ARQUIVO E INACABAMENTO: ESCRITAS LACUNARES E PENSADORES/AS-CATADORES/AS

SIMPÓSIO - ST9

COORDENADORES

ALINE LEAL FERNANDES BARBOSA (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)
Natalie Lima (Universidade Federal Fluminense)
Paloma Vidal (Universidade Federal de São Paulo)

RESUMO

A concepção da escrita como uma prática rumo ao inacabado, ao informe, ao processual e ao residual, e não como um produto acabado ou uma forma estabelecida, foi partilhada por diferentes teóricos e vem sendo desdobrada pela crítica e pela produção literária mais recentes. Em Crítica e clínica, Gilles Deleuze retomou a noção de devir a fim de liberar o texto literário de uma função representativa e aproximá-lo da ideia de processo. Décadas antes, Maurice Blanchot propôs um conceito de fragmentário que investiu contra a ideia do texto como unidade fechada e permitiu que o lacunar não fosse visto como a simples interrupção de um contínuo, mas como outra possibilidade relacional entre enunciados. Desde o final da década de 1960, e sobretudo em A preparação do romance, Roland Barthes passou a encenar-se como alguém cuja escrita estava ligada a uma produção desejante que precisava ser exibida em seus impasses e fracassos. Também Walter Benjamin teve um projeto inacabado, que, entretanto, tornou-se fundamental para a compreensão de diferentes aspectos de seu pensamento: o trabalho das Passagens, compilação de milhares de fragmentos pesquisados na Biblioteca Nacional da França cujo objetivo era recriar a Paris do XIX, foi uma empreitada arqueológica e arquivística interrompida pela morte de seu autor. Benjamin foi um pensador-catador que trouxe para dentro de sua obra uma prática do arquivo que nos interessa recuperar neste simpósio, na direção de uma reflexão sobre escritas lacunares e projetos inacabados. Cadernos, cartas, listas, notas, bilhetes, fotos – o material em torno de uma obra é múltiplo em suportes, processos e escritas. Pesquisar arquivos significa relacionar a obra publicada com os registros de sua elaboração, revelar a tensão entre arte e vida, a constituição da escrita literária como articulação de fragmentos de diferentes planos da memória coletiva e individual, as condições de produção e circulação dos textos. Destaca-se não somente a história do sucesso, daquilo que tradicionalmente se reconhece como objeto literário, mas também a história do que ficou no meio do caminho, e a interdependência entre essas esferas. Se o arquivo tem lugar no desfalecimento da memória – como diz Derrida, seu "substituto deformado" –, é sempre uma perda em relação ao que arquiva, uma subtração – deliberada ou involuntária – da sua origem. Será trabalho do/a pensador/a-catador/a inserir-se nessas lacunas e cavidades, traçar relações perdidas ou imaginadas, fazer desta subtração uma sobrevivência. Tal gesto ecoa o que diz Raúl Antelo em “O Arquivo e o presente”: os arquivos seriam espaços simbólicos sujeitos a metamorfoses, que por sua vez resultariam da combinação entre acúmulo material e esquecimento. Surge assim o an-arquivista, que abre mão de buscar sincronias entre arquivo e obra e experimenta um desencontro temporal com ambos, numa anacronia que atinge seu presente, “hipertemporalizando-o”. Essa experiência temporal é verificável no contexto latino-americano quando notamos, via Josefina Ludmer, que a pós-autonomia na literatura e os “saltos modernizadores” promovidos na região fazem do arquivo um repositório de tempos não vividos, estancados em repetições e retornos cuja vida póstuma – a Nachleben de Aby Warburg – embaralha linguagens e discursos, referente e ficção. Tendo em vista que as práticas do arquivo podem ser deslocadas e torcidas para diferentes finalidades reflexivas e artísticas, referindo-se, inclusive, a produções não letradas, como apresentou Diana Taylor em Arquivo e repertório, receberemos propostas que abordem escritas num sentido amplo – poético, narrativo, teatral, plástico, vocal, em diferentes suportes – que se esquivam da ideia de totalidade, centro e reiteração, para indicar inacabamento, resíduo, devir, guiando-se pelos seguintes eixos propostos: – escritas lacunares, em que espaços não preenchidos de sentido, com a exibição do processo, dos impasses e até do fracasso da obra, permanecem como potência de leitura e de reescrita, como nas narrativas La novela luminosa, de Mario Levrero, El zorro de arriba y el zorro de abajo, de José Maria Arguedas, Machado, de Silviano Santiago, Dora Bruder, de Patrick Modiano; no ensaio com imagens Cascas, de Georges Didi-Huberman, ou no livro Ensaio geral, de Nuno Ramos; – pensadores/as-catadores/as, em que compreendemos teóricos/as e artistas que trabalham a partir de usos inventivos de arquivos feitos de materiais heterogêneos: Walter Benjamin, Carolina Maria de Jesus, Roland Barthes, Agnès Varda, Bispo do Rosário, Aby Warburg, Jorge Luis Borges, Eduardo Coutinho, entre outros; – projetos inacabados, individuais ou coletivos, artísticos e críticos, que não chegaram a se realizar enquanto produtos, mas mobilizaram possibilidades de invenção e reflexão: A preparação do romance, de Roland Barthes, o trabalho das Passagens, de Benjamin ou o Conglomerado newyorkaises, de Hélio Oiticica; – e encenações do arquivo, quando imagens, listas, diários, espaços e outros materiais aparecem em escritas contemporâneas como coleção aberta e heterogênea: Nove noites, de Bernardo Carvalho, Lorde, de João Gilberto Noll, Arquivo das crianças perdidas, de Valeria Luiselli; dos biodramas de Vivi Tellas e de outras produções documentais do teatro contemporâneo; e de trabalhos de Rosangela Rennó.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTELO, Raul. "O arquivo e o presente". Revista Gragoatá, Niterói, v. 12, n.22, 2007, p.43-61. ARGUEDAS, José María. El zorro de arriba y el zorro de abajo. Santiago: Sudamericana, 2003. BARTHES, Roland. A preparação do romance I e II. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005. BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. BENJAMIN, Walter. Passagens. Trad. Irene Aron, Cleonice P.B. Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. CARVALHO, Bernardo. Nove noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997. DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo: uma impressão freudiana. Trad. Cláudia de Moraes Rego. Rio de janeiro: Relume Dumará, 2001. DIDI-HUBERMAN, Georges. Cascas. Trad. André Telles. Serrote: Uma Revista de Ensaios, Artes Visuais, Ideias e Literatura, São Paulo, n. 13, p. 99-133, mar. 2013. LEVRERO, Mario. La novela luminosa. Buenos Aires: Mondadori, 2010. LUDMER, Josefina. Aqui América Latina: uma especulação. Trad. Rômulo Monte Alto. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. LUISELLI, Valeria. Arquivo das crianças perdidas. Trad. Renato Marques. Rio de Janeiro, Alfaguara, 2019. MODIANO, Patrick. Dora Bruder. Trad. Márcia Cavalcanti Ribas Vieira. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. NOLL, João Gilberto. Lorde. São Paulo: Francis, 2004. OITICICA, Hélio. Encontros. (Org. FILHO, César Oiticica, COHN, Sérgio e VIEIRA, Ingrid). Rio de Janeiro: Azougue, 2009. RAMOS, Nuno. Ensaio Geral: projetos, roteiros, ensaios, memórias. São Paulo: Globo, 2007. RENNÓ, Rosangela. O arquivo universal e outros arquivos. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. SANTIAGO, Silviano. Em liberdade. Rio de Janeiro: Rocco,1994. SANTIAGO, Silviano. Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Trad. Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. WARBURG, Aby. Histórias de fantasma para gente grande. (Org. WAIZBORT, Leopoldo). Trad. Lenin Bicudo Bárbara. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. WARBURG, Aby. Atlas Mnemosyne. Trad. Joaquín Chamorro Mielke. Madrid: Impresos Cofás S.A. 2010.

PALAVRAS-CHAVE

Arquivo; Inacabamento; Escritas lacunares; Pensadores/as-catadores/as.

PROGRAMAÇÃO

S01 09/09 10h-12h - https://youtu.be/oCgf92uOvL0

S02 09/09 14h-18h - https://youtu.be/wkqCagU2sv4

S03 10/09 10h-12h - https://youtu.be/CIfbx51H8B8

S04 10/09 14h-18h - https://youtu.be/yJJflleVFug

S05 11/09 10h-12h - https://youtu.be/-F54kMB_U34

S06 11/09 14h-18h - https://youtu.be/dvtMSdjgZtk