LEGADOS DAS MULHERES DA IDADE MÉDIA E DO RENASCIMENTO: LITERATURA, TRADUÇÃO, FILOSOFIA, HISTÓRIA

SIMPÓSIO - ST34

COORDENADORES

Luciana Eleonora de Freitas Calado Deplagne (UFPB)
Karine Simoni (UFSC)

RESUMO

Este simpósio tem o objetivo de ser um espaço de encontro, debates, articulações e produção de conhecimento sobre as mulheres nos períodos que abrangem a chamada Idade Média e o Renascimento, considerando-as dentro da perspectiva dos Estudos Feministas e de Gênero sob a ótica multi/inter/transdisciplinar da Literatura, Estudos da Tradução, Filosofia e História. Entendemos a amplitude cronológica dos termos “Idade Média” e “Renascimento”, e os vemos, sobretudo, não presos num determinado tempo, mas pensados na dialética entre passado e presente, no qual o conhecimento deve ser construído, transformado e aperfeiçoado. No caso da história das mulheres, apesar de todos os avanços conseguidos ao longo do tempo em busca de sua visibilidade e da garantia de seus direitos, as sociedades atuais assistem a muitos questionamentos e retrocessos conduzidos por grupos conservadores e extremistas que, nas suas brutais campanhas pela manutenção do poder, têm atacado sobretudo as áreas das chamadas humanidades que se debruçam sobre os Estudos de Gênero, distorcendo os discursos e as experiências das mulheres para legitimar a permanência do pensamento misógino e neutralizar/ normalizar as várias formas de violência contra elas. Tanto a Literatura quanto os Estudos da Tradução, a Filosofia e a História constroem caminhos para a reflexão e militância, em diversos engajamentos, sejam eles na sala de aula, nas ruas, no campo, nos movimentos sociais, na arte, nas escolhas sobre o que e como traduzir e editar, etc. Portanto, é a partir de nossa prática acadêmica, de cunho feminista, que surge a proposta de refletir sobre a importância do legado das mulheres medievais e renascentistas para vários campos do conhecimento, inclusive para a História do feminismo. É importante ressaltar que, embora o androcentrismo característico da historiografia tradicional tenha buscado o apagamento da contribuição das mulheres ao longo dos séculos, seus próprios escritos atuaram como espaços de memória e de valorização dos legados das antepassadas. Dessa forma, se faz urgente o resgate das obras produzidas por mulheres, como um elemento fundamental para se pensar a emergência de uma consciência feminista, desde a Idade Média, bem com o desenvolvimento do sentido de sororidade (LERNER, 1993; PELLEGRIN, 2010; DEPLAGNE; BROCHADO, 2018). Impulsionada pelos estudos feministas e decoloniais (DEPLAGNE, 2019), a visibilidade de obras escritas por mulheres em séculos anteriores ao XIX, por meio de traduções, edições, estudos, vem interrogando historiografia tradicional, redefinindo problemáticas relacionadas às questões de gênero naquele período, à condição das mulheres, suas produções e atuações na sociedade como sujeito histórico, proporcionando, assim, o reconhecimento do legado feminino nas mais variadas áreas do conhecimento. Destacamos, por ora, o exemplo de Hildegarde de Bingen (século XII), abadessa, compositora, música, pintora, poetisa e cientista, cuja existência foi retirada dos porões da história somente no século XX (PERNOUD, 1996). Se até meados do século XX sua obra esteve silenciada e distante de um público mais amplo, com a divulgação de seus escritos, cânticos e iluminuras, e ter sido proclamada Doutora da Igreja, em 2012, é notável o interesse por suas obras e o reconhecimento de seu legado entre pesquisadoras/pesquisadores em Teologia, Literatura, Música, Medicina holística, Ecologia integrativa, Psicologia junguiana, Musicoterapia, etc. Suas receitas e tratamentos foram adotados em várias clínicas especializadas da França, Portugal, Bélgica, Alemanha, Espanha nos dias atuais. Além de sua história ter servido de inspiração para o filme Visions, dirigido por Margarethe von Trotta, em 2009, suas composições foram gravadas em CDs e facilmente podem ser encontrados nas grandes redes de distribuições em todo mundo. Em pleno século XXI, a obra hildegardiana vem, portanto, tornando-se fonte de inspiração para o pensamento ocidental e re-ocupando um espaço de relevância, assim como fora no século XII. Como Hildegarde, outras mulheres medievais e renascentistas, como Gaspara Stampa, Moderata Fonte, Christine de Pizan, Marie de Gournay vêm sendo pesquisadas, traduzidas e seus pensamentos parecem ter em comum refletir o papel ativo que desempenharam na construção do conhecimento e na busca por direitos. Suas biografias e suas obras retratam resistência, persistência e esperança, aqui entendida não como um lugar de espera, mas como um espaço de luta, como ensinou Paulo Freire (1987). Dar voz e visibilidade a elas através de uma abordagem multidisciplinar e dialógica é, portanto, fundamental, sobretudo porque, ainda segundo Paulo Freire, todo diálogo “Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade”, fundamental para as mudanças que queremos, ao mesmo tempo em que “Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica. E quando os dois polos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo” (1992, p. 115). Convidamos, assim, pesquisadoras e pesquisadores de História, Literatura, Estudos da Tradução, Filosofia, a compartilharem seus espaços de existência e resistência, para que na alegria da partilha multipliquem-se as possibilidades e as conquistas dos direitos de todos, todas, todes nós.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DEPLAGNE, Luciana; BROCHADO, Cláudia. Vozes de mulheres da Idade Média. João Pessoa: Editora da UFPB, 2018. DEPLAGNE, Luciana Eleonora de Freitas Calado. A contribuição dos escritos de mulheres medievais para um pensamento decolonial sobre Idade Média. Revista Signum, 2019, vol. 20, n. 2. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1992. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. LERNER, Gerda. La creación de la consciencia feminista: Desde la Edad Media hasta 1870. Trad. Ivana Palibrk. Iruñea-Pamplona: Katakrak Liburuak, 2019 [1993]. PELLEGRIN, Nicole (org.) Écrits féministes de Christine de Pizan à Simone de Beauvoir. Paris: Éditions Flammarion, 2010. PERNOUD, Régine. Hildegarde de Bingen. A consciência inspirada do século XII. Trad. Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

PALAVRAS-CHAVE

Mulheres; Idade Média; Renascimento; Legado; Estudos de Gênero.

PROGRAMAÇÃO

S01 23/09 14h-16h - https://youtu.be/fyJ30FW2_uo

S02 24/09 09h-11h - https://youtu.be/zUG5xSIaaMw