LITERATURA E SEUS TRÂNSITOS TRANSDISCIPLINARES COM OUTRAS LINGUAGENS ARTÍSTICAS

SIMPÓSIO - ST47

COORDENADORES

Cássia Dolores Costa Lopes (Universidade Federal da Bahia)
Lisa Carvalho Vasconcellos (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais)
Sandro Ornellas (Universidade Federal da Bahia)

RESUMO

Esse simpósio abarca discussões sobre a literatura brasileira e as estrangeiras, tendo em vista os seus encontros com outras manifestações artísticas, seja a fotografia (BRIZUELA, 2014), o cinema (VASCONCELOS, 2015), a música (OLIVEIRA, 2002), a pintura (GIL, 2015), as artes plásticas (CASA NOVA, 2008), a dança (GIL, 2005) e o teatro (SARRAZAC, 2013). Nesse encontro múltiplo de saberes e de olhares, consoante as diferentes tessituras das linguagens em seus processos de experimentação e composição textual e discursiva, a escrita literária transita pelo suporte do livro, bem como por campos expandidos, exteriorizando-se e adquirindo variados contornos e configurações (SANTOS, REZENDE, 2011), conforme uma época marcada por intenso desenvolvimento tecnológico, com intensificação de redes informacionais, com o uso constante da Internet, dos computadores, dos celulares, dos tablets, no visível apelo para emergência de outros suportes artísticos, atentos a esse contexto de acelerado incremento técnico e de produção de informação (SANTAELLA, 2002, 2005, 2016). No caso específico da dramaturgia, por exemplo, abre-se espaço de reflexão sobre procedimentos de interseção entre as diversas funções e meios que hoje configuram o campo das práticas dramatúrgicas. Além de sua tradicional associação com as artes cênicas, tais práticas vêm sendo enriquecidas por novas relações entre criadores e receptores, graças à crescente demanda lançada por outros meios audiovisuais, que abrem possibilidades antes insuspeitadas para a experimentação de novos formatos para comunicação das obras dramatúrgicas. Ao mesmo tempo, a complexidade e a rapidez de difusão dessa praxis interpela decisivamente, em inúmeras questões, o conhecimento construído pela tradição teórico-crítica do drama, da literatura e de outras formas de arte (CÍCERO, 2012). Assim, esse simpósio abre-se para pesquisas cujos olhares investigam desde os diversos processos de composição dramática na contemporaneidade – como adaptações de textos, escrita e tradução de peças e roteiros para o palco, TV, vídeo, rádio e cinema – até estudos de teoria, história e crítica do drama e do cinema, no diálogo com artistas pensadores e teóricos das artes na contemporaneidade, considerando a diversidade de interlocuções de vozes sobre o encontro das linguagens artísticas. O quadro das articulações teórico-críticas, debruçadas sobre as composições artísticas contemporâneas, não pode ficar indiferente aos apelos dessa nova pauta de escritores e artistas, com suas invenções e reinvenções de processos criativos, exigindo de seus leitores e interlocutores diferentes aparatos interpretativos, que pedem um olhar sensível ao papel da imagem no seu aspecto multiforme, com a dinâmica do visual, no jogo com diferentes geografias teóricas, atentas às diferentes temporalidades históricas e processos de subjetivação que acabam por fazer do exercício de leitura textual um operador crítico de demandas políticas de nosso tempo, voltadas para diversos sujeitos e vozes que compõem o espaço social. (DIDI-HUBERMAN, 2010, 2013) A prática de leitura dos textos, sejam eles que formato tiverem, exige também uma crítica de valores estéticos, pautados na pesquisa de uma geografia de saberes e de poderes, que coloca o horizonte do artista também inserido numa agenda de reflexão política sobre a sociedade e suas práticas de socialização de seus produtos artísticos. Daí que o simpósio pensa em encontros, por exemplo, como os da literatura de testemunho ou da poesia com a fotografia (SELIGMANN-SILVA, 2014; NAVAS, 2017), da poesia escrita com a imagem cinemática (MARTELO, 2012; ROWLAND, BÉRTOLO, 2015) ou com o livro de artista (CADÔR, 2012), da encenação teatral com a escrita performática (ZUMTHOR, 2007), da polifonia literária com a polifonia musical (GARCIA JUNIOR, 2018), da instalação com a literatura (SANTOS, 2015), dentre outros possíveis trânsitos transdisciplinares. Para tanto, ambiciona-se um olhar comparatista que atribua aproximações e distanciamentos, experimentações e fluxos, indeterminações e zonas cinzentas, arquivos e especulações entre textos, linguagens, gêneros, formas, materialidades, discursos, numa geopolítica dos valores das leituras em face de contextos sociais específicos que reveem paradigmas interpretativos numa abordagem inter e/ou transcultural (JOBIM, 2019). Pretende-se construir, portanto, diálogos artísticos que conjuguem o ético, o poético e o estético, a partir de um mapeamento de questões do pensamento filosófico, político e teórico-crítico. Tal pensamento se assenta em um olhar lançado às realidades contemporâneas como modo de entender as artes em contextos de acelerada circulação de informações, agressivas tramas de sentidos político-culturais e exaustão dos tradicionais lugares de resistência, tudo sob o signo de um capitalismo de crise (COMITÊ INVISÍVEL, 2016, 2017). Pelas experiências teórico-críticas dessas pesquisas sobre o encontro da literatura com outras artes, ambiciona-se não pensar as linguagens artísticas como modulações disciplinares, mas espaços para usos comuns (AGAMBEN, 2007) da literatura, entendida como um campo transversal de instabilidades e potencialidades da arte, da linguagem e do pensamento (DERRIDA, 2014).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007. BRIZUELA, Natália. Depois da fotografia. Uma literatura fora de si. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. CADÔR, Amir Brito. Enciclopedismo em Livros de artista: um manual de construção da Enciclopédia Visual. Belo Horizonte: Escola de Belas Artes da UFMG, 2012. CÍCERO, Antônio. Forma e sentido da poesia contemporâneo. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012. COMITÊ INVISÍVEL. Aos nossos amigos. Crise e insurreição. São Paulo: N-1, 2016. COMITÊ INVISÍVEL. Motim e destituição agora. São Paulo: N-1, 2017. DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura: uma entrevista com Jacques Derrida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. GARCIA JÚNIOR, Pedro Alaim Martins. Processologia: multiplicidade, descentramento e organização em Finnegans Wake, Grande Sertão: Veredas e Galáxias. Salvador: Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, 2018. GIL, José. O corpo e a dança. São Paulo: Iluminuras, 2005. _______. Poderes da Pintura. Lisboa: Relógio D’Água, 2015. DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34. 2010. ________. Diante da imagem: Questão colocada aos fins de uma história da arte. São Paulo: Editora 34. 2013. JOBIM, José Luís. Geopolítica da comparação. In: Circulação, tramas e sentidos na literatura. XVI Congresso ABRALIC. Rio de Janeiro: Bonecker, 2019. P. 239-248. MARTELO, Rosa Maria. O cinema da poesia. Lisboa: Documenta, 2012. OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. Literatura e música: modulações pós-coloniais. São Paulo: Perspectiva, 2002. ROWLAND, Clara, BÉRTOLO, José (org.). A escrita do cinema: ensaios. Lisboa: Documenta, 2015. SANTAELLA, Lucia et al (Org.). Mídias e artes: o desafio da arte no século XXI. São Paulo: Unimarco, 2002. ________. As ciências normativas (a ética; a estética). In: SANTAELLA, Lúcia. Matrizes da linguagem e pensamento. São Paulo: Iluminuras/FAPESP, 2005. ________. Temas e dilemas do pós-digital: a voz da política. São Paulo: Paulus, 2016. SANTOS, Roberto Corrêa dos, REZENDE, Renato. No contemporâneo. Arte e escritura expandidas. Rio de Janeiro: FAPERJ, Circuito, 2011. SANTOS, Roberto Corrêa dos. Cérebro-ocidente. Arte, escrita, vida, pensamento, clínica, tratos contemporâneos. Rio de Janeiro: FAPERJ, Circuito, 2011. SARRAZAC, Jean-Pierre. Sobre a fábula e o desvio. Rio de Janeiro: 7 Letras: Teatro pequeno gesto. 2013. ______ (Org.) Léxico do drama moderno e contemporâneo. São Paulo: Cosac Naify, 2012. SELIGMANN-SILVA, Marcio. Imagens precárias: inscrições tênues de violência ditatorial no Brasil. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. No.43, Brasília: UnB, Jan./Jun. 2014. VASCONCELOS, Maurício Salles. Jean Luc Godard: histórias da literatura. Belo Horizonte: Relicário, 2016. ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

PALAVRAS-CHAVE

Estudos Interartes e de Intermidialidades; Diálogos; Transdisciplinaridade; Literatura Comparada.

PROGRAMAÇÃO

S01 01/09 14h-18h - https://youtu.be/J0oXwAmiAZo

S02 02/09 14h-18h - https://youtu.be/em4wExzIoUw

S03 03/09 14h-18h - https://youtu.be/h1121AsDUO0