POÉTICAS FRONTEIRIÇAS NAS AMAZÔNIAS

SIMPÓSIO - ST76

COORDENADORES

GILSON PENALVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL E SUDESTE DO PARÁ)
Ana Lúcia Liberato Tettamanzy (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL)
Márcio Araújo de Melo (UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS)

RESUMO

Muito tem se falado sobre a Amazônia, principalmente na contemporaneidade, em que virou modismo discutir questões ecológicas e ambientais. Todo o mundo hoje se volta para essa região do planeta com a mesma insistência em vê-la como reserva florestal capaz de salvar o planeta já poluído e contaminado. O olhar exótico que sempre norteou a relação do resto do mundo com essa região tem feito com que se observe a floresta, o rio, os animais, os peixes e insetos sem, no entanto, observar respeitosamente as pessoas e as culturas, em especial negros e indígenas. Conscientes dessa problemática, interessa-nos pôr em relação trabalhos que contribuam para o debate sobre as formas de alteridade racial/cultural/histórica demarcadas no texto literário amazônico, com o intuito de problematizar a nossa formação cultural, pensada pelo modelo hegemônico, que sempre esteve ligado a uma perspectiva de negação do Outro, estabelecendo hierarquias culturais. Com o intuito de desestabilizar essas hierarquias, esse simpósio pretende fazer ouvir vozes e versões que foram silenciadas historicamente, propondo rediscutir epistemologias, discursos e ideias preconceituosas que mantêm estruturas de exclusão e impedem a manifestação da diferença. Nesse sentido, o simpósio assume propositadamente um caráter de pesquisa implicada, por problematizar a pseudo-neutralidade do discurso ocidental que se propõe discutir a natureza do literário apenas pelo viés estético, negligenciando o político e o ideológico. A intenção é propor uma análise prioritariamente do objeto literário per se, sem reduzi-lo ao beletrismo despolitizado e ornamental, mas compreendendo a literatura como campo também fértil para a expressão de discursos ideológicos, políticos e sociais e para modalidades textuais compósitas. Nessa perspectiva, a criação verbal deixa de ser compreendida apenas como a grande obra, detentora de um saber hegemônico, representativa de uma cultura de elite, expressa numa língua padrão, assumindo, de forma desafiadora, um caráter mais heterogêneo, plural e problematizador. Desenvolver espaços fronteiriços de diálogos que contemplem o espaço amazônico, com ênfase em aspectos identitários e culturais na contemporaneidade é uma atividade relevante e necessária. Em primeiro lugar, porque é uma forma de conhecer a diversidade de grupos indígenas, de negros, migrantes internos e imigrantes que possuem formas de vida e trabalho, fracassos e expectativas que de certo modo se articulam. Segundo, porque é uma maneira de re-conhecer que essa região não é apenas “patrimônio ecológico estratégico”, mas também abrigo de uma série de vozes que, mesmo em grande parte silenciadas, contribuíram e ainda contribuem para a formação de uma consciência nacional. Em outras palavras, para nós, essa região apresenta-se não apenas como centro de importância ecológica, uma vez que é também centro de elaboração constante de culturas e imaginários. Estudá-la, nesse sentido, é como afirma Ana Pizarro “uma forma de apropriá-la para o continente que a olhou sem vê-la” (2004, p.34). A reflexão que ora propomos está afinada com as discussões de Homi K. Bhabha, Stuart Hall, Jacques Derrida, Franz Fanon, Rita Olivieri Godet, Edward Said, Ana Pizarro, Julia Kristeva, Eduardo de Assis Duarte, Zilá Bernd, Arturo Escobar, Silvia Cusicanqui, Glória Anzaldua, entre outros que têm ajudado a pensar povos, culturas e saberes não como uma essência fixa e homogênea, que se mantém imutável, mas como um processo que se encontra em constante diálogo e transformação. Temos interesse ainda em reflexões em torno do conceito decolonial, desenvolvido por Aníbal Quijano e Walter Mignolo, por apresentarem uma reflexão sobre resistência epistêmica ao projeto colonialista, centralizador e imperial, que historicamente subjugou povos e culturas consideradas marginais. É a partir dessas reflexões que estamos propondo desestabilizar o pensamento, deslocando o olhar para a margem, para os de fora, para os que não constaram nos manuais ou constaram de forma negativada. No contexto amazônico, estamos falando de negros, indígenas, quilombolas, caboclos, peixeiros, prostitutas. Com este simpósio, espera-se contribuir para a elaboração de novas subjetividades e formas alternativas de conhecimento, que coloquem em evidência não só os sujeitos que foram e ainda são silenciados e problematicamente representados, mas, também, num campo de observação mais amplo, ajudem a pensar no próprio espaço amazônico, que também é historicamente marcado por essa condição de exclusão. Portanto, trata-se da tentativa de rever estereótipos em torno do espaço amazônico que passam, inevitavelmente, por relações de poder e saber que produziram (e ainda produzem) imagens e enunciados clichês, que falseiam esse espaço e as pessoas que vivem nele.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La frontera: the new mestiza. 4ed. San Francisco: Aunte Lute Books, 2012. BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Trad. Myriam Àvila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. 2 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. BERND, Zilá. Literatura e Identidade Nacional. 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003. CUSICANQUI, Silva Rivera; BARRAGÁN, Rossana (orgs). Debates Post Coloniales: una introducción a los Estudios de la Subalternidad. La Paz: SEPHIS; Ediciones Aruwiyiri; Editorial Historias, 1989. DERRIDA, Jacques. A diferença. In: ______. Margens da Filosofia. Trad. Joaquim Costa, Antônio M. Magalhães. São Paulo: Papirus, 1991, p. 33- 62. DUARTE, Eduardo de Assis. O negro na Literatura Brasileira. In: FERREIRA, Elio; FILHO, Feliciano José Bezerra; COSTA, Margareth Torres de Alencar (Orgs.). Literaturas e canções afrodescendentes: África, Brasil e Caribe. Teresina, PI: EDUFPI, 2017, p. 37-51. ESCOBAR, Arturo. Mundos y conocimientos de outro modo: el programa de investigación de modernidad/colonialidade latinoamericano. Tabula Rasa, n. 1, p. 51-86, Ene.-Dic. 2003. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Renato da Silveira. Salvador, EDUFBA, 2008. HALL, Stuart. Cultura e representação. Trad. Daniel Miranda e Willian Oliveira. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Apicuri, 2016. MIGNOLO, Walter D. Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Trad. Ângela Lopes Norte. In: Caderno de Letras: Universidade Federal Fluminense – Dossiê: Literatura, língua e identidade, n.34. Niterói: Instituto de Letras, 2008, p. 287-324. OLIVIERI-GODET, Rita. A alteridade ameríndia na ficção contemporânea das Américas: Brasil, Argentina, Quebec. Belo Horizonte: Fino Traço, 2013. PIZARRO, Ana. Amazônia: as vozes do rio: imaginário e modernização. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012. QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (orgs). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010, pp.84-130.

PALAVRAS-CHAVE

Amazônia; Cultura, Alteridade; Processos de identificação

PROGRAMAÇÃO

S1 14/09 18h-21h - https://youtu.be/lkXNujwd2v8

S2 15/09 18h-21h - https://youtu.be/FKBJfADFxo4

S3 16/09 18h-21h - https://youtu.be/Z10xbmIl4pw

S4 17/09 18h-21h - https://youtu.be/G4QfJ8DqF04