LITERATURA E OUTRAS LINGUAGENS EM DIÁLOGOS TRANSDICIPLINARES: AFRODESCENDÊNCIAS, AFRICANIDADES, ORALIDADES, TRÂNSITOS E ENGAJAMENTOS

SIMPÓSIO - ST45

COORDENADORES

Epaminondas de Matos Magalhães (Instituto Federal de Mato Grosso)
Marinei Almeida (Universidade do Estado de Mato Grosso)
Renata Beatriz B. Rolon (Universidade do Estado do Amazonas)

RESUMO

O simpósio Literatura e outras linguagens em diálogos transdiciplinares: Afrodescendências, Africanidades, Oralidades, Trânsitos e Engajamentos tem por objetivo colocar em debate questões crítico-literárias em torno da produção dos países africanos, com destaque para Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Interessa-nos, também, abrigar estudos que discutam temas da literatura afrodescendente brasileira, evidenciando a sua diversidade. Serão aceitos trabalhos que se debruçam sobre o papel da memória na construção da identidade negra, aqui e no além-mar, considerando a importância dessa memória que “transcende o presente, resgata o passado, desvenda as relações entre Colônia, o Império e a República, lança raízes na África, busca o quilombo e Zumbi, manifesta-se no protesto e na revolta” (IANI, 1988, p.98. Seja nas articulações entre a memória, a história e/ou as experiências individuais e coletivas, na literatura e outras áreas de conhecimentos, leva-se em consideração que o mergulho nesse universo elucida questões que ajudam a fortalecer as lutas contemporâneas dos movimentos sociais de negritude porque descortinam trajetórias de indivíduos e comunidades, servem, portanto, para iluminar reflexões sobre problemas que foram “sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete” (SAID, 2005, p. 25,26) histórico. Pretende-se, portanto, que o Simpósio abrigue diálogos que envolvam o comparatismo entre as literaturas produzidas em outros espaços africanos, em outras línguas e com a afro-brasileira. Também, serão bem-vindos trabalhos voltados para o comparatismo entre literaturas africanas e afro-brasileiras em diálogo com outras artes como o cinema, o teatro, a dança, a pintura, bem como aqueles que incidam o seu olhar na interdisciplinaridade. Desde os primeiros movimentos na direção da independência política, a literatura produzida no continente africano conquista uma posição de inegável importância para a constituição da ideia de nação, não só pela veemente contestação à empresa colonial (ASHCROFT, GRIFFITHS e TIFFIN, 1989) como também pelos projetos identitários que formulava (MATUSSE, 1993). As décadas que se seguiram à fundação dos estados nacionais, entretanto, foram marcadas por um certo desencanto perante as realidades em curso, seja pela ineficácia das classes dirigentes locais (MBEMBE, 2001), seja pelas pressões da conjuntura internacional, do que resultou o surgimento de imagens distópicas da nação. Em meio a um cenário povoado por rupturas e continuidades de natureza vária, a vinculação entre literatura e a criação da nação, a nível temático e institucional, continua a estar na ordem do dia nas produções do continente. Em se tratando de literaturas desiguais, radicadas em territórios diferenciados entre si a nível histórico e demográfico, cultural e linguístico, social e político, os repertórios afirmam-se pela pluralidade de vozes (escritas e orais) e de itinerários, não só a nível continental como também dentro das próprias fronteiras nacionais. Rupturas, subjetividades, diálogos, sob o foco de diferentes áreas de conhecimento, são motes de numerosas construções literárias e artísticas. Assim, as imagens da nação inscritas por ditas produções ao longo das últimas décadas, bem como, em sentido inverso, a ideia que a literatura ganha no seio de cada uma das nações e, em específico, junto de suas elites políticas, são também marcadas pela heterogeneidade, podendo mesmo tocar opostos, tais como o apoio ou a desconfiança incondicionais. Ao mesmo tempo, estas produções visam diferenciados públicos, consoante a língua em que são escritas (e/ou as orais), coincidindo apenas no fato de que o horizonte de recepção se encontra normalmente distante dos territórios tematizados. O espaço da nação, sob múltiplo olhar, enquanto categoria abstrata, apta a contínuas revisões e mediações, ocupa um lugar complexo e central neste debate. A proposta visa, também, abordar o “questionamento sobre a identidade e a função da literatura nacional pelo filtro da articulação entre sistema textual específico em que se configura e os elementos de recepção que a sustentam e legitimam, de onde não se podem ausentar conceitos como valor, comunidade, instituições culturais e história” (MENDONÇA, 2008). É importante, também, ao refletirmos sobre o momento tão movediço, agressivo e particular que ora não só nos envolve (nos referimos não somente à esfera política nacional, como à essa indescritível calamidade mundial ocasionada pela Pandemia do Covid-19 que atravessa e desestrutura o mundo), como nos move ou deve nos mover, este Simpósio considera a importância do diálogo entre esses diferentes modos de pensamentos, fazeres e subjetividades, como um instrumento fundamental de enfrentamento e de (re)organização do ser frente a esse “ mundo que se despedaça”, para lembrarmos o mote do romance do escritor nigeriano Chinua Achebe (2009). Assim, o Simpósio objetiva promover, portanto, através do comparatismo, as conexões artísticas que possibilitem o acesso ao mundo que se abre à política, à sociologia, à história, à linguística, à antropologia, e às artes em geral, etc. Em face disso, é importante realinharmos textos que captem a realidade particular, transmitam a percepção deste particular a outras esferas e mantenham a excelência na sua realização formal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACHEBE, Chinua. O mundo se despedaça. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen. The empire writes back. Theory and practice in post-colonial literatures. Londres; Nova Iorque: Routledge, 1989. IANI, Octavio. Literatura e consciência. Revista de Estudos Brasileiros da USP. São Paulo, 1988. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/70034/72674 - Acesso em 16 de abril de 2021. MATUSSE, Gilberto. A construção da imagem da moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 1993. MBEMBE, Aquille. As formas africanas de Auto-Inscrição. Estudos Afro-Asiáticos, ano 23, n. 1, 2001. MENDONÇA, Fátima. Literaturas emergentes, identidade e cânone, in M. C. Ribeiro e M. P. Meneses (orgs.), Moçambique: das palavras escritas. Porto: Afrontamento, 2008. SAID, Edward. Representações do Intelectual. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

PALAVRAS-CHAVE

Literaturas Africanas de Língua Portuguesa; Literatura Afro-Brasileira; Comparatismo; Diálogos transdisciplinares.

PROGRAMAÇÃO

S01 16/09 14h-19h - https://youtu.be/t-uFEFx7XWI

S02 17/09 14h-19h - https://youtu.be/6YhocG9NeIA

S03 18/09 10h-14h - https://youtu.be/OcPrHTG3wpE