PSICANÁLISE, LITERATURA E OUTRAS ARTES

SIMPÓSIO - ST78

COORDENADORES

Gabriela Bruschini Grecca (Universidade do Estado de Minas Gerais - Unidade Divinópolis)
José Lucas Zaffani dos Santos (Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara)
Marisa Corrêa Silva (Universidade Estadual de Maringá)

RESUMO

Reconhecer na psicanálise uma chave de leitura de processos culturais é um dos passos fundamentais para desmistificar a ideia de “psicologizar a sociedade”, permitindo que novas experiências intelectuais venham à tona. Para Vladimir Safatle (2020, p. 9-10), é importante negar a psicanálise como prática solidária a formas de “psicologização do campo político, de redução de sua gramática e dinâmica à dimensão psicológica”, que tentem encaixar rigidamente conceitos fechados em dinâmicas cotidianas e/ou confrontos diretos. Em outra chave, se a psicanálise precisa afirmar que não está na consciência a centralidade das decisões do sujeito, uma vez que, dentro deste, existe outra dimensão, subversiva e que não se pode mensurar - o inconsciente - então, entender o sujeito (que, além de indivíduo, é também ator da práxis política) é buscar os sentidos de suas movimentações sociais, comunicativas e/ou estéticas, públicas e privadas. Assim, as relações entre literatura, arte e psicanálise são formas de acessar experiências de espraiamento e dissolução do sujeito, seja ele individual ou coletivo, bem como de suas angústias e mediações relacionais. Sobre a exploração do texto literário pela busca de um sentido hermenêutico, podemos nos amparar com a ideia de linguagem do próprio Jacques Lacan (1998, p. 86), para quem “a linguagem, antes de significar alguma coisa, significa para alguém (...) ela se exprime, mas sem ser compreendida pelo sujeito, naquilo que o discurso relata do vivido, na medida em que o sujeito assume o anonimato moral da expressão: é a forma do simbolismo”. Logo, nota-se a inclinação natural da prática psicanalítica pelos usos e manifestações da linguagem, fato que permite a pesquisadores contemporâneos estreitar os caminhos por meio dos quais seria possível utilizar os fundamentos metodológicos desta área do conhecimento para aprofundar as veredas estéticas que determinados autores elegem, bem como o efeito causado nos receptores. Adalberto de Oliveira Souza (2009, p. 244) parece compactuar com tal posicionamento, reforçando que “a literatura e sua prática sempre foram um exercício da linguagem, tanto oral como escrita, criando um espaço marginal às formas habituais da comunicação e tendo como fundamento a expressão de uma subjetividade” e, por intermédio da psicanálise, seria possível a busca “do sentido reprimido que se espera recuperar”. Todavia, a incorporação da psicanálise como abordagem interpretativa do texto literário não se restringe necessariamente à reprodução fenomenológica da relação paciente (texto) e analista (crítico), tal como sugere Souza (2009, p. 244). Cabe também confrontar os conceitos pensados para a clínica (angústia, identificação, transferência) e operacionalizá-los como modos de leitura, isto é, “ler os textos de outros com Lacan” ou outros autores (ŽIŽEK, 2010, p. 12, grifo do autor). Ainda sobre o caso específico da psicanálise lacaniana, Marisa Corrêa Silva (2009, p. 212) explica que “Lacan, com sua recusa de definições, sua perpétua abertura para o jogo de novos significados e sua proposta de que o Inconsciente se estrutura como linguagem (...) se aproxima de autores como Derrida e Deleuze, no sentido de recusar as formas de pensamento fechadas, calcadas na lógica de origem grega, que acabavam resultando em formas autoritárias de pensamento, uma vez que caíam facilmente no dualismo e no maniqueísmo”, revelando, assim, relações criativas entre objetos de cultura e possibilidades de (re)significação. Ainda nessa perspectiva, a constituição dos sujeitos numa relação de dependência do Outro, que, apesar disso, é inexistente ou inconsistente (SILVA, 2017, p. 117-118), cria aberturas para a discussão dos processos ideológicos decorrentes da construção do sujeito em torno de uma falta, de uma ausência fundamental. Se a obra de arte e/ou a obra literária coloca(m) o sujeito em xeque, para que tal se dê de maneira consistente e autêntica, é preciso que ela aceite o estatuto de vaso comunicante, de membrana porosa, cuja função não é a de pacificar o sujeito em relação às demandas do Outro, mas, ao contrário, a de denunciar a existência problemática e sempre-já ideológica dos constructos de “eu” e do Outro. À luz do exposto, este simpósio busca trabalhos que abordem as circulações e os diálogos entre a literatura, as manifestações artísticas e a psicanálise - em suas diferentes vertentes ( junguiana, lacaniana, freudiana etc.) e diferentes apropriações (materialismo lacaniano, estudos culturais), de modo que a abordagem comparatística possa se efetuar entre textos distintos ou no entrecruzamento de visadas teóricas que desafiem as fronteiras mais tradicionalmente estabelecidas entre literatura, psicanálise e outras artes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, Jacques. O seminário sobre "A carta roubada". In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 13-66. SAFATLE, Vladimir. Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação. 1ª edição. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2020. SILVA, Lívia Campos e. O estatuto do Outro no pensamento de Jacques Lacan. Orientadora: Daniela Scheinkman Chatelard. 2017. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, 2017. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/25245/1/2017_L%C3%ADviaCamposeSilva.pdf. Acesso em: 15 abr. 2020. SILVA, Marisa Corrêa. Materialismo Lacaniano. In: BONICCI, Thomas. ZOLIN, Lúcia Osana. (Org.). Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Eduem. 3ª edição (revisada e ampliada), 2009. p. 211-216. SOUZA, Adalberto de Oliveira. Crítica Psicanalítica. In: BONNICI, Thomas. ZOLIN, Lúcia Osana. (Org.). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Eduem. 3ª edição (revisada e ampliada). 2009. p. 243-256. ŽIŽEK, Slavoj. Como ler Lacan. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010

PALAVRAS-CHAVE

Psicanálise; Crítica psicanalítica; Estudos culturais; Arte; Literatura.

PROGRAMAÇÃO

S01 08/09 09h-12h - https://youtu.be/YhUId_4jwAg

S02 08/09 15h-17h - https://youtu.be/xdNekPRj-5w

S03 09/09 09h-12h - https://youtu.be/3C6AsWZXMBU

S04 10/09 09h-12h - https://youtu.be/PFozED9lazM

S05 10/09 15h-17h - https://youtu.be/TUww7KVwVXw