GEOPOESIA NOS TEMPOS DE PANDEMIA: ENTRE LITERATURAS, CRÍTICA POLIFÔNICA E ETNOFLÂNERIE

SIMPÓSIO - ST31

COORDENADORES

ANA CLARA MAGALHAES DE MEDEIROS (Universidade Federal de Alagoas)
Augusto Rodrigues da Silva Junior (Universidade de Brasília)
Willi Bolle (Universidade de São Paulo)

RESUMO

Walter Benjamin, circunscrito a um período de “mal-estar na cultura e na civilização” (FREUD, 2011), propôs “imagens do pensamento” (BENJAMIN, 1986, p. 143) que congregam novas formas de apreensão da modernidade na literatura, nas artes e no discurso ocidental. Atuando no âmbito da geopoesia, propomos uma renovação da crítica diante de mudanças tão drásticas na humanidade perpetradas pela pandemia. No Brasil, a movimentação político-social também nos desafia: entre a literatura e o literário, a crítica e o inacabamento, a etnografia e a etnoflânerie, buscamos formas atualizadas de pensar o nosso milênio. Ensejamos tecer uma crítica plurivocal e inacabada (BAKHTIN, 2006), que move e demove um painel de brasis liminares, evocando sempre a palavra do outro. Assim, agregamos trabalhos que comunguem poemas e canções, prosas e dramas, relatos e arquivos que de tão longe vêm vindo – e que para um futuro incerto se direcionam. A teoria da geopoesia alvorece como uma grande cartografia de poéticas e estéticas: “nasce do encontro de topografias” (SILVA JUNIOR, 2018, p. 55). Territorialidades, vocalidades, corporalidades e performances advindas do Sertão, da Amazônia, do Cerrado, da Caatinga e dos Pampas compõem polifonia que convoca o olhar responsável dos estudiosos deste Simpósio – que observam e se movimentam num país de dimensões continentais. Busca-se constituir e ampliar as literaturas de campo, distantes do mar, reveladoras de brasis: sertanejo, caipira, indígena, quilombola, centroestino, “do mato”, “do norte”, “da floresta”, enfim, da palavra viva. Surge, com esta proposta, a possibilidade de reescrever histórias. Contadas oralmente, experimentadas performaticamente, continuadas por leitores e autores de rincões e veredas, buscamos, neste encontro, sério e festivo, enformar uma imensa etnocartografia de territórios literários e territorialidades de etnoflâneurs e andarilhos, de navegantes e ambulantes, flâneurs sertanejos e flâneuses revolucionárias, foliões e mascarados. O literário, com suas vozes, autores, leitores, críticos e pensadores, recusa a palavra autoritária e o discurso monológico – ensinam-nos Mikhail Bakhtin (2010) e Paulo Bezerra (2005). A geopoesia passa por grandes sertões, imensos vãos, longínquas varedas. Enfim, movimenta pesquisas e inquietações que abordam manifestações da literatura oral e escrita no campo da poesia, da prosa, do teatro, da performance, do cinema literário, da literatura de viagens, da cyberflânerie e de vocalidades várias. Nossos passos também estabelecem correspondências com viajantes lusitanos e de outras paragens: ibéricos, holandeses, alemães, jesuítas, judeus, aventureiros que respondem à travessia colonial dos tempos de formação do que a Europa chamou de América. Tratamos, ainda, dos deslocamentos e migrações que levaram à ascensão de uma brasilidade desde Machado de Assis a Lima Barreto, passando por Euclides da Cunha e Mário de Andrade. A crítica polifônica (MEDEIROS; SILVA JR., 2015) arranja-se com fazedores do cotidiano, como os goianos/brasiliários Cora Coralina, José Godoy Garcia, Anderson Braga Horta, Cassiano Nunes, Santiago Naud, Hermenegildo Bastos e Augusto Niemar; prosadores das gentes e das tropas demigrantes – sempre ameaçadas –, a exemplo de Hugo de Carvalho Ramos, Graciliano Ramos, Bernardo Élis, Dalcídio Jurandir, Milton Hatoum, Cristino Wapichana, Eliane Potiguara, Dorrico Julie, dentre outros. Além de cantores e versistas populares, narradores orais quilombolas e indígenas, centroestinos e norte-nordestinos apagados pela historiografia, com obras perpetuadas nas entoações de festejos, celebrações populares e cordéis. No universo plural de raízes, rizomas e raizamas de um país de culturas várias espraiadas por veredas, vales, vãos, recôncavos, planaltos, altiplanos, rios, quilombos, aldeias (espaços de resistência), os estudos de cultura popular aqui desenvolvidos estabelecem diálogos com investigadores brasileiros, tais como Josué de Castro, Carlos Rodrigues Brandão, Hermilo Borba Filho e Vicente Cecim, e viajantes que percorreram/percorrem muitos brasis: Guimarães Rosa, Willi Bolle e Darcy Ribeiro, dentre tantos que nos levam por veredas de uma teoria carnavalizada da literatura (pensando-se a carnavalização com Bakhtin, 2008). As funções da geopoesia, enfim, são: enfrentar o preconceito literário, renovar as perspectivas do cânone e da história da literatura e apresentar autores esquecidos, desconhecidos e/ou pouco estudados. Ao mesmo tempo, seu papel fundamental é agregar não apenas as relações entre autor, obra e público, mas também o contato entre corpo, voz e performance (conforme Zumthor, 2010). Para tal, o território, o espaço e a cidade (GOMES, 2008) apresentam-se como paradigmas de vidas em obras, de obras em vida (e na morte). O direito ao literário (CANDIDO, 2011) foi uma premissa da modernidade benjaminiana (BENJAMIN, 1994) e continua sendo para os estudos da geopoesia. Assim como a visão autoconsciente da literatura permitiu a constituição da crítica polifônica enquanto campo de estudo, a consolidação da geopoesia como ferramenta acadêmica faculta a emergência do povo, dos silenciados, dos rincões do país no seio universitário. Enfim, neste Simpósio, abrimos uma “moldura teórica que questiona a tradição e o patrimônio cultural literário” (BOLLE, 1986, p. 9), para provocar inquietações e redefinições dos campos entre literatura, da crítica literária e convidar ao perene exercício da etnoflânerie.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4. ed. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2006. BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 6. ed. Trad. Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008. BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. 5.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. Seleção e apresentação: Willi Bolle. Tradução de Celeste Ribeiro de Sousa et al. São Paulo: Cultrix/Editora da Universidade de São Paulo, 1986, p. 182-198. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. v. 1. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. BEZERRA, Paulo. Polifonia. In: BRAIT, B. (Org). Bakhtin: conceitos-chave. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 191-200. BOLLE, Willi. Apresentação. In: BENJAMIN, W. Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. Seleção e apresentação: Willi Bolle. Tradução de Celeste Ribeiro de Sousa et al. São Paulo: Cultrix/Editora da Universidade de São Paulo, 1986, p. 9-14. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 5 ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul/ São Paulo: Duas Cidades, 2011. GOMES, R. Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. FREUD, Sigmund. O mal-estar da civilização. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin Classics: Companhia das Letras, 2011. MEDEIROS, Ana; SILVA JR., Augusto. Poética da criação verbal: a crítica polifônica nos estudos da linguagem literária. Anuário de Literatura. Florianópolis, v. 20, n. 1, 2015, p. 228-245. Disponível em: https://antigo.periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/2175-7917.2015v20n1p228/29688. Acesso em: 12 abr 2021. SILVA JUNIOR, Augusto Rodrigues. Centroestinidades e geopoesia: casa de morar niemar é a poesia. In: MEDEIROS, Ana Clara; GANDARA, Lemuel [et al; Org.] Parceiros de Águas Lindas. Goiânia: R&FEditora, 2018. p. 53-80. ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução de Jerusa Pires, Maria Lúcia Pochat, Maria Inês de Almeida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

PALAVRAS-CHAVE

Geopoesia; Etnoflânerie; Literaturas Brasileiras; Crítica Polifônica; Narradores.

PROGRAMAÇÃO

S01 17/09 14h-18h - https://youtu.be/MmUmogMfaNY

S02 23/09 14h-18h - https://youtu.be/B6CGmnK5H3c

S03 24/09 14h-18h - https://youtu.be/Z2qzIEX6Nms