MANIFESTAÇÕES DO INSÓLITO FICCIONAL

SIMPÓSIO - ST61

COORDENADORES

Flavio García (Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ))
MARISA GAMA-KHALIL (Universidade Federal de Uberlândia (UFU))

RESUMO

Mundo afora, há tempos, muito se reflete sobre a ficção fantástica, mas ainda é impossível delimitar, com rigor, o universo que esse termo-conceito recobre. Então, pesquisadores, teóricos e críticos vêm adotando o termo insólito para recobrir esse espectro de manifestações ficcionais. Tzvetan Todorov, em Introdução à literatura fantástica (1970), reuniu as ideias de teóricos, críticos e literatos que, antes dele, debruçaram-se sobre o fantástico, com o fito de esquadrinhar uma definição para essa literatura. Por intermédio de uma posição marcadamente estruturalista, o teórico búlgaro ofereceu ao público da época um estudo que ainda hoje é seguido por grande parte de estudiosos dessa vertente ficcional e que a considera sob a perspectiva genológica. Sob a ótica todoroviana, o gênero fantástico se define pela hesitação de personagens, comunicada ao leitor, mantendo-se para além do desfecho da narrativa, e tem por vizinhos o gênero maravilhoso, no qual a hesitação inexiste, e o gênero estranho, em que a hesitação, instaurada no início da narrativa, é desfeita por alguma evidência que tenha como base a razão. Insatisfeitos com a delimitação do fantástico entre aqueles dois gêneros, a partir de semelhanças e diferenças, e percebendo que algumas narrativas não se encaixam rigorosamente nos universos contingenciados por eles, alguns estudiosos buscaram novas perspectivas teóricas na tentativa de definir o fantástico. Entre as alternativas apresentadas, podem-se destacar duas: o fantástico como modo ou como categoria. O pesquisador português Filipe Furtado, acompanhando, especialmente, os argumentos de Rosemary Jackson (1981), denuncia, no verbete “Fantástico: modo” (2009), o quanto a perspectiva genológica deixa à parte uma série de narrativas que poderiam ser consideradas e lidas como fantásticas. Nessa linha de entendimento, Furtado admite que o conceito de sobrenatural não seria englobante a ponto de conjugar diferenças e similitudes e, por isso, defende que o modo fantástico se caracterizaria por uma fenomenologia metaempírica. Furtado defende que o metaempírico (2021 [s/d]) englobaria, para além de acontecimentos da ordem do sobrenatural, outros que, assustadores ou não, percebam-se insólitos, inexplicáveis quando da produção do texto, seja por incapacidade de percepção, seja por falta de conhecimento de suas leis, seja, enfim, por não possuírem existência efetiva naquela realidade quotidiana. A definição do fantástico pelo mirante de categoria foi eleita para explicar o diálogo do fantástico com gêneros diversos, bem como com outras artes. Vale lembrar que as visões genológica e modal – especialmente essa última – permitem refletir sobre uma infinidade de expressões da arte. A pesquisadora portuguesa Maria João Simões (2007), com base nos estudos de Roger Bozetto, Arnaud Huftier, Étienne Souriau e Robert Blanché, esclarece que a categoria se define por intermédio de um ethos específico e estabelecido ilustrativamente através de um diagrama em rosácea. O fantástico seria um dos núcleos da rosácea, composta por tantas outras unidades nucleares, como o grotesco, o gótico, o sublime, o cômico, o trágico etc. Todas essas variadas experiências de compreensão do fantástico foram e continuam sendo realizadas em função de haver um imenso conjunto de produções artísticas que fazem emergir elementos e/ou acontecimentos da ordem do inexplicável e que parecem esquivar-se a toda tentativa de definição, mas que se podem reunir sob a denominação abrangente de insólito ficcional. Há, contudo, no vasto e heterogêneo conjunto de produções abrangíveis sob esse termo-conceito, um traço distintivo que lhe daria certa unidade teórica, metodológica, crítica e conceitual: o caráter insólito na composição de qualquer de suas categorias narrativas, isoladas ou solidariamente entre si, afastando o texto do universo semionarrativo realista. Para o pesquisador boliviano Renato Prada Oropeza (2006), essa impressão se produziria a partir do recurso a diferentes estratégias de construção narrativa – ranhuras, fissuras, fraturas, rupturas, resultantes da instauração de incoerências ou incongruências face aos referentes extratextuais, geralmente demarcados pela verossimilhança realista – que põem em xeque as expectativas da lógica racional e aristotélica. Percorrendo por essas manifestações do insólito ficcional, espera-se que as apresentações e discussões acolhidas neste simpósio problematizem e reflitam sobre gêneros, modos, categorias do discurso que fogem da mimesis realista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FURTADO, F. Fantástico: modo. In: CEIA, C.(Coord.). E-Dicionário de Termos Literários (EDTL). Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2009. Disponível em https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/fantastico-modo. Acesso em 16 de abr. de 2021. FURTADO, F. Metaempírico. In: REIS, C.; ROAS, D.; FURTADO, F.; GARCÍA, F.; FRANÇA, J. (Eds). Dicionário Digital do Insólito Ficcional (e-DDIF). Rio de Janeiro: Dialogarts, s/d. Disponível em http://www.insolitoficcional.uerj.br/m/metaempirico. Acesso 21 de abr. de 2021. JACKSON, R. Fantasy: The Literature of Subversion. London: Routledge, 1981. PRADA OROPEZA, R. El discurso fantástico contemporáneo: tensión semántica y efecto estético. Semiosis, II, México, n. 3, p. 53-76, enero-junio, 2006. SIMÕES, M. J. Fantástico como categoria estética: diferença entre os monstros de Ana Teresa Pereira e de Lídia Jorge. In: Fantástico. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa; Imprensa de Coimbra, p. 65-81, 2007. TODOROV, T. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1970.

PALAVRAS-CHAVE

Insólito Ficcional; Fantástico Gênero; Fantástico Modo; Fantástico Categoria; Comparatismo

PROGRAMAÇÃO

S01 21/09 08h-13h - https://youtu.be/SXoJyv6_aBQ

S02 22/09 08h-13h - https://youtu.be/8YfU412XTFo

S03 23/09 08h-13h - https://youtu.be/n8iIRZLNRwg