ARQUIVOS LITERÁRIOS E CORRESPONDÊNCIA: ABORDAGENS, DESAFIOS E PERSPECTIVAS

SIMPÓSIO - ST10

COORDENADORES

Cleber Araújo Cabral (Centro Universitário Internacional, UNINTER, Curitiba)
Marcos Antonio de Moraes (Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, IEB-USP, São Paulo)
Reinaldo Martiniano Marques (Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, FALE-UFMG, Belo Horizonte)

RESUMO

O Simpósio tem por objetivo principal debater o atual estado das pesquisas em arquivos literários e no campo dos estudos e edição de correspondências. A proposta se justifica em razão de três fatores: o crescimento do número de instituições destinadas à salvaguarda de documentos referentes à memória material da literatura no Brasil (cf. MARQUES, 2015, 2019); o aumento de trabalhos e publicações, em nível de graduação e de pós-graduação, dedicados a manuscritos e cartas de escritores (cf. MORAES, 2016); o crescente número de periódicos e de publicações que têm como objetos de estudo arquivos e correspondências. Tendo em vista esses fatos, entendemos que os arquivos literários e as correspondências se apresentam como lugares de pensamento e debate para se problematizar a memória cultural, a historiografia, a crítica e a teoria literárias. Uma das muitas histórias ainda por fazer, no Brasil, consiste no exame das condições de emergência de uma tradição historiográfica vinculada ao trabalho com arquivos e correspondências de escritores, bem como das implicações disso no campo dos estudos literários e, tangencialmente, para o traçado da cultura intelectual brasileira. Tal prática estaria vinculada, de certo modo, a três voltas nos parafusos dos estudos históricos e literários brasileiros: 1) o giro linguístico, ou seja, o interesse, no campo das humanidades, pelos estudos sobre a linguagem, considerada agente estruturante das percepções de mundo, gesto que colocará a questão da ficcionalidade da prática historiográfica tensionando, assim, as fronteiras disciplinares entre literatura e história; 2) o giro histórico, advindo da recepção de teorias da nova história cultural francesa e da micro-história italiana entre pesquisadores brasileiros; 3) por fim, uma virada arquivística, ou o encontro dos pesquisadores com os arquivos privados, fruto da instalação de centros de documentação em nosso país (não só arquivos, mas também arquivos-museus), processo que remonta às décadas de 1960 e 1970. De acordo com a historiadora Ângela de Castro Gomes (1998), as três viradas mencionadas são processos recentes, datados dos anos de 1970, na França, e de 1960, no Brasil, com a criação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo, em 1962. A este segue a implementação de outros centros de documentação – como o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (AMLB), da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), em 1972, dentre outros espaços de guarda e de preservação de fontes históricas para o estudo da literatura. Desses deslocamentos de paradigmas interpretativos da realidade emergem outras abordagens dos documentos e fontes, como as “novas” histórias política, social e cultural (Cf. GOMES, 1998, p. 125). No campo da história cultural, nota-se a elaboração de abordagens como a história de intelectuais, centrada nas elites culturais e em suas dinâmicas de sociabilidade. Já no campo dos estudos literários, constata-se o esgotamento de pesquisas embasadas em concepções como nacionalidade e literariedade. Como resposta a esse cenário, ocorre a “pluralização do conceito de literatura” (ROCHA, 2008, p. 151-152), responsável pela (re)valorização de documentos pessoais de escritores, pelo “retorno do escritor”, e pela retomada do interesse no cruzamento da vida com a obra de escritores. Como desdobramento da rotinização das pesquisas com materiais alocados em arquivos de escritores, observa-se o processo de consolidação da crítica epistolográfica no Brasil. Dentre as várias publicações sobre estudos de cartas (Cf. RODRIGUES, 2019, p. 112-117), destacam-se como representativas da constituição desse campo de estudos: o livro Prezado senhor, prezada senhora (GALVÃO; GOTLIB, 2000), coletânea que apresenta uma amostra significativa da pluralidade de abordagens teóricas dedicadas à escrita epistolar no Brasil; e a obra Escrita de si, Escrita da História (GOMES, 2004), que reúne estudos no campo da historiografia dedicados à correspondências de escritores e de intelectuais. A partir das questões levantadas, este Simpósio acolherá estudos que abordem os seguintes temas: exame de arquivos e cartas de escritores, intelectuais e tradutores brasileiros e estrangeiros; cartas como arquivos de criação literária; pressupostos metodológicos, críticos e interpretativos de trabalho com arquivos e correspondências; manuscritos e cartas à luz dos estudos de crítica genética; questões metodológicas e críticas no preparo de edições ou reedições de epistolários; mapeamento de processos e redes editoriais em arquivos e cartas; textos literários que utilizem arquivos e cartas como mecanismos agenciadores da ficção e da poesia; memória e testemunho no gênero epistolar; sociabilidades intelectuais e artísticas; reflexões sobre ideários estéticos; percursos das memórias literária, cultural e histórica no contexto digital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GALVÃO, Walnice Nogueira; GOTLIB, Nádia Battella (Orgs.) Prezado senhor, Prezada senhora: Estudos sobre cartas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. GOMES, Ângela de Castro. Nas malhas do feitiço: o historiador e os arquivos privados. In: Estudos Históricos – Arquivos Pessoais e Arquivos Institucionais. Rio de Janeiro, v.11, n. 21,1998. p. 121-127, 1998. Disponível em: < http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2069>. GOMES, Ângela de Castro. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 07-24. MARQUES, Reinaldo Martiniano. Arquivos literários: teorias, histórias, desafios. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. MARQUES, Reinaldo Martiniano. Acervo de Escritores Mineiros: espaço de saberes nômades. In: MEDEIROS, Elen de; RODRIGUES, Leandro Garcia (Org.). Acervo de Escritores Mineiros: memórias e histórias. Belo Horizonte: LABED/FALE/UFMG, 2019, p. 247-265. MORAES, Marcos Antonio de. Questões de método: edição de 'correspondência reunida' de escritores. In: III Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários, 2014a, Maringá. Anais do III Colóquio internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2014. Disponível em: < http://cielli2014.com.br/media/doc/e9ede673d432feb5bac06397c50c1d4c.pdf >. MORAES, Marcos Antonio de. Correspondências à deriva: por uma história das edições de carta no Brasil. In: HOLLANDA, Bernardo Buarque de; MAIA, João Marcelo Ehlert; PINHEIRO, Claudio Costa. (Org.). Ateliê do pensamento social: métodos e modos de leitura com textos literários. 1ed.Rio de Janeiro: FGV Editora, 2016, v. 1, p. 139-163. ROCHA, João Cezar de Castro. A epistolografia como desafio à história e à teoria literária. In: ____________. Exercícios críticos: leituras do contemporâneo. Chapecó: Argos, 2008. p. 145-155. RODRIGUES, Leandro Garcia. Pensando a epistolografia. In: MEDEIROS, Elen de; RODRIGUES, Leandro Garcia (Org.). Acervo dos Escritores Mineiros: memórias e histórias. Belo Horizonte: LABED/FALE/UFMG, 2019, p. 103-120.

PALAVRAS-CHAVE

Arquivos Literários; Correspondências; Historiografia Literária; Teoria da Literatura.

PROGRAMAÇÃO

S01 21/09 13h-20h - https://youtu.be/7dsX26HxXpg

S02 22/09 13h-20h - https://youtu.be/Jz4QYufKm1g

S03 23/09 13h-20h - https://youtu.be/vGMGbqmFecw