ESTRATÉGIAS DO FEMININO: LITERATURA ESCRITA POR MULHERES E RESISTÊNCIA

SIMPÓSIO - ST23

COORDENADORES

Laura Barbosa Campos (uerj)
Anna Faedrich (uff)
Silvina Liliana Carrizo (ufjf)

RESUMO

Pretende-se examinar a manifestação da resistência na literatura produzida por mulheres, de todas as épocas, das mais variadas nacionalidades, tendo em vista as diferentes formas de enfrentar as intempéries da trajetória intelectual e literária feminina. Visamos dar continuidade às discussões empreendidas por este simpósio em 2021. A ideia central é abrir espaço para o diálogo entre pesquisadores que investigam variadas autoras, cujas obras expressam traumas e/ou dificuldades de existir, enquanto escritoras e mulheres pensantes, em uma sociedade patriarcal e hostil. A repercussão da contribuição literária feminina ensejou reações de escritores – homens – que revelam os jogos de poder e suas implicações sobre a fortuna das carreiras de 62 mulheres no mundo das letras. Virgínia Woolf, em Um teto todo seu, anotou que a “indiferença do mundo, que Keats, Flaubert e outros homens geniais achavam tão difícil de suportar, não era, no caso d[a mulher], indiferença, mas hostilidade” (Woolf, 2014, p. 78). Sendo assim, interessa-nos o estudo dos mecanismos sociais de exclusão da literatura de autoria feminina do cânone literário e das histórias literárias brasileiras e estrangeiras, bem como as estratégias utilizadas pelas escritoras como enfrentamento dos espaços que lhe foram reservados – o doméstico e desvalorizado, para as mulheres; o público e prestigioso, para os homens. É possível identificar estratégias do feminino que se impõem como procedimentos evidentes para adentrar o meio – predominantemente masculino – das letras. Reedições dos romances, poemas e crônicas dessas autoras têm sido realizadas com intenção de facilitar o acesso aos leitores, já que muitas dessas obras se encontram em raras bibliotecas, em situações de deterioração, beirando ao desaparecimento. Uma vez aferidos os valores estéticos das obras de autoria feminina – que em termos literários não ficam aquém das escritas por homens – buscamos compreender os mecanismos sociais de exclusão das escritoras. Após anos de estudos – relembramos o trabalho das pesquisadoras e pesquisadores do Grupo de Trabalho (GT) Mulher e Literatura, que, desde os anos 1980, vêm contribuindo com os estudos literários, abrindo espaço para análise e consideração de obras escritas por mulheres –, está comprovado que se trata de uma exclusão por viés de gênero. Ao analisar a masculinidade como nobreza, em A dominação masculina, Bourdieu esclarece que “a definição de excelência está, em todos os aspectos, carregada de implicações masculinas” (Bourdieu, [1998] 2002, p. 78). O homem como dominante reconhece o seu modo particular de ser como universal. Um modo que, segundo tal perspectiva, uma mulher jamais atingirá. Ou melhor, um modo de ser que uma mulher jamais terá a chance de atingir. Sem chances de atingir a “nobreza” masculina, as escritoras são vítimas da sofisticação dos mecanismos de exclusão realizada – consciente ou inconscientemente – pelos historiadores e críticos literários, que perpetuam as mesmas listas de eleitos para figurar a História da Literatura. Naturaliza-se essa exclusão no ensino e nas histórias de literatura que alunas e alunos aprendem nas universidades, antes de se tornarem correias de transmissão das mesmas exclusões, nas ementas que organizam para o alunado também das escolas de formação préuniversitária. Este consenso e naturalização devem ser permanentemente questionados, tendo em vista que a relação do campo literário com a literatura de autoria feminina é socialmente construída. Nesse sentido, a produção das escritoras só pode ser devidamente compreendida quando se explicitam as expectativas sociais, em particular as expectativas de escritores homens sobre a escrita literária. Como postulou o sociólogo francês Émile Durkheim (1895), essas expectativas coletivas são usualmente tão naturalizadas que, como uma segunda natureza, sequer são percebidas, exceto 63 quando desafiadas ou quando se lhes tenta alterar o curso. Trata-se de uma coerção doce, porque sua força, embora se exerça de modo permanente, não se percebe. E, sendo coletiva, não é produto de vontades individuais, embora se manifeste nas ações de cada um. A luta da volição individual contra a expectativa do coletivo é desigual. O coletivo dispõe de recursos de coerção de toda sorte, quando vê a norma desafiada. Hoje desafiamos o que nos foi paulatinamente naturalizado, tornando possível a alteração do curso. Embora nosso objeto de estudo seja literário – literatura de autoria feminina –, e não interdisciplinar ou cultural, acredito ser possível dialogar com os estudos culturais, sem abrir mão da teoria literária e do exercício crítico. Se a história da literatura reproduziu seleções arbitrárias, por sua índole essencialmente falonarcísica e patriarcal, ela também é um instrumento para reconstruir narrativas em novas perspectivas. Tal reconstrução é um trabalho literário e político. O que se espera é que os trabalhos apresentados no Simpósio abordem questões voltadas tanto para a estética das obras escritas por mulheres, quanto para questões sociológicas pertinentes ao âmbito da teoria feminista para pensar a exclusão das escritoras – segundo uma visão falonarcísica e um princípio androcêntrico – e as estratégias do feminino no intuito de romper com a expectativa de gênero.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. Tradução Paulo Neves. 3a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. (Coleção Tópicos) ELEUTÉRIO, Maria de Lourdes. Vidas de romance: as mulheres e o exercício de ler e escrever no entresséculos (1890-1930). Rio de Janeiro: Topbooks, 2005. TELLES, Norma. “Escritoras, escritas, escrituras”. In: DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil (Org.). 10 ed., 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2013, p. 401-442. WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Tradução de Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

PALAVRAS-CHAVE

Escritoras; resistência; trauma; feminismo; cânone literário

PROGRAMAÇÃO

S1 13/09 13h-18h - https://youtu.be/GHkSzZpiwmI

S2 15/09 13h-18h - https://youtu.be/2G5yfjmbOEc

S3 17/09 13h-18h - https://youtu.be/KbxLmIKruec

S4 20/09 13h-18h - https://youtu.be/rOveKQOBOQ8

S5 22/09 13h-18h - https://youtu.be/w7G2lZ3JtY8