ECOCRÍTICA COMPARADA, DECOLONIALIDADE E LITERATURA: OLHARES SOBRE A NATUREZA NO ANTROPOCENO

SIMPÓSIO - ST18

COORDENADORES

Klaus Friedrich Wilhelm Eggensperger (Universidade Federal do Paraná, UFPR)
Márcio Matiassi Cantarin (Universidade Tecnológica Feral do Paraná, UTFPR)
Rita do Perpétuo Socorro Barbosa de Oliveira (Universidade Federal do Amazonas, UFAM)

RESUMO

O presente simpósio pretende constituir-se como um amplo fórum de discussões sobre textos literários – aos quais podem juntar-se obras de outros campos semióticos, tais como o cinema, artes plásticas, performances, produções em vídeo ou graphic novel, entre outras, ficcionais ou não –, que apresentem, em primeiro plano, questões ecológicas e tematizem a profunda crise nas relações humano-natureza. Na tradição literária ocidental, o mundo não-humano serve, na maioria das vezes, apenas como pano de fundo em tramas cujo foco principal está nos conflitos psicológicos e/ou sociais, na diversidade das relações de poder, de gênero e de etnia humanos. Contudo, existe também uma herança literária que foi capaz de dar voz a animais e vegetais, de pôr em cena ambientes naturais moldados culturalmente, de modo a problematizar a dicotomia natureza-cultura, questionando, inclusive, essa própria partição entre os registros do que sejam o natural e o cultural. No mundo anglo-americano existe uma forte tradição voltada para a chamada nature writing, preocupada em imaginar e reconstituir, no âmbito do texto literário, experiências autênticas com um determinado ambiente natural. O encontro literário com o outro que não somos (e ao mesmo tempo somos, como seres vivos) implica no domínio e manejo de um repertório de técnicas retóricas e narrativas que proporcione o envolvimento dos leitores de forma sensual, emocional e intelectual com os entes não-humanos representados. Análises críticas deste tipo de literatura podem proceder, por exemplo, de leituras baseadas em tropos tais quais os propostos por GARRARD (2006), como a Pastoral, o Mundo Natural (wilderness) ou o Apocalipse. Podem, ainda, abordar discussões relativas à representação de animais em literatura e outras artes ou aspectos concernentes ao especismo; enfim, todos os tipos de problematizações fundamentais sobre a relação humanidades - natureza - meio ambiente. Quando pesquisadores norte-americanos proeminentes, como Lawrence Buell e Ursula Heise, destacam a interdisciplinaridade, a pluralidade e o ecleticismo dos estudos literários ecocríticos, caracterizados por um “spirit of environmental concern not limited to any one method or commitment” (BUELL/HEISE/THORNBER, 2011, p. 418), documentam de certa forma a politização do seu campo de estudos. Textos literários repercutem aquilo que se entende, ou já se entendeu, por “natureza” em contextos histórico-culturais diferentes. Ao imaginar, encenar e refletir tais discursos, a literatura ganha em relevância social, considerando que seus modos estéticos de criação e técnicas de representação artísticas podem abrir perspectivas novas para a compreensão dos problemas ecológicos sistêmicos oriundos da assimetria nas relações entre humanos e mundo natural (CLARK, 2019). No antropoceno contemporâneo, a ideia do antagonismo cultura versus natureza, tão enraizado no pensamento ocidental desde a filosofia clássica grega, está se desfazendo. Atualmente, as relações das artes com o meio ambiente físico têm alcançadas grande importância para o pensamento estético. A natureza no antropoceno “não pode mais ser vista sem que, radicalmente, esteja em colapso e/ou em reconstituição” (BOGALHEIRO, 2018, p. 53). Assim, ela deixa de representar o outro mundo, a alteridade não-humana, para tornar-se o espaço vivo e dinâmico que compartilhamos com todas as outras espécies, muitas delas extremamente ameaçadas pelas ações antropogênicas. Na América Latina e no Brasil, parte das tarefas de uma ecocrítica comparada reside em mapear as linhas concretas de desenvolvimento que as relações entre humanos e meio ambiente têm percorrido nos últimos quinhentos anos, enquanto a natureza tem sido objeto de imaginação e exploração (neo-)coloniais. O extrativismo não somente modificou radicalmente os ecossistemas do continente, mas deixou seus rastros no imaginário coletivo: há muito tempo, “as sociedades latino-americanas, sobretudo as elites, carregam nos genes uma espécie de DNA extrativista” (ACOSTA; BRAND, 2018, p. 28). No escopo das humanidades ambientais, um projeto ecocrítico decolonial deve contribuir com críticas ao modelo predatório de desenvolvimento em vigor, além de discutir propostas que ressignifiquem e valorizem os modos de ser e pensar nas culturas originárias dos povos colonizados. Atualmente continua prevalecendo o modelo extrativista altamente destrutivo, enquanto uma literatura brasileira que incentiva sensibilidades ecológicas ainda se faz pouco presente. Um pensamento ecocrítico brasileiro que leva o conceito de crítica a sério, necessariamente deve estar ligado a questões de justiça e de transformação sociais. Assim, também procuramos estabelecer, no simpósio, um diálogo entre a ecocrítica literária ocidental e o pensamento decolonial oriundo do continente americano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACOSTA, Alberto; BRAND, Ulrich. Pós-estrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista. São Paulo: Elefante, 2018. BOGALHEIRO, Manoel. O fim da natureza: paradoxos e incertezas na era do antropoceno e do geo-construtivismo. In: RCL – Revista de Comunicação e Linguagens no. 48, 2018, pp. 48-66. BUELL, Lawrence; HEISE, Ursula K; THORNBER, Karen. Literature and Environment. In: Annual Review of Environment and Resources 36, 2011, pp. 417-440. CLARK, Timothy. The Value of Ecocriticism. Cambridge; New York: Cambridge University Press, 2019. GARRARD, Greg. Ecocrítica. Brasília: Ed. UnB, 2006.

PALAVRAS-CHAVE

Ecocrítica; Ciências humanas ambientais; Decolonialidade; Antropoceno.

PROGRAMAÇÃO

S01 09/09 09h-11h - https://youtu.be/AbPF8q33dTg

S02 10/09 09h-11h - https://youtu.be/AmAQH76-Ve0

S03 10/09 15h-17h - https://youtu.be/sm7h2yYevVk

S04 13/09 09h-11h - https://youtu.be/DmjtXkpWH9s

S05 13/09 15h-17h - https://youtu.be/ensOjpbyfMo