AS PERSONAGENS INSÓLITAS

SIMPÓSIO - ST13

COORDENADORES

Fernanda Aquino Sylvestre (Universidade Federal de Uberlândia)
Claudia Fernanda de Campos Mauro (Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp- Araraquara))
Cynthia Beatrice Costa (Universidade Federal de Uberlândia)

RESUMO

As narrativas insólitas, em seus mais variados modos, têm envolvido tanto leitores quanto espectadores – um fenômeno de longa data, que descende das narrativas orais de cunho maravilhoso, como contos de fada e outras manifestações do folclore, o que abarca vampiros, bruxas, monstros, gênios, dragões, demônios, seres mitológicos e outras tantas personagens intrigantes, misteriosas e assustadoras que habitam um universo no qual nos confrontamos com o impossível (ROAS, 2014). A literatura, o cinema e a televisão têm se apropriado desse universo e o subvertido, desdobrando-o em um sem-número de facetas: da repulsiva criatura do Frankenstein de Shelley aos robôs da ficção científica de Asimov, do Nosferatu de Murnau às recentes releituras de Drácula; dos horrores de Maupassant e Poe, passando pelas figuras mágicas de Tolkien, à fantasia contemporânea de Salman Rushdie, Neil Gaiman, Ian McEwan, Kazuo Ishiguro e tantos outros, provando que o interesse pela fantasia reiventa-se cultural e historicamente ao longo do tempo.Nos anos 2010 e 2020, uma forte safra de criações, geradora tanto de enorme popularidade quanto de marcado interesse acadêmico, demonstra a atual renovação da fantasia (STEPHAN, 2016) como um largo espectro abrangente e subversivo de histórias que não se prestam a leituras puramente realistas (JACKSON, 1981) e que são povoadas por personagens humanas e não humanas às vezes em harmonia, mas com frequência em confronto e beligerância. A releitura de personagens já consagradas pelo tempo no imaginário popular, assim como a construção de figuras insólitas inéditas, abre possibilidades renovadas de interpretação, dando voz aos marginalizados e inserindo-os em contextos mais condizentes com os conflitos da realidade contemporânea, entre os quais questionamentos feministas e dilemas identitários e étnico-raciais. Em tempos pandêmicos, o escapismo tem funcionado como uma alternativa ao mundo “real”, intensificando ainda mais a produção de obras de viés fantástico, entendido aqui em sentido lato, como modo (FURTADO, 2018). Não à toa, TVs por assinatura e plataformas de streaming têm produzido e veiculado obras de diversas nacionalidades caracterizadas pela presença da fantasia e por personagens insólitas envolvidas em situações igualmente impalpáveis – o sucesso comercial de séries já consolidadas como Game of Thrones, Doctor Who, Stranger Things, Outlander,Black Mirror, Once Upon a Time e Dark parece ter desencadeado uma onda de produções recentes bastante diversificadas quanto à sua expressão do maravilhoso, do fantástico, do gótico e da ficção científica, tais como a turca Você já viu vagalumes?, a brasileira Cidade invível, a italiana Curon, a inglesa Os irregulares de Baker Street, a anglo-polonesa The Witcher e até mesmo a americana The Mandalorian, da Disney, entre dezenas de outras. Dentre os elementos que ajudam a construir essas narrativas audiovisuais que rompem com o sólito, instaurando o metaempírico (FURTADO, 2018), estão as personagens sobrenaturais, extraterrestes e/ou com estreitas ligações com um mundo que não nos pode ser cientificamente explicado. Diante das experiências vividas e/ou provocadas por elas, o público pode reagir com medo ou empatia; pode achar cômico ou sério, repulsivo ou cativante; pode, inclusive, identificar-se (CESERANI, 2006). Como agem essas personagens? Como se estruturam dentro das narrativas? Que papel desempenham para com o mundo insólito? Como se relacionam com os outros elementos que corroboram para a construção do fantástico na narrativa? Como atuam de modo a contribuir para a verossimilhança e ajudam a instaurar o fantástico? No caso das releituras, é interessante que se discuta em quais aspectos as personagens insólitas atuais aproximam-se ou afastam-se das personagens tradicionais, entendidas aqui como as primeiras, as “originais” das narrativas maravilhosas, como a madrasta má da Branca de Neve, o excêntrico Barba Azul, a repulsiva Fera de A Bela e a Fera, o hipnotizador Flautista de Hamerlin e o gênio de As mil e uma noites. Como e por qual motivo elas foram reconfiguradas nas narrativas contemporâneas? Que relação estabelecem com as narrativas revisitadas? Os questionamentos aqui apresentados funcionam apenas como sugestão para que se pense essas personagens, estando os proponentes livres para tratar quaisquer outras indagações concernentes ao viés aqui proposto. É possível também se trabalhar de maneira comparativa, contrastando as personagens ligadas ao mundo metaempírico com outras que compõem narrativas literárias e audiovisuais. Trabalhos que remetam a temáticas como feminismo, racismo, medo e distopia, entre outras tantas possibilidades, também serão acolhidos, desde que ligados de alguma maneira às personagens insólitas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CESERANI, Remo. O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR, 2006. FURTADO, Filipe. Demônios íntimos. A narrativa fantástica vitoriana (origens, temas,ideias). Rio de Janeiro: Dialogarts, 2018. JACKSON, Rosemary. Fantasy: The Literature of Subversion. London: Routledge, 1981. ROAS, David. A ameaça do fantástico: aproximações teóricas. Trad. Julián Fuks. São Paulo: Editora da Unesp, 2014. STEPHAN, Matthias. Do you believe in magic? The Potency of the Fantasy Genre. Coolabah, Universitat de Barcelona, n. 18. 2016, p. 3-15.

PALAVRAS-CHAVE

Narrativas Insólitas; Personagens insólitas; Fantástico Modo

PROGRAMAÇÃO

S01 02/09 09h-13h - https://youtu.be/As4zrGXxDnw

S02 02/09 14h-18h - https://youtu.be/AZqGDd8C7Hk

S03 03/09 14h-18h - https://youtu.be/ln_s4UoTqhU