(PER)FORMAR LITERÁRIO: FRUIÇÃO, FICÇÃO, AÇÃO

SIMPÓSIO - ST2

COORDENADORES

Fernanda Boarin Boechat (Universidade Federal do Pará)
Daniel Martineschen (Universidade Federal de Santa Catarina)
Otávio Guimarães Tavares (Universidade Federal do Pará)

RESUMO

A relação literatura e vida, ou ainda, a tensão entre ficção e realidade, ocupa lugar central em diferentes debates no âmbito da Teoria da Literatura. Tal dicotomia, contudo, também pode ser tomada a partir de uma perspectiva conciliatória, de modo que se destaca certa complexidade presente no tecer e no tecido da obra literária. Assim, compreendemos como ponto de partida interseções entre literatura e vida, também entre ficção e realidade, em diálogo com a abordagem do romanista alemão Ottmar Ette, que reconhece na literatura um caráter transareal. Ette, nesse sentido, destaca que na literatura “[...] origina-se um campo de tensa?o na?o entre ficc?a?o e realidade, mas muito mais entre texto e vida. Ja? que a literatura [...] na?o e? uma realidade representada, mas a representac?a?o litera?ria de realidades vividas e vivenciadas que na?o podem ser reduzidas, como sempre, a uma realidade construi?da. Ou de outro modo: literatura e?, porque ela e? mais do que ela é” (ETTE, 2011, p. 50-51). Investigações voltadas à dimensão comunicativa da literatura, bem representadas no âmbito da Teoria da Literatura pelo trabalho de Wolfgang Iser em O fictício e o imaginário (1996), podem ampliar e aprofundar o debate que envolve a relação literatura e vida, a exemplo do que chama de relação tríplice em literatura – entre real, fictício e imaginário – presente como um mecanismo ou funcionamento. Para além das pesquisas na área de Estudos Literários, podemos observar o contato entre literatura e realidade compreendido a partir da noção de John Austin (1962) de atos de fala, em que as palavras e dizeres afetam e constroem a realidade. Em diálogo com Austin e uma tradição retórica antiga, Barbara Cassin (2019) irá apontar que Górgias, ao escrever o Elogio de Helena, instaura um mundo em que a inocência de Helena é possível. Judith Butler (1997) nota que o discurso de ódio deve ser compreendido não apenas como um ato discursivo semântico, mas como uma agressão ao outro, um ato de violência. Os contornos que podemos traçar destes movimentos apontam para uma ambígua relação em que as fronteiras entre literatura, vida, realidade, ficção não podem ser absolutamente fixadas. Celso Braida irá apontar que a arte não é a concretização de um possível, mas sim que ela instaura o possível: “Uma vez admitido o primado do efetivo sobre o possível, admissão essa de difícil aceitação por implicar a destranscendentalização do artístico, a operação da arte então teria de ser pensada como um ato de ficção que faz ser o que não é, pois seria a ação de tornar possível, em vez de ser uma realização do possível. De ponta a ponta, o artístico se daria por atos de ficção que tornam possível e assim acrescentam outras possibilidades que as existentes” (2018, p. 27). Identificamos que o debate em torno do caráter do texto literário, não raro sobre sua função (social) ou utilidade, e que também envolve a relação realidade e ficção, está presente em diversas políticas e em momentos históricos distintos, seja mesmo em consideração à presença da Literatura como disciplina obrigatória na Educação Básica e orientações nacionais para processos de seu ensino e aprendizagem, seja sua presença robusta em políticas internacionais, como foi na Política de Boa Vizinhança (Good Neighbor Policy) promovida pelos Estados Unidos com a América Latina entre os anos 1933-1945. Quando consideramos as políticas em que o texto literário se insere, no contexto de concepção e recepção, é importante considerar uma rede de associações, aqui em diálogo com Bruno Latour (2012), em que os atores não são somente governantes, escritores, tradutores, intelectuais, mas tambe?m as pro?prias obras. Objetos/atores são considerados como mediadores, ou seja, insta?ncias que na?o somente transportam significados em um social construi?do de associac?o?es, mas como insta?ncias que podem transformar, traduzir, modificar e até distorcer significados em uma “rede em trabalho” ou, como Latour (2012, p. 65) menciona, uma worknet. Dessa forma, a obra com seu caráter polilógico (ETTE, 2011, p. 50-51) é capaz de movimentar discursos não somente por meio da recepção do leitor, mas é vista como ator de uma rede que atua no espaço das relações humanas, quiçá (re)configurando espaços e mesmo “redes em trabalho”. Nesse sentido, vale destacar também políticas de tradução, senão o próprio ato tradutório, como campo de investigação que se volta à relação realidade e ficção em literatura. Em vista dos apontamentos aqui brevemente reunidos, propõe-se no presente simpósio trazer à tona as possibilidades discursivas a partir da investigação do texto literário, com destaque para discussões em torno da natureza e caráter do texto, portanto, que observem a linguagem em literatura e seus desdobramentos nos contextos de produção e recepção.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUSTIN, John L. How to do things with words. Cambridge: Harvard University, 1962. BRAIDA, Celso. Arte, ação e ficção do possível. In: VACCARI, Ulisses (Org.). Arte e estética. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2018. BUTLER, Judith. Excitable speech: a politics of the performative. New York: Routledge, 1997. CASSIN, Barbara. Sophistics, Rhetorics, and Performance; or, how to really do things with words. Tradução de Andrew Goffey. Philosophy & Rhetoric, vol. 42, n. 4. , p. 349-372. 2009. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/25655365. Acesso em: 2 jan. 2019>. ETTE, Ottmar. Insulare ZwischenWelten der Literatur: Inseln, Archipele und Atolle aus transarealer Perspektive. In: WILKENS, Anna E.; PAMPONI, Patrick; WENDT, Helge (Org.). Inseln und Archipele: kulturelle Figuren des Insularen zwischen Isolation und Entgrenzung. Bielefeld: Transcript, 2011. ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário. Tradução de Johannes Kretschmer. Rio de Janeiro: Eduerj, 1996. LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introduc?a?o à teoria do Ator-Rede. Traduc?a?o de Gilson Ce?sar Cardoso de Sousa. Salvador: EDUFBA, Bauru: EDUSC, 2012.

PALAVRAS-CHAVE

Discurso literário; Linguagem; Performance

PROGRAMAÇÃO

S01 27/09 14h-17h - https://youtu.be/1wqY7SxcyOI

S02 28/09 14h-17h - https://youtu.be/_9sAwn5-k4g

S03 29/09 14h-17h - https://youtu.be/AJnbqKd0Yx0

S04 30/09 14h-17h - https://youtu.be/dcMLqdHHiNs