LEITURA DE MULHERES E ESTUDOS LITERÁRIOS

SIMPÓSIO - ST35

COORDENADORES

Cristina Henrique da Costa (UNICAMP)
Ana Cristina de Rezende Chiara (UERJ)

RESUMO

A proposta do simpósio é contribuir na definição do campo, específico dos estudos literários, da “leitura de mulheres”. Ora, na tentativa da definição, é a imprecisão do genitivo que fala mais alto: leitura feita por mulheres, leitura feita de textos de mulheres ou ainda leitura das representações de mulheres que estão sob a guarda da literatura ? O grupo informal Mulherando, reunindo-se regularmente no IEL (UNICAMP) optou por trabalhar com a ambiguidade, sem recusar os problemas teóricos da área, no sentido de construir o “nós” que se esconde e revela na “leitura”. Na vivência das mulheres, a afirmação da diversidade das experiências femininas é um dos desafios à construção de um “nós” qualquer. No âmbito da prática teórica e literária, outros problemas surgem: uma vez posta entre parênteses a relação realista de causa a efeito entre uma autora e seu discurso, o que resta de mulher no texto de mulher? De uma forma geral, certa fatalidade inerente à mobilização da própria linguagem conceitual parece conduzir o universo tradicional dos estudos literários a igualar neutralidade de gênero, critério estético e ferramenta teórica. De uma forma mais específica, a maldição do neutro também divide as feministas. Enquanto Monique Wittig, Gayle Rubin e Adrienne Rich advogam pelo desaparecimento do próprio conceito opressivo de mulher, feministas diferencialistas tais que Luce Irigaray insistem na necessidade de uma definição da sujeita feminina por si-própria. O conflito literário entre Kamuf (alcançar olhar “além do nome próprio”) e Miller (a necessidade da prática da resistência do termo “mulher escritora”) retoma as polaridades da questão teórica. Nesta perspectiva, são as próprias fragilidades das posições/oposições feministas que talvez exijam hoje de nós um esforço de reflexão sobre o significado das teorias nos estudos literários. Entretanto, se fazer o diagnóstico acerca dos limites do campo teórico parece estratégico para as mulheres, paradoxalmente não é certo que a reação contra o teórico, em nome das práticas ou dos lugares e das falas, sirva à causa dos estudos literários de mulheres. Por isso precisamos pensar melhor: é hoje interessante buscar apoio em ferramentas da hermenêutica crítica (Ricœur, Sedgwick) ou da teoria da imaginação poética (Bachelard) a fim de não reduzirmos a importância literária da tarefa, mantendo o vínculo com as múltiplas e irredutíveis facetas do “nós”. É na própria prática leitora, regulada por alguns princípios comuns, que o nós circula livremente entre os textos e os vivos, estreitando os laços subjetivos existencialmente fortes da literatura: leitora que lê leitora tem cem anos de leitura. Do texto literário se espera, em retorno, um enriquecimento do conhecimento necessariamente experiencial, acerca do ser mulher. O que vem a significar que o campo da leitura de mulheres precisa assumir o postulado do círculo hermenêutico tal como foi primeiro pensado no âmbito da hermenêutica filosófica, embora pretenda ressignificá-lo: é preciso ler como mulher para definir a literatura de mulheres, mas é preciso definir a literatura de mulheres para ler como mulher. Os trabalhos esperados podem tanto realizar concretamente leituras críticas inéditas de textos literários, lendo mulheres e/ou lendo com(o) mulheres, quanto apresentar questões teóricas pertinentes ao campo, quanto ainda discutir aplicações de teorias ao texto de literatura, numa perspectiva que reflita sobre as resistências do literário e seu interesse para a definição de uma leitura de mulheres.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BACHELARD, Gaston.: A Poética do Espaço. Trad. Antônio de Pádua Danesi. Martins Fontes. São Paulo, 2008. IRIGARAY, Luce.: Ce sexe qui n’en est pas un. Collection Critique, 1997. KAMUF, Peggy.: “Writing like a woman”. In: Sally McConnell-Ginet; Ruth Borker; Nelly Furman (eds) Women and Language in Literature and Society, New York, Praeger, 1982. KAMUF, Peggy.: “Replacing feminist Criticism”. In: HIRSCH, Marianne; KELLER, Evelyn Fox (eds): Conflicts in Feminism, New York/London, Routledge. 1990. MILLER, Nancy K.: “The Text’s Heroine: A Feminist Critic and Her Fictions”. In: HIRSCH, Marianne; KELLER, Evelyn Fox (eds): Conflicts in Feminism, New York/London, Routledge. 1990. RICH, Adrienne.: “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”. Tradução: Carlos Guilherme do Valle. Bagoas - Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 4, n. 05, 27 nov. 2012. RUBIN, Gayle.: “O tráfico de mulheres: notas sobre a ‘economia política do sexo’”. Trad. Christine Rufino Dabat Edileusa Oliveira da Rocha Sonia Corrêa. S.O.S Corpo. Recife, 1983. RICOEUR, Paul.: Do Texto à Ação: Ensaios de Hermenêutica. Trad. Alcino Cartaxo e Maria José Sarabando. RÉS- Editora. Porto, 1978. SEDGWICK, Eve Kosofsky.: “Leitura paranoica e leitura reparadora, ou, você é tão paranoico que provavelmente pensa que este ensaio é sobre você.” Trad. Ruggieri, M., Nogueira, C., Romão, L., Saldanha, F., Natali, M., & Melo, R. (2020). Remate De Males, 40(1), 389-421. Jan/jun 2020. WITTIG, Monique.: “The Straight Mind” In. The Straight Mind and Other Essays. Beacon Press. Boston, 1992.

PALAVRAS-CHAVE

leitura de mulheres; hermenêutica de mulheres; autoras; Mulherando

PROGRAMAÇÃO

S01 20/09 09h-12h - https://youtu.be/75xdi9aTqqc

S02 20/09 14h-16h - https://youtu.be/NFps1RaQAiM

S03 21/09 09h-12h - https://youtu.be/uMdsyLMoD7A

S04 21/09 14h-16h - https://youtu.be/mPXjSTVBmfM

S05 22/09 09h-12h - https://youtu.be/hJFOIMWPkmk

S06 22/09 14h-16h - https://youtu.be/w7czmshDZ0A

S07 23/09 09h-12h - https://youtu.be/efNdX5zdTNE

S08 23/09 14h-16h - https://youtu.be/-to6xQSEWpg