NATURALISMO/NATURALISMOS

SIMPÓSIO - ST63

COORDENADORES

Leonardo Mendes (UERJ)
Haroldo Ceravolo Sereza (UFSCAR)

RESUMO

O propósito desse Simpósio é discutir os princípios da estética naturalista e debater suas principais manifestações literárias, de qualquer nacionalidade, tanto no século XIX, quanto nos séculos XX e XXI. As propostas introduzidas por este movimento estético democrático, que ousava nos temas e apresentava procedimentos discursivos específicos, garantiu sua difusão pelo mundo (Becker & Dufief, 2018), atraindo escritores de diversos países que adotavam o naturalismo como uma forma de se alinhar à modernidade numa geografia específica que não cabia nas fronteiras das literaturas nacionais. Tal força de representação ultrapassou igualmente seu período histórico e sobrevive até hoje, mostrando que a temporalidade literária obedece a regras específicas dos campos literários (Casanova, 1999). O princípio naturalista fundamental é retratar “a vida como ela é”, estudando personagens de diversas classes sociais em seus cotidianos, mesmo quando desprezíveis ou abjetos. Este método de observação e de criação deu origem a uma infinidade de críticas tanto à brutalidade e à imoralidade do naturalismo quanto à pretensão ingênua de representar fielmente a realidade. Entretanto, ingênua era a acusação de que os escritores naturalistas eram ingênuos, pois em vários textos-chave da estética, como o prefácio da segunda edição de Thérèse Raquin (1868) e o ensaio O romance experimental (1880), Émile Zola esclarece que o objetivo era criar uma “ilusão” da realidade, pois se o romance naturalista adotava procedimentos científicos para reagir contra um romantismo gasto então muito em voga, cabia a cada artista em seu “temperamento” individual o ato da criação. Daí que não se deva falar de “escola” e em “discípulos”, pois cada escritor tomou os princípios da estética e os moldou à sua maneira – o que nos permite hoje falar de “naturalismos” (Becker & Dufief, 2017). Destacamos esse mal-entendido como um entre vários reducionismos impingidos ao naturalismo, retratado pela historiografia tradicional como uma estética menor, falsa e ingenuamente científica, muitas vezes reduzida a um clichê. Estudos recentes em vários países vêm desvendando um quadro mais sofisticado e complexo, capaz de acomodar uma gama de vertentes naturalistas no século XIX e XX, em suas relações com o gótico, o decadentismo, a literatura licenciosa, elegendo ora a representação trágica da existência, ora uma exploração dos enredos repetitivos e da desilusão (Baguley, 1995). Na literatura brasileira oitocentista esses desdobramentos parecem capazes de abarcar uma gama bem maior de autores e textos do que a historiografia tradicional conseguiu identificar. A onda naturalista do século XIX deu origem a métodos de pesquisa e criação, bem como a formas de expressão que foram retomadas por escritores ao longo dos séculos XX e XXI. A forma de abordar a realidade como elemento constitutivo da obra servirá a pintores, fotógrafos, cineastas e autores de novela, que nela verão um modo legítimo de se falar sobre o mundo e as sociedades. Flora Süssekind, ao analisar o romance brasileiro do século XX, refere-se às vagas naturalistas nos anos 1930 e 1970. Também aponta, nos temas tratados na obra de Ferréz, Dráuzio Varella e Paulo Lins, nos anos 2000, para uma retomada dos postulados centrais do naturalismo. O desejo de expressar dimensões pouco atraentes da realidade, a primazia dada à descrição de conflitos sociais, os temas do preconceito racial e da diversidade sexual, assim como o desejo de documentar situações de opressão e exclusão de sujeitos vistos como subalternos constituem elementos do pacto naturalista de leitura que se renova e se reproduz na contemporaneidade. O leitor encontra obras que se posicionam como retratos e debates que dialogam com o tempo imediato e que sugerem tomadas de posição sobre violências e situações quotidianas. O elemento extraliterário é um componente central da obra, e a busca por verossimilhança decorre tanto do discurso da experiência pessoal quanto da pesquisa científica ou jornalística. Rancière (2010) aponta que, ao abolir hierarquias e criar obras que não respeitavam a organização até então vigente, o naturalismo do século XIX criou, por meio do “efeito de realidade”, o “efeito de igualdade”, que está diretamente ligado, para ele, à possibilidade de associação livre de imagens. Rancière dirá ainda que a literatura que privilegia o descrever sobre o narrar permite que o “aristocrático emprego da ação” seja “bloqueado pela democrática coleção desordenada de imagens”. Com a perspectiva renovada de um naturalismo democrático, múltiplo e desordenado, reconhecível nos séculos XIX, XX e XXI, convidamos pesquisadores a enviar propostas de trabalho que incorporem novas questões de pesquisa e estudos de caso ao debate sobre o naturalismo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAGULEY, David. Le Naturalisme et ses genres. Paris : Nathan. 1995 BECKER, Colette & DUFIEF, Pierre-Jean (dir.). Dictionnaire des naturalismes. 2 vols. Paris : Honoré Champion, 2017. BECKER, Colette & DUFIEF, Pierre-Jean. Présentation du Dictionnaire des naturalismes. Excavatio : XXX, 1-10, 2018. CASANOVA, Pascale. La République mondiale des Lettres. Paris : Seuil, 1999. RANCIÈRE, Jacques. O Efeito de Realidade e a Política da Ficção. Trad. de Carolina Santos. Revista Novos Estudos, nº 86. São Paulo: Cebrap, março 2010. SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé, 1984. ______. Desterritorialização e forma literária. Literatura brasileira contemporânea e experiência urbana. Literatura e Sociedade, nº 8. São Paulo: FFLCH, 2005. ZOLA, Émile. O romance experimental e o naturalismo no teatro. Trad. Italo Caroni, Célia Berrentini. São Paulo: Perspectiva, 1982.

PALAVRAS-CHAVE

Naturalismo: Realismo; Ciência; Democracia

PROGRAMAÇÃO

S01 01/09 13h30-18h - https://youtu.be/CJxPe97Jh-k

S02 02/09 13h30-16h - https://youtu.be/VXedB4DWkj8

S03 03/09 13h30-18h - https://youtu.be/x_wSCg3ThRM