LITERATURA COMPARADA E OS ESTUDOS LITERÁRIOS DA TRADUÇÃO: DIÁLOGOS EM CONSTRUÇÃO

SIMPÓSIO - ST38

COORDENADORES

Francisco Pereira Smith Júnior (Universidade Federal do Pará)
Valdeci Batista de Melo Oliveira (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)
Silvia Helena Benchimol Barros (Universidade Federal do Pará)

RESUMO

A Literatura Comparada é uma episteme cujo aparato teórico-crítico possui a importante habilidade de abertura e acolhimento de outras áreas que permitem ao pesquisador, no seu trabalho de hermeneuta, ampliar as condições de leitura do texto literário. Esta “fenda” se acentua quando nos dedicamos à atividade de tradução de um texto literário, pois ainda que não seja um texto literário, sabemos que os sentidos deslizam em todas as matrizes da linguagem. Assim, traduzi-los para outra língua é uma tarefa que requer a habilidade de criador para além do sentido literal, já que nenhuma linguagem é diáfana, como aponta Bosi (1988). O trabalho do interpress nos estudos literários de tradução pode alcançar maiores resultados se o método for o do diálogo entre as epistemes. Dessa parceria podem nascer uma hermenêutica profícua em (des)obnubilar os refolhos do texto literários em suas lacunas intervalares entre o dizer e o dito. Ao perceber a importância da Literatura Comparada propõe-se neste simpósio a reflexão de pesquisas que demonstrem o encontro de duas emergentes para entender o campo literário: a literatura comparada e os estudos literários da tradução. Carvalhal (1986) apresentou a classificação de “estudos literários comparados” para muitas investigações variadas, que adotam diferentes metodologias e que, pela diversificação dos objetos de análise, concedem à literatura comparada um vasto campo de atuação, demonstrando que os estudos comparados e a tradução se enveredem por caminhos que por vezes se encontram no campo metodológico. Para Eco (2003) e Bloom (2001), é necessário que a leitura literária tenha um significado para o leitor, pois ela permite identificação. Portanto, procura-se abarcar em nossa prática de leitura literária tanto a forma quanto a temática, presentes nos textos, valorizando o prazer do texto, a fruição do texto literário, o seu poder de se relacionar com outros textos literários. Na área da tradução, sabe-se que ainda há muito para ser feito no que diz respeito à aproximação entre os estudos da tradução e a literatura comparada. Neste sentido, as reflexões desencadeadas sobre o papel da tradução, entendida como comunicação intercultural, no âmbito da Literatura e dos Estudos Culturais têm como objetivo despertar para a compreensão de cenários pós-colonialistas e pós-estruturalistas. A Tradução Cultural sob o prisma histórico-antropológico de Burke (2009) ou sob viés crítico de Bhabha (1998) aproximam a atividade tradutória dos pressupostos antropológicos e ideológicos que se revelam nos textos literários com suas imagens revestidas pela visada estética e que suscitam o prazer no leitor. Tal ótica é convidativa às análises tradutórias que têm como objeto o deslocamento migratório e o transporte [tradução] cultural destes povos e suas simbologias para as novas ambiências por meio dos processos de hibridização, de assimilação e de ressignificação. As relações de poder, resistência e opressão são igualmente contempladas sob as lentes interdisciplinares que intercomunicam de forma vigorosa a Literatura e os Estudos da Tradução. Os Polissistemas propostos na teoria de Even-Zohar (1990) corroboram o alinhamento de diferentes ambiências cultural-literárias que sob a perspectiva tradutória podem revelar tendências significativas considerando-se fatores de temporalidade e de localização. Em concomitância, os Estudos de Recepção vêm agregar reveladores movimentos de convergência e divergência entre povos e entre línguas, que por meio do texto literário nos permitem identificar fenômenos impactantes no contato intercultural, em que o leitor assume posição incólume. A reflexão que o texto literário pode oportunizar nas revisitações de fatos históricos em comparação com outras produções que abordam eventos contemporâneos consolida o exercício de reflexividade da Histoire Croisée (WERNER; ZIMMERMANN, 2003), fenômeno de densa capilaridade para os Estudos da Tradução. Não obstante as lacunas aqui pontuadas de forma exordial, se percebe um movimento de abertura para essa aproximação e para a ampliação deste espaço gnosiológico no Brasil. Costa (2015) ao perceber que, nos congressos da ABRALIC, a tradução tem ocupado um espaço cada vez maior, como a ABRALIC/Belém, PA, de 29 de junho a 3 de julho de 2015, em que a tradução esteve presente não apenas nos simpósios, mas fez parte do próprio lema do congresso: “Fluxos e correntes: trânsitos e traduções literárias”. Por fim, entende-se que este simpósio dará continuidade a um diálogo crescente entre os estudos de Literatura Comparada e da Tradução e servirá de facilitador de discussões de vários pesquisadores que vêm nessa relação teórica o caminho para a interpretação literária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLOOM, Harold. Como e porque ler. Tradução José Roberto O?Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. BOSI. Alfredo. Céu, inferno. In: BOSI. Alfredo. Céu, inferno. Ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Ática, 1988. BHABHA, H. O Po?s-colonial e o Po?s-moderno. In:_BHABHA, H. O Local da Cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998c. BURKE, Peter. A Tradução Cultural. São Paulo: UNESP, 2009 CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 1986. COSTA, Walter Carlos. Estudos da Tradução e Literatura Comparada: conflito e complementaridade.Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, n. esp. 1, p. 31-43, jan./jun. 2015. ECO, Umberto. Sobre a Literatura. Ensaios. Rio de Janeiro: Record, 2003. EVEN-ZOHAR, Itamar. Translation and transfer. In: Polysystem Studies. PoeticsToday, Duham: USA, vol.11, n.1.p. 73-78. Disponível em https://www.tau.ac.il/~itamarez/works/books/Even-Zohar_1990--Polysystem%20studies.pdf. Acesso em 19 de abril, 2021. WERNER, Michael e ZIMMERMANN, Bénédicte. Pensar a história cruzada: entre a empiria e a reflexividade. In: Textos de História, vol. 11, n° 1/ 2, 2003. p. 89-127.

PALAVRAS-CHAVE

Comparativismo; Tradução; Diálogos; Literatura; interculturalidade.

PROGRAMAÇÃO

S01 01/09 09h-12h - https://youtu.be/kqAIDELCJb4

S02 01/09 15h-18h - https://youtu.be/bGrIIE0eQvo

S03 02/09 09h-12h - https://youtu.be/kxVZ-GIXAd0

S04 02/09 15h-18h - https://youtu.be/hhfruDXSwoM