O COMUM NAS POÉTICAS LATINO-AMERICANAS DO PRESENTE: LITERATURA E CRÍTICA

SIMPÓSIO - ST64

COORDENADORES

Débora Cota (Universidade Federal da Integração Latino-americana)
Maria Candida Ferreira de Almeida (Universidad de los Andes)
Nilcéia Valdati (Universidade Estadual do Centro-Oeste)

RESUMO

Uma das questões contemporâneas que tem se imposta ao campo literário é o pensamento em torno do comum, ou seja, como tem se constituído o comum a partir das relações entre o que é próprio e/ou impróprio. Este simpósio quer trazer este problema para pensar as poéticas do presente. Na crítica e na produção artístico-literária das últimas décadas na América Latina, a ideia de comum e comunidade que segue a perspectiva de intelectuais europeus, especialmente italianos e franceses, costuma girar em torno da construção de um novo conceito de “comunidade”, com o qual procura-se desconstruir os termos de identidade, cultura e Estado da tradição do pensamento ocidental. Tais considerações apontam para a dessubjetivação da noção de comunidade, que pode ser vista na crítica de Florencia Garramuño (2014), ao propor uma expansão do campo para renovar as forças dos estudos sobre a literatura latino-americana, em especial, a disciplina de literatura comparada. Por aqui, a reflexão sobre estes aspectos tem incluído também pensar a animalidade (GIORGI, 2014), o direito das coisas (SAFATLE, 2019), o feminismo (TIBURI, 2018), o racismo estrutural (ALMEIDA, 2018), os ódios políticos (KIFFER; GIORGI, 2019), confiscações (VILLELA;VIEIRA, 2020), encerramento em massa (BORGES, 2020), enfim, todos os ruídos que esgarçam o comum. Com tantos conflitos, a comunidade não pode seguir sendo pensada como uma apropriação inerente de sujeitos sociais que compartilham certas características que os homologam. Propomos pensar uma relação dialética que configura uma alteridade de sujeites com outres, implicando apagar um fundamento último da existência compartilhada como sua base ontológica, apoiando-nos na proposta de Paul Preciado (2002), para quem o que se busca nessa outra noção de “Comunidade” é, em princípio, possibilitar que uma cidadania baseada no compartilhamento de fluxos, linguagens, técnicas, novos códigos se aproxime de sua realidade. Dentro desta perspectiva, a literatura, ainda mais, a literatura comparada, pode ser entendida como, mais que um produto social e cultural privilegiado, um campo no qual se estabelecem relações estreitas entre os indivíduos em torno da ideia de comunidade, que também a questiona e a transforma. A literatura comparada é um campo privilegiado porque desde sua origem questiona os fundamentos do comum, atuando contra uma busca pela origem, pela primazia de certos experimentos literários sobre outros, de um fundamento de origem, calcado na herança platônica, que finalmente impedia a compreensão ou aceitação da ideia de patrimônio comum da humanidade. Ela estaria, tomando de empréstimo as palavras de Haroldo de Campos (1983, p.2-3), na “encruzilhada, diálogo necessário e não xenofobia monológica, paralelograma de forças em atrito dialético e não equação de um desconhecido mimético-pavloviano”. Centrado nestas preocupações, este simpósio aceita propostas de estudos em torno da produção artístico-literária e crítica da e/ou sobre a América Latina e que se encontrem voltadas a contribuir nas discussões que se desmembram a partir de um pensamento do comum nas poéticas latino-americanas do presente: a inespecificidade ou o descentramento do literário que considere seus contatos e contágios em suas abordagens; as perspectivas transnacionais e pós-nacionais de produções contemporâneas que negligenciam as fronteiras demarcatórias das nações; a consideração das alteridades que impedem a essencialização e a homogeneização; e/ou o contrário, o imunitarismo que se fecha diante das possibilidades de abertura a Outre

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Sílvio. O que é Racismo Estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018. BORGES, Juliana. O que é encarceramento em massa?. Belo Horizonte: Letramento, 2018. CAMPOS, Haroldo de. “Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira”. Boletim bibliográfico - Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo, v.44, jan./dez. 1983. GIORGI, Gabriel. Formas comuns: animalidade, literatura e biopolítica. Tradução de Carlos Nougué. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. [Coleção Entrecríticas] GARRAMUÑO, Florencia. Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea. Tradução de Carlos Nougué. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. [Coleção Entrecríticas] KIFFER, Ana; GIORGI, Gabriel. Ódio político e políticas do ódio: lutas gestos e escritas do presente. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2019. PRECIADO, Paul B. Manifiesto contrasexual. Madrid: Editorial Opera Prima, 2002. SAFATLE, Vladmir. El circuito de los afectos: cuerpos políticos, desamparo y fin del individuo. Traducción Juan David Millán Mendoza. Cali: Editorial Buenaventura, 2019. TIBURI, Márcia. Feminismo em comum: para todas, todes e todos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018. VILLELA, Jorge Mattar; VIEIRA, Suzane de Alencar (Orgs). Insurgências, ecologias dissidentes e antropologia modal. Goiânia: Editora da Imprensa Universitária, 2020.

PALAVRAS-CHAVE

Comum; Literatura latino-americana; Perspectivas transacionais e pós-nacionais; Alteridade; Inespecificidade.

PROGRAMAÇÃO

S01 13/09 09h-12h - https://youtu.be/J_JUz8kFV2M

S02 13/09 14h-18h - https://youtu.be/wdLDCFksg80

S03 14/09 14h-18h - https://youtu.be/JL5BMwyQ4TQ