LITERATURAS, AFRICANIDADES E DESCOLONIZAÇÃO: TEORIAS (D)E PELES NEGRAS

SIMPÓSIO - ST60

COORDENADORES

Paulo Dutra (University of New Mexico)
Felipe Fanuel Xavier Rodrigues (Fundação Técnico-Educacional Souza Marques)
LUIZ HENRIQUE SILVA DE OLIVEIRA (CEFET-MG)

RESUMO

Dando continuidade ao projeto de acolher comunicações dedicadas ao estudo da vida, obra e pensamento de autores e autoras de ascendência africana, cuja imaginação literária provém de vivências da afrodescendência em localidades formalmente descolonizadas, às margens das quais a africanidade constitui leitmotif de literaturas que se situam dialeticamente dentro e fora de sistemas literários hegemônicos, apresentamos esta proposta de simpósio. O objetivo é explorar os contornos críticos e teóricos das produções literárias engendradas a partir das histórias, culturas e instituições de pessoas de ascendência africana, bem como o impacto dessas literaturas em contextos de desigualdades e demandas sociais. Ao declarar o período de 2015-2024 como a Década Internacional dos Afrodescendentes, as Nações Unidas reconheceram a urgência de se colocar na ordem do dia a promoção e proteção dos direitos humanos de um contingente de aproximadamente 200 milhões de pessoas de ascendência africana espalhadas pelo mundo. A discussão dessa pauta acarreta ressonância política e histórica no contexto brasileiro. Apesar de o Brasil gerar a segunda maior população afrodescendente atual, os jovens negros (pretos e pardos) são as principais vítimas de homicídio no país (CERQUEIRA et al., 2020). O fenômeno, já descrito como genocídio negro, expõe os efeitos funestos da persistência do racismo e impõe reflexões acerca da cultura como local de luta e sobrevivência para afrodescendentes que vivem em democracias desiguais. Na genealogia do racismo contemporâneo – onde quer que seja flagrante –, constam ontologias construídas para fundamentar sistemas de segregação racial que cercearam os direitos das pessoas negras em territórios controlados por projetos colonialistas etnocêntricos. Contudo, o imprevisível surgimento de literaturas de sujeitos que perspectivam tradições africanas, afirmam identidades negras e tematizam experiências em ambientes hostis manifesta a dinâmica cultural de afrodescendentes cuja escrita contrapõe práticas textuais e interpretativas que essencializaram seus corpos e os trataram como objetos. Trata-se de um processo de descolonização, isto é, um processo histórico em que sujeitos legatários do mal-estar colonial recriam a si mesmos como seres humanos, rompendo, portanto, com a conformidade à lógica de um mundo em que a discriminação racial perdura. Nesta edição, priorizaremos trabalhos que convoquem teorias desenvolvidas por autores e autoras da África e da Diáspora Africana e/ou com elas dialoguem. Com isso, focalizaremos princípios e conceitos teóricos nos quais se fundamenta o trabalho da crítica literária do corpus negro. Em sua prática teórica, esses/as pensadores/as têm desafiado sistematicamente noções pré-estabelecidas de literatura com novos conceitos de escrita, leitura e interpretação que imbricam as contingências da verossimilhança e das sociedades nas quais os sujeitos teóricos operam. Ao vigor de concepções inovadoras para perscrutar a fenomenologia da obra literária e à ascensão de paradigmas alternativos de produção criativa e crítica junta-se o emprego de teorias transdisciplinares aos interesses dos estudos da literatura per se. Por conseguinte, o escopo das teorias dedicadas ao “devir-negro do mundo” (MBEMBE, 2017, 18) atravessa as mais diversas áreas do conhecimento, intersectando a existência das pessoas negras com preocupações que vão desde o fenômeno literário à complexidade das questões relacionadas à raça, a gênero e à classe social. Reafirmamos, dessa maneira, a potencialidade das subjetividades negras para a articulação de modos de pensamento cujos impactos são sentidos na literatura, como exemplifica a declaração “Eu sou o meu próprio fundamento”, de Frantz Fanon (2020, 241). A essa inscrição ontológica correspondem gestos de autorrepresentação e autodeterminação verificados nos discursos literários que, na perspectiva fanoniana, falam para “assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização” (FANON, 2020, 31). Além de Fanon, os mais influentes nomes a adentrarem essa arena epistemológica são: Aimé Césaire, Léopold Senghor, Frantz Fanon, Henry Louis Gates Jr., Stuart Hall, bell hooks, James Baldwin, Toni Morrison, Édouard Glissant, Paul Gilroy, Cornel West, Chinua Achebe, Ng?g? wa Thiong'o, Francis Abiola Irele, Chimamanda Adichie, Audre Lorde, Elizabeth Alexander, Manuel Zapata Olivella, Nancy Morejón, Lélia Gonzalez, Nei Lopes, Conceição Evaristo, Cuti, Miriam Alves, Abdias do Nascimento, Muniz Sodré, Domício Proença Filho, Beatriz Nascimento, Leda Martins, Sueli Carneiro, Edmilson de Almeida Pereira, Grada Kilomba, Lívia Natália, Djamila Ribeiro, entre outros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CERQUEIRA, Daniel et al. (orgs.). Atlas da violência 2020. Rio de Janeiro: IPEA, 2020. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: UBU, 2020. MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. Marta Lança. 2a ed. Lisboa: 2017.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura Afrodescendente; Africanidades; Identidade Negra; Racismo; Descolonização.

PROGRAMAÇÃO

S1 15/09 09h-12h - https://youtu.be/Unf0xA7R9mQ

S2 16/09 09h-12h - https://youtu.be/jgh7L28nkxs

S3 17/09 09h-12h - https://youtu.be/UTg40nmxa90

S4 17/09 14h-17h - https://youtu.be/i4dONgxkM8M

S5 18/09 14h-17h - https://youtu.be/CiI7tizIATM