definição permanecem em constante remanejamento, obnubilando-se no imaginário nacional como o céu da floresta, via de regra encoberto pelas densas nuvens que sacodem os aviões que a sobrevoam, ou envolta na escura fumaça das queimadas. Vítima dos factoides propagados nas redes sociais e do criminoso descaso governamental, a Amazônia brasileira voltou à berlinda e às manchetes dos noticiários do mundo inteiro. Euclides da Cunha (1999) já declarara que a Amazônia esteve por muito tempo à margem da história, ressaltando que os interesses nacionais e internacionais estavam muito mais voltados para as potencialidades naturais da biodiversidade da fauna e flora amazônica, do que para o homem da região e sua cultura. Nesse sentido, estamos de acordo com Ana Pizarro (2006, p. 98-99), quando defende que o espaço amazônico não existe somente como reservatório de diversidade biológica, mas consiste também em receptáculo cultural e fonte da constução de parte dos modos de seu imaginário. É sobre a literatura aí produzida, em seu discurso construtor/problematizador das imagens formadas acerca do que é a Amazônia (ou Amazônias), de suas relações com o resto do continente, e com o mundo, que optamos por dar destaque a olhares que tratem sobre a Amazônia complexa, abordada por Djalma Batista (2007), na perspectiva do paradigma da complexidade de Morin (2015) e residual conforme as orientações de Pontes (1999, 2020), além de estudos que se estabelecem com o diálogo entre diferentes épocas e espaços acerca da literatura e da cultura híbrida amazônica. Ao pensar em literatura de autoria ou de expressão amazônica, reconhecemos que, na literatura produzida na(s) e sobre a(s) Amazônia(s), se entrecruzam e se entrechocam duas percepções fundamentais, intensificadas pelos litígios atuais: de um lado, uma Amazônia risonha, que acena com a possibilidade do achamento do El dorado de riquezas infindáveis; de outro, a imagem terrificante do “inferno verde”, da selva que destrói corpos e ânimos de quem tenta dela tirar seu sustento; perspectiva nascida dos relatos dos viajantes, que ganhou corpo na propaganda institucional dos governos militares, sobretudo a partir do programa de interiorização getulista, que afirmava “O destino brasileiro no Amazonas”, plasmando em definitivo o imaginário nacional a ideia de que a apropriação capitalista mais intensiva e predatória da floresta é o passo que falta para alçar o Brasil à condição de nação superdesenvolvida. É a Amazônia de el dorados e muiraquitãs, largamente representada pelas expressões literárias locais e nacionais, em obras clássicas ou contemporâneas, como também na poética oral das inúmeras comunidades indígenas da região. A segunda visada, frequentemente nascida da experiência do migrante, se solidifica nas obras que tratam especificamente da vida na região amazônica e que elaboram a expressão poética mais conhecida do que é a Amazônia e o que significa viver ali, como em A Selva, de 1930, de Ferreira de Castro, ou em Inferno Verde, de 1908, de Alberto Rangel, como explora Synésio Filho (2001), a título de exemplo. Em um contexto histórico em que são retomadas explicitamente práticas que prescindem de qualquer projeto de desenvolvimento sustentável para a região e em que os flagrantes de desrespeito aos direitos mais fundamentais dos povos indígenas e demais comunidades tradicionais se multiplicam, é urgente a intensificação deste debate. É, pois, diante desse complexo cenário histórico (teórico e crítico) que propomos este Simpósio para pensar a literatura de autoria e de expressão amazônica, da literatura produzida na(s) e sobre a(s) Amazônia(s), com ênfase às propostas que a focalizem em diálogo com a literatura mundial. Portanto, serão acolhidos trabalhos na seara da literatura comparada, da teoria da literatura, da história da literatura, dos estudos culturais, das relações entre literatura e cinema, da complexidade e da residualidade literária e cultural, do ensino de literatura, do letramento literário, desde que centrados no contexto da Amazônia, nas suas literaturas escritas, orais, poéticas indígenas e ribeirinhas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BATISTA, Djalma. O Complexo da Amazônia: Análise do processo de desenvolvimento. 2. Ed. Manaus: EDUA; Valer; INPA, 2007. CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999 (Temas Brasileiros). CASTRO, Ferreira de. A Selva. Fundação Cultural do Estado do Acre: Rio Branco, 1999. FILHO, Synesio. Navegantes, bandeirantes, diplomatas – Um Ensaio Sobre a Formação de Fronteiras no Brasil, edição Revista e Atualizada, Brasília, 2015, p. 330. FILHO, Synesio. Inferno verde: cenas e cenários do Amazonas. 5 ed. Manaus: Valer/Governo do Estado do Amazonas, 2001. MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre : Sulina, 2015 PONTES, Roberto. “Lindes Disciplinares da Teoria da Residualidade”. Manaus: Revista Decifrar. V. 7 n. 14, p. 11-20, jul-dez 2019. ISSN 2318-2229. Disponível em <Periodicos.ufam.edu.br/índex.php/decifrar/articule/view/7555/> Acesso em: 28 set PONTES, Roberto. “Pródromos Conceituais da Teoria da Residualidade”. In: PONTES, Roberto; MARTINS, Elizabeth; NASCIMENTO, Cássia Maria Bezerra do (orgs) et al. Matizes de Sempre-Viva: Residualidade, Literatura e Cultura. Macapá: UNIFAP, 2020. PIZARRO, Ana. O sul e os trópicos. Niterói: EdUFF, 2006 RANGEL, Alberto. Inferno verde: cenas e cenários do Amazonas. 5 ed. Manaus: Valer/Governo do Estado do Amazonas, 2001.

PALAVRAS-CHAVE

Amazônia; Complexidade; Transdiciplinaridade; Residualidade Literária e Cultural.

PROGRAMAÇÃO

S01 27/09 14h-18h - https://youtu.be/AqC_HLxp2G0

S02 28/09 14h-18h - https://youtu.be/zHIsb9tMfpc

S03 29/09 14h-18h - https://youtu.be/vQu6Tsw_W7U

S04 30/09 14h-18h - https://youtu.be/tyjKEHnvEo4