LITERATURAS LATINO-AMERICANAS DE EXPRESSÃO FRANCESA

SIMPÓSIO - ST59

COORDENADORES

DANIELLE GRACE DE ALMEIDA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE)
Dennys Silva-Reis (Universidade Federal do Acre)
Rosária Cristina Costa Ribeiro (Universidade Federal de Alagoas)

RESUMO

Ao propor um simpósio dedicado às literaturas latino-americanas de expressão francesa, sabe-se da complexidade que o tema envolve (SILVA-REIS, GYSSELS, 2020). A começar pelos impasses suscitados pela tentativa de definição de uma produção literária que, distante do hexágono, possa fundamentar suas próprias raízes identitárias. Enquanto, para o leitor comum, a França conserva a imagem de país da literatura, desde o século XX, com as reflexões trazidas pelos escritores da Negritude, tornou-se incontornável teoricamente considerar a literatura em língua francesa uma produção que não se restringe às fronteiras desse país. A política expansionista francesa percorreu séculos difundindo a língua pelos cinco continentes. No que concerne à América Latina, esses espaços geográficos, hoje ex-colônias, como a República do Haiti, ou territórios franceses, ditos outre-mer, como algumas ilhas do Caribe e a Guiana Francesa, são palcos de uma literatura que continua a dramatizar os conflitos advindos da violência colonial. A língua é, portanto, um terreno tão arenoso quanto mágico, fundado, por vezes, pela sintaxe das línguas crioulas, ou pelo desejo de reconhecimento através de um língua de tradição literária, submetendo aqui e ali a língua dos clássicos franceses à descrição rústica da paisagem tropical. Ou ainda, narrativizando diegeses propriamente identitárias da América Latina em língua francesa. Trata-se de uma literatura constitutiva de um trânsito, permitindo a circulação de identidades através de um procedimento dialético que Édouard Glissant (1990) definiu como “poética da relação”. Nesse contexto, as narrativas de expressão francesa na América Latina participam principalmente de correntes que se complementam e se completam em um mosaico multicultural, marcado pela resistência de René Ménil, e pela (re)existência de Price-Mars, Maryse Condé ou Vincent Placoly. Seja pertencente a uma tradição oral (oralitura), seja a uma tradição escrita, ou de ambas, seja na literatura infanto-juvenil, contos, narrativas orais, romances, novelas, compõem um quadro tão diverso quanto suas produções, marcadas pela, heteroglossia, pela polifonia (SATYRE, 2004) e pelas ressonâncias (GLISSANT, 1990). Assim, no que diz respeito às propostas de trabalho ligadas à narrativa, um dos objetivos do simpósio é celebrar a multiplicidade de vozes e culturas, contemplando as expressões em língua francesa publicadas nesse território tão violentado como a América Latina. Inclui-se aqui as produções que tenham como corpus publicações narrativo-argumentativas, como os ensaios de Christiane Taubira. Dessa forma, esperamos contribuir para a legitimação dessas produções e ampliação da divulgação de seus crescentes estudos, em toda sua heterogeneidade, em busca de seus próprios cânones. No que diz respeito à poesia, pretendemos reunir trabalhos que mostrem o adensamento das relações de diversidade na construção de um projeto, que, mesmo sendo poético, não deixa de acenar para o político, nos termos de Jacques Rancière (1995; 2009). Em relação a esse aspecto, vale pontuar o papel fundador da poesia nas literaturas latino-americanas de expressão francesa. Desde o encontro entre Aimé Césaire (Martinica), Léon Gontran-Damas (Guiana Francesa) e Jacques Roumain (Haiti) nos anos 1930 e 1940, a poesia tem se estabelecido como uma arte que apresenta o pensamento anticolonialista através de uma sofisticada operação estética. Na contemporaneidade, a produção poética parece confluir dois aspectos essenciais: o diálogo com a tradição, inaugurada por esses e outros conterrâneos, e as questões socioculturais que se avultam no presente. Nesse sentido, destacam-se poetas como Frankétienne e Elie Stephenson, além de importantes vozes femininas, como as de Evelyne Trouillot, Assunta Renau Ferrer e Suzanne Dracius. Apesar da escassez de estudos teóricos no Brasil e de traduções para o português, que limita a circulação de tais obras, podemos notar um aumento considerável de estudos nos últimos anos. Portanto, esperamos acolher trabalhos que discutam relações literárias comparativas com a produção brasileira, implicações tradutórias e mecanismos estéticos que envolvam a poesia desses países. Por fim, porém não menos importante, o texto teatral latino-americano de expressão francesa, enquanto objeto dos Estudos Literários Francófonos, parece ser o mais pobre no baú da fortuna crítica literária brasileira. Isso ocorre por dois motivos principais: a efemeridade deste texto que muitas vezes é encenado, mas não publicado; e, pela dificuldade de acesso às obras em si como publicação literária (BÉRARD, 2009). Os estudos do texto e até mesmo da cena teatral de expressão francesa no Caribe e na América do Sul podem trazer grandes contribuições aos estudos literários e linguísticos descortinando aspectos étnicos, sociais e linguageiros dessas diferentes comunidades que compartilham a língua francesa escrita e oral neste espaço pluriétnico. Até mesmo autores muito conhecidos pela prosa são ainda desconhecidos no aspecto teatral - tais como Maryse Condé, Édouard Glissant, Jean Métellus, dentre outros. Interessante notar que muitos dramaturgos latino-americanos de expressão francesa são igualmente autores, diretores de teatro e críticos literários teatrais, como por exemplo, Odile Pedro Leal (1995, 2001), Gerty Dambury (2015, et ali 2018) e Pierre Chambert (2015). Logo, tencionamos com este simpósio impulsionar estes estudos, ainda incipientes no Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÉRARD, Stéphanie. Théâtres des Antilles - traditions et scènes contemporaines. Paris: L'Harmattan, 2009. CHAMBERT, Pierre. Kokolampe: un théâtre école plurilingue dans les Guyanes. Montpellier: L'entretemps, 2015. DAMBURY, Gerty. Le rêve de William Alexander Brown/ La compagnie africaine présente Richard III. Paris: Éditions du Mangier, 2015. ______ et al. Décolonisons les arts. Paris: L'Arche, 2018. GLISSANT, Edouard. Poétique de la Relation. Paris : Gallimard, 1990. LEAL, Odile Pedro. Le théâtre en Guyane : quelles écritures ? Dissertação de mestrado em Estudos teatrais. Paris: Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3, 1995. ______. Théâtre et écriture ethniques de Guyane. Tese de doutorado em Estudos teatrais. Paris: Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3, 2001. RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Trad. Raquel Ramalhete, Laís Eleonora Vilanova, Lígia Vassalo e Eloísa Araújo Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. ______. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO Experimental, 2009. SATYRE, Joubert. La Caraïbe In: Introduction aux littératures francophones: Afrique · Caraïbe · Maghreb [en ligne]. Montréal: Presses de l’Université de Montréal, 2004. Disponível em: <http://books.openedition.org/pum/10659>. Acesso em 19 de abril de 2021. SILVA-REIS, Dennys; GYSSELS, Kathleen. Les littératures latino-americaines d’expression française : vues du Brésil ou “la malédiction de l’anachronisme” d’Octavio Paz. Caligrama: revista de estudos românicos. v 25. N. 3. Belo Horizonte: UFMG, 2020.

PALAVRAS-CHAVE

Literaturas latino-americanas de expressão francesa; Narrativas; Poesia; Teatro; Oralitura.

PROGRAMAÇÃO

S1 15/09 18h30-21h - https://youtu.be/MpxC88nQOwA

S2 16/09 18h30-21h - https://youtu.be/h0CTJJKTWu8