LITERATURA E ENSINO DA TEORIA À PRÁTICA: DESAFIOS DO PROFESSOR-PESQUISADOR NA EDUCAÇÃO BÁSICA

SIMPÓSIO - ST43

COORDENADORES

ADAUTO LOCATELLI TAUFER (UFRGS)
Cristiane Côrtes (CEFET-MG)
DANIELA FAVERO NETTO (UFRGS)

RESUMO

A necessidade de pensar especificidades do ensino literário nas escolas de educação básica e tecnológica do país – considerando o(a) profissional que assume cargo docente ser, necessariamente, também pesquisador(a) – origina este simpósio. Configura-se a simbiose desejada, mas rara, do(a) professor(a) de educação básica e produtor(a) de conhecimento acadêmico, obtendo-se a concretização do que fora preconizado por Freire (1996, p. 14), “Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino”. Entretanto, a conjunção dos papéis de professor(a) e pesquisador(a) enfrenta desafios, entraves. Na academia, a educação básica é vista, geralmente, como menor, o que fica provado, muitas vezes, na exclusão do(a) docente das listas de concessão de bolsas, no ingresso aos Programas de Pós-Graduação das IES ou na identificação do(a) professor(a) da educação básica como pesquisador(a), para solicitação de fomento. Nas escolas técnicas, o(a) professor(a) das disciplinas propedêuticas, como Literatura, invariavelmente, fica relegado(a) ao grupo de conhecimentos menores, por não se dedicar ao “ensinar a fazer”. Ademais, ao(à) professor(a)-pesquisador(a) é latente o anacronismo existente entre currículos de literatura, discussões e pesquisas relacionadas à teoria literária, desencadeando um abismo entre pesquisa acadêmica e prática educacional. A lei 11.892/08 se erige como possibilidade de ponte entre a academia e o “chão da escola”. Em 2008, a lei 11.892/08 instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, viabilizando o espaço pedagógico que se configura, hoje, como significativa possibilidade para atrelar resultados de pesquisas acadêmicas à prática de sala de aula. Isso porque Institutos Federais de Educação e Colégios de Aplicação têm em sua gênese a indissociabilidade entre ensino, extensão e pesquisa. Não se pode negar, porém, que o ensino técnico brasileiro surgiu de três pilares que vão de encontro às disciplinas subjetivas e reflexivas: treinamento das classes mais pobres ao mundo do trabalho; influências do modelo tecnicista americano associadas à repressão vivenciada durante o regime militar; visão capitalista que reforça a submissão da classe subalterna à classe dominante (MARTINS, 2000, p. 105). Os pilares identificados por Martins (2000) revelam que “a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra” (CANDIDO, 1995, p. 173). Essa lógica alienante segue na contramão do que Candido aponta como função da literatura em seu caráter humanizador (cf. Ibidem, p. 176). Ou seja, o espaço que deveria possibilitar enlace entre teoria, pesquisa e prática de sala de aula, por vezes, não consegue se estabelecer. Ao se considerar o estudo da literatura, atesta-se a necessidade de se educar para o pensar, mas a respeito desse ensino, Cosson (2016, p. 20) afirma que “o lugar da literatura na escola parece enfrentar um de seus momentos mais difíceis”, apontando à “falência do ensino da literatura” (COSSON, 2016, p. 23); já Antunes destaca a tendência dos professores da educação básica a reproduzirem “na sua atuação profissional aquilo que receberam na universidade” (ANTUNES, 2015, p. 16). Essa perspectiva também ecoa nas reflexões de Todorov (2010). Na formação técnica, amplia-se a reflexão sobre capitalismo, globalização e revolução tecnológica, exigindo atenção dos profissionais envolvidos com educação e evidenciando desafios da profissão, já que a “literatura pode incutir em cada um de nós um sentimento de urgência de tais problemas” (CANDIDO, 1995, p. 184). Cresce, então, o interesse pelos debates acerca do ensino de literatura, haja vista a grande procura por simpósios e mesas-redondas em congressos com esse tema. Dessa maneira, este simpósio busca promover reflexões, relatos de experiência, projetos, programas e propostas que, partindo da reflexão acadêmica, atravessem a ponte e rompam fronteiras do espaço acadêmico aportando na prática em sala de aula. Serão bem-vindos trabalhos que discutam: a) práticas de sala de aula fundamentadas em pesquisas acadêmicas e tccs, dissertações, teses sobre práticas de sala de aula; b) pesquisas sobre modificações e/ou questionamentos do currículo de literatura, para incorporar pesquisas acadêmicas; c) desenvolvimento de pesquisas com estudantes da educação básica, no modelo de iniciação científica, por exemplo; d) atividades de extensão promotoras da produção acadêmica e projetos estimuladores da formação do leitor; e) apresentação de projetos, grupos, linhas de pesquisa e programas que se dediquem ao ensino da literatura e à interlocução com outras áreas, como cinema e teatro, por exemplo, na EBTT e na educação básica em geral; f) projetos que se valham do texto literário como meio para debater gênero e etnia na escola; g) problematização das questões relacionadas à literatura, ao ensino e à formação de professores; h) reflexões/relatos sobre distanciamento entre teorias literárias e ensino de literatura; i) reflexões/relatos sobre seleção e escolha de textos literários ao trabalho educativo no espaço das EBTTs e da educação básica; e j) extensões, pesquisas, programas, reflexões, relatos que contemplem estratégias, a partir da Pandemia da COVID-19, voltadas à mediação de leitura, à formação de leitores e à viabilidade do Ensino de Literatura em modalidade remota.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, Benedito. O ensino da literatura hoje. FronteiraZ, Revista Digital do Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária, PUC-SP, n. 14, jul./2015. CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. SP: Duas Cidades, 1995. COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2016. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. SP: Paz e Terra, 1996. MARTINS, Marcos Francisco. Ensino técnico e globalização: cidadania ou submissão? Campinas, SP: Autores Associados, 2000. TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Trad. Caio Meira. 3ª. Ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.

PALAVRAS-CHAVE

Ensino de Literatura; Educação Básica; Formação do Leitor; Projetos de Pesquisa; Projetos de Extensão.

PROGRAMAÇÃO

S01 22/09 09h-11h - https://youtu.be/hNP9r917RE8

S02 23/09 09h-11h - https://youtu.be/E6oikdpCdSE

S03 24/09 09h-11h - https://youtu.be/GNjJsArAKpw