PERCURSOS TRANSFRONTEIRIÇOS, TEXTUALIDADES RIZOMÁTICAS: CARTOGRAFIAS DE EPISTEMOLOGIAS, COMPARATISMOS E HUMANIDADES DAS/NAS AMÉRICAS, AMAZÔNIAS E ÁFRICAS

SIMPÓSIO - ST71

COORDENADORES

Amilton José Freire de Queiroz (Universidade Federal do Acre, Colégio de Aplicação)
EZILDA MACIEL DA SILVA (Universidade Federal do Pará)
Simone de Souza Lima (Universidade Federal do Acre)

RESUMO

O simpósio propõe-se a estabelecer diálogos sobre as epistemologias, os comparatismos e as humanidades das/nas Américas, Amazônias e Áfricas, mapeando, ademais, as textualidades rizomáticas da literatura, vida e sociedade. Os aportes teóricos, metodológicos e críticos são oriundos da Teoria Literária, Literatura Comparada, Estudos Culturais e Pós-coloniais, Decoloniais e Geografia Cultural, principalmente os de Jonathan Culler (2016), Eneida Maria de Souza (2012), Ivete Walty (2012), Homi Bhabha (1998), Edward Said (2005), Stuart Hall (2013), Benjamim Abdala Junior (2012), Tania Carvalhal (2003), Zilá Bernd (2013), Eurídice Figueiredo (2013), Angel Rama (2001), Cornejo Polar (2000), Hugo Achugar (2006), Aníbal Quijano (2000) e Roberto Lobato Corrêa (2011). O simpósio acolherá trabalhos que enfoquem as interlocuções da literatura com outros saberes, tais como História, Antropologia, Sociologia, Geografia Cultural, Filosofia, Artes Plásticas, Jornalismo, Cinema, Educação, Ensino, Relações Internacionais, Direito e Tecnologias. Estudar, pesquisar e discutir as humanidades é aprofundar, expandir a visão do “fim do império cognitivo”, dimensionar as “epistemologias do Sul” (SANTOS, 2019) e desenvolver hipóteses sobre “Comparar? Aproximar? Dialogar? Friccionar” (CASA NOVA, 2008). O simpósio coloca-se, assim, como parte de um processo, sempre aberto, como é da natureza dos percursos transfronteiriços e, sobretudo, das textualidades rizomáticas das Américas, Amazônias e Áfricas. Não à toa, procura elaborar reflexões sobre “raízes e labirinto” (SANTIAGO, 2006), “vestígios memoriais” (BERND, 2014), “Paralelas e tangentes” (SANTILLI, 2003), uma “geocrítica do eurocentrismo” (MATA, 2012), “Amazônia babel” (LIMA, 2014), as formulações pós-coloniais (LEITE, 2013) e “os paradigmas críticos e representações em contraponto” (BRUGIONI, 2019). A diligência crítica proposta aqui quer pensar as obras literárias, em diálogo com outras esferas do conhecimento. Parte, para tanto, das seguintes questões: como os narradores africanos, latino-americanos e brasileiros configuram o diálogo entre culturas, literaturas, linguagens e humanidades nos séculos XX e XXI? Que papel exercem as estéticas do deslocamento nas trocas e transferências culturais, linguísticas, éticas? Como os conhecimentos da teoria, crítica e comparatismo podem ser articulados às correntes teóricas como os estudos culturais, pós-coloniais, decoloniais e geoculturais? Como interpretar textualidades que têm representado alteridades desviantes e suscitado novas formas de compreensão da literatura, sociedade e cultura? Como abordar romances, contos, crônicas, produções cinematográficas, artes plásticas que, em certa medida, vão na contramão da busca da identidade nacional, bem como interpretar textualidades rizomáticas marcadas por nomadismo, errância, diáspora? Ou, ainda, quem são os novos ficcionistas africanos, latino-americanos e brasileiros que estariam promovendo novas leituras dos contatos coloniais e pós-coloniais? Que espaços as textualidades rizomáticas têm ocupado na cena crítico-teórico-comparatista? Que visões do espaço urbano e rural têm sido apresentadas nestas produções artísticas? Como tais ficcionistas, intelectuais e tradutores têm vivido e representado a tensão entre o local e o global e que ocupam a era da globalização? Que posicionamentos a crítica pode adotar diante destes textos que elegem a montagem, o recorte, as imagens e as citação como formas discursivas tão díspares? Silviano Santiago (2002) desenvolve também a linha de raciocínio sobre a relação entre viagem, sociedade e literatura. Para o crítico, “os europeus viajam por que são insensíveis aos seus, porque não tem o alto senso de justiça” (p. 225). A interface entre cultura, sociedade e imaginário está ali, porém não é vista, reconhecida e vivida, sendo negada para dar lugar a construção do espelho da Europa no Novo Mundo, a propagar a fé do Império como instrumento de negação dos valores do outro, indígena, negro, feminino, sequestrar o código linguístico deste último e instituir uma prática etnocêntrica para falar pelo outro e em nome dele. Erik Karl (2016) aponta que “o brasileiro facilmente se sente estrangeiro diante de seus compatriotas, apesar dos laços de língua e reconhecimento mútuo que os unem. Ainda existem barreiras culturais, dificilmente superáveis que desafiam as noções ideológicas de identidade e semelhança” (SCHOLLHAMMER, p.155). A afirmação poderia ser ampliada à relação, humanidades, linguagens e identidades, que também tem como variante o instável do encontro, abarcando a direção e dimensão múltipla de que tudo na subjetividade olhada transforma a relação entre quem olha e aquilo que é olhado. Nesse sentido, pretende-se, neste simpósio, dialogar com a “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado” (DALCASTAGNÈ, 2012), estudar “A literatura afro-brasileira: abordagens em sala de aula” (DUARTE, 2019), investigar as “Poéticas indígenas: lugar, identidade e memória”, ampliar a leitura da “Literatura como arquivo da ditadura brasileira” (FIGUEIREDO, 2017) e ampliar as lições de “Literatura Comparada e Literatura Brasileira: circulações e representações” (JOBIM, 2020). Eis alguns dos horizontes de interesse que orientam, portanto, a concepção, proposição e concreção deste simpósio, para o qual convidamos pesquisadores e estudantes de pós-graduação a refletir sobre os percursos transfronteiriços e as textualidades rizomáticas das/nas Américas, Amazônias e Áfricas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABDAJA JUNIOR, Benjamim. Literatura comparada e relações comunitárias, hoje. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012. ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca: escritos efêmeros sobre Arte, Literatura e Cultura. Trad. Lysley Nascimento. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2006. BERND, Zilá. Afrontando fronteiras da literatura comparada: da transnacionalidade à transculturalidade. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 1, 211-222, 2013. BERND, Zilá. Por uma estética dos vestígios memoriais: releitura da literatura das Américas a partir dos rastros. Belo Horizonte, Fino traço, 2013. BHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. BRUGIONI, Elena. Literaturas africanas comparadas: paradigmas críticos e representações em contraponto. Campinas, Editora da Unicamp, 2019. CARVALHAL, Tania. O próprio e o alheio: ensaios de literatura comparada. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 2003. CASA NOVA, Vera. Fricções: traço, olho e letra. Belo Horizonte, Editora UFM, 2008. CORNEJO POLAR, Antonio. O condor voa. Literatura e cultura latino-americanas. Trad. Ilka Valle de Carvalho. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000. CORRÊA, Roberto Lobato; ROZENDAHL, Zeny. Introdução à geografia cultural. Rio de Janeiro, Beltrand Brasil, 2011. COUTINHO, Eduardo. Mutações do comparativismo no universo latino-americano: questões da historiografia literária. In. SCHMIDT, Rita Terezinha et al. (Org). Sob o signo do presente: intervenções comparatistas. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, p. 31-42. COUTINHO, Eduardo. Transferências e trocas culturais na América Latina. In: José Luís Jobim et .. (Org.). Lugares dos discursos: o local, o regional, o nacional, o internacional, o planetário. 01ed. Niterói: Editora EdUFF, 2006, v. 00, p. 218-232. CULLER, Jonathan. Teoria literária hoje. In: CECHINEL, Andre et al (Org). O lugar da teoria literária. Florianópolis: EdUFSC; Criciúma: Ediunesc, 2016. p. 395-417. DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. 1. ed. Rio de Janeiro, Vinhedo: Editora da UERJ, Horizonte, 2012. DUARTE, Eduardo Assis. Literatura afro-brasileira: abordagens na sala de aula. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2019. GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. Poéticas indígenas: lugar, identidade e memória. In: III ENILLI, 2017, Garanhuns. Nas fronteiras da linguagem: língua, literatura e cultura. Salvador: EDUFBA, 2015. HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Trad. Adeline La Guardia Resende. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. FIGUEIREDO, Eurídice. Literatura Comparada: o regional, o nacional e o transnacional. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 23, p. 31-48, 2013. FIGUEIREDO, Eurídice. A literatura como arquivo da ditadura brasileira. 1ª. ed. RIO DE JANEIRO: 7Letras, 2017. JOBIM, José Luís. Literatura comparada e literatura brasileira: circulações e representações. 1. ed. Boa Vista, RR: Rio de Janeiro, Editora da Universidade Federal de Roraima: Makunaima Edições, 2020. LIMA, Simone de Souza. Amazônia babel: línguas, ficção, margens e resíduos utópicos. Rio de Janeiro, Letra Capital, 2014. QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, cultura y conocimiento en América Latina. In: Dispositio/n. Ann Arbor, Michigan, v. 24, n. 51, p. 137-148, 2000. PADILHA, Laura Cavalcante. A África e suas fonias – impasses e resgate. In: PONTES, Geraldo e ALMEIDA, Claudia (Orgs). Relações literárias internacionais: lusofonia e francofonia. Niterói/ Rio de Janeiro: EdUFF/de Letras, 2007. P. 103-116. RAMA, Angel. Regiões, culturas e literaturas. In. AGUIAR, Flávio; VASCONCELOS, Sandra Guardini T. Tradução de Raquel Corte dos Santos, Elsa Gasparotto. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2001. SAID, Edward. Representações do intelectual: as conferências Reith de 1993. Trad. Milton Hatoum. São Paulo, Companhia das Letras, 2005. SANTIAGO, Silviano. As raízes e o labirinto da América Latina. Rio de Janeiro, Rocco, 2006. SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra. Rio de janeiro: Rocco, 2002. SANTILI, Maria Aparecida. Paralelas e tangentes: entre literaturas de língua portuguesa. São Paulo, Arte & Ciência, 2003. SOUZA, Eneida Maria. Tempo de pós-crítica: ensaios. 2 ed. Belo Horizonte: Veredas e Cenários, 2012. WALTY, Ivete . Literatura comparada: transculturação e espaço público. Organon (UFRGS), v. 27, p. 83-103, 2012.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura; Epistemologia; Comparatismo; Humanidades; Mobilidades.

PROGRAMAÇÃO

S1 08/09 14h-17h - https://youtu.be/mEImiVCeOOs

S2 15/09 13h-15h - https://youtu.be/QKfrmvB8-uU