AS POLÍTICAS DO CORPO E OS SUJEITOS DA FICÇÃO: A PRÁXIS LITERÁRIA II

SIMPÓSIO - ST14

COORDENADORES

Flávio Adriano Nantes (UFMS)
Cláudia Maria Ceneviva Nigro (UNESP)

RESUMO

Comecemos com uma nota explicativa: o simpósio ora apresentado pelos pesquisadores é o mesmo proposto no ano passado (ABRALIC 2020) em razão do número de desistências, assim, os que não puderam participar – por diferentes questões – poderão se inscrever, ademais, de outros pesquisadores que queiram compartilhar seus trabalhos. Italo Calvino (2006) afirma que o texto literário materializa-se – para o bem ou para mal – sempre como um gesto político, um posicionamento a favor ou contra a ordem social vigente. Para o mal, porque há um conjunto de escritos literários que endossa a violência contra a existência de determinados corpos. Existem autores que compactuam com o sexismo, o machismo, o patriarcado, o fascismo, as ditaduras, a lgbtfobia, etc. E na contramão deste pensamento, há uma quantidade expressiva de textos que colocam em evidência e reivindicam a existência de corpos historicamente lançados à escuridão social. A literatura, então, como um gesto político, encontra meios, no interior das ciências humanas, para denunciar práticas sociais que inibem, silenciam e invisibilizam determinados corpos. Entre eles, o corpo negro, o corpo indígena, o corpo pobre, o corpo feminino, o corpo com deficiência, o corpo gordo, o corpo envelhecido, o corpo com dificuldade de aprendizagem, o corpo contaminado pelo HIV, o corpo LGBTQIA+. E por quais razões a literatura, bem como outros constructos artísticos, trata desses corpos? O artifício literário trata desses corpos, cf. antedito, como um gesto político, com o intuito de dar-lhes voz, desterritorializá-los da margem e reterritorializá-los em um lugar que lhe é de direito no interior da sociedade. Trata desses corpos porque a eles a vida deve ser vivível, respirável, pois são corpos que importam (Butler, 2019). Trata desses corpos porque são pauta urgente na agenda estatal e devem, também, ser protegidos pelo Estado-nação. Achille Mbembe, intelectual camaronês, em seu Necropolítica (2018), afirma de forma categórica que é de competência do Estado-nação a decisão dos corpos que merecem viver e dos que devem ser eliminados letalmente. Quais são os critérios utilizados pela nação? Quais corpos devem ser eliminados e quais são eleitos para viver? Talvez encontremos possíveis respostas quando nos inteiramos que o Brasil ocupa o 1? lugar no ranking mundial em assassinatos a corpos transexuais; matamos mais que em países onde a homossexualidade é crime de morte. Ou ainda, quando pensamos no constante genocídio praticado contra as populações negra e indígena. No contexto das Américas, o Brasil, segundo dados estatísticos da Anistia Internacional, é o país que mais mata ativistas e/ou militantes seja na defesa dos direitos humanos ou na proteção do meio ambiente. Ademais, o Brasil, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, ocupa o 5? lugar entre os demais países do globo em violência – leia-se assassinatos no contexto doméstico e familiar – contra a mulher, ficando atrás apenas para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. De acordo com o Geledés – Instituto da Mulher Negra, as mulheres negras e pardas durante o parto recebem menos anestesia que as mulheres brancas. O que esses dados indicam? Que há vidas específicas que estão sob uma violência estatal estrutural e não "merecem" a proteção do Estado-nação. Pensar nas políticas sexuais e nos direitos reprodutivos, por exemplo, seria outra forma de indicar a intervenção do Estado sobre o corpo dos cidadãos. A criminalidade em relação ao aborto extirpa da mulher o direito de decisão sobre o seu próprio corpo. A decisão de uma gravidez indesejada não é de competência da mulher, mas da Nação, assim, o que há de mais privado – o corpo – não é verdadeiramente privado. Pessoas do mesmo sexo passaram a oficializar a relação civil somente a partir de 2011, com a declaração da legalidade de união civil estável feita pelo Supremo Tribunal Federal, e somente em 2013, o Conselho Nacional de Justiça publicou uma resolução permitindo o casamento homoafetivo, bem como proibindo os cartórios de se recusarem a efetivá-lo. Neste sentido, fica evidente que o Estado-nação se incumbe da efetivação formal da união civil entre os cidadãos. A partir destas proposições elencadas, convocamos pesquisadores cujo objeto de investigação seja a relação entre a literatura e a corporeidade, i. e., pensar o texto literário por intermédio dos Gender Studies, das políticas sexuais, dos feminismos plurais, das masculinidades e feminilidades, entre outras proposições. Serão privilegiados textos que confiram voz, tirem da invisibilidade, demonstrem conhecimentos e o modus vivendi de corpos que historicamente estiveram/estão à margem dos processos democráticos, dos direitos conferidos a toda pessoa humana, da acessibilidade a recursos básicos para uma vida vivível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALVINO, Italo. "Usos políticos certos e errados da literatura". In: CALVINO, Italo. Assunto encerrado: discursos sobre literatura e sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: N-1 Edições, 2019. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura e corporeidade; Literatura e Gender Studies; Políticas do corpo.

PROGRAMAÇÃO

S1 13/09 14h-17h - https://youtu.be/N293ltTQp3Q

S2 14/09 14h-17h - https://youtu.be/IRMFcH57S3k

S3 15/09 14h-17h - https://youtu.be/BjBSJstBEbA