PRODUÇÕES LITERÁRIAS DE PESSOAS GÊNERO-DISSIDENTES NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

SIMPÓSIO - ST77

COORDENADORES

Leocádia Chaves (Universidade de Brasília)
Luiz Gonzaga Morando Queiroz (Universidade Federal de Mina Gerais)

RESUMO

Conforme demonstra Regina Dalcastagnè (2012), o sistema literário brasileiro, como dispositivo de poder, também é produtor e reprodutor do status quo. Ou seja, confirma e reafirma pelo modo artístico-discursivo um ordenamento social mantido por múltiplos supremacismos. Isso se revela por exemplo quando, diante do universo recenseado, constata-se que mais de 72,7% dos romances publicados por essas editoras foram escritos por homens; sendo que 93,9% são brancos; 78,8% com escolaridade superior; 60% moradores do eixo Rio-São Paulo, um grupo que em grande medida já está presente em outros espaços privilegiados de produção de discurso, de poder e que de forma não coincidente encena, em sua maioria, narradores e personagens relevantes como fortalecedores da matriz colonial: à imagem e semelhança de si mesmos. Salienta-se que embora o “censo” não tenha se voltado para a questão da identidade de gênero – cisgeneridade e transgeneridade –, como demonstra a pesquisadora, essa produção se efetiva sob um mapa de violências de grupos subalternizados, seja pela sua ausência – como autores e autoras –, seja em representações estigmatizadoras – não homem, não branco, não heterossexual, não rico, não urbano, não qualificado – como ocorre, por exemplo, com a representação de personagens negras e dissidentes sexuais (homossexual, bissexual e assexuado). Essa “radiografia” também se confirma para a produção romanesca do intervalo subsequente, de 2005-2014, pesquisado por Dalcastagnè, conforme descreve Graziele Frederico (2017). Em “acréscimo” a este, Luiz Henrique Moreira Soares e Rosiney Aparecida Lopes (2017) verticalizam a indagação para a representação de travestis em romances entre os anos de 2000-2016. Dentre as constatações, confirmam que a maioria desses romances foi escrita por homens – provavelmente cis –, que por sua vez monopolizam – por meio de seus narradores – os lugares de fala no interior das narrativas. Do total de trinta e nove romances, e de cinquenta personagens travestis, apenas dezoito são representadas como protagonistas; as demais ocupam espaços de exclusão social com representações que orbitam entre corpos mortos, assassinas perigosas, seres angustiados, suicidas ou sujeitos não nomeáveis. Em contraparte, o sistema literário brasileiro ainda tem dificuldade também para se posicionar frente a outras variáveis que confrontam sua face hegemônica, como aquela que provém de autoras e autores gênero-dissidentes que buscam expressar modos, processos e experiências de subjetivação e representação coerentes e alusivas a suas identidades. Esses abalos começam a se fazer visíveis, ainda que de forma tímida, já no final dos anos 1970 e ao longo dos 80 com produções literárias de caráter autobiográfico e/ou memorialístico, seja na poesia de Ruddy Pinho, seja na prosa de João W. Nery e Anderson Herzer (CHAVES, 2021). Um aumento em escala geométrica dessa produção a partir dos anos 90 expôs autores/as, leitores/as, críticos e historiadores em contato mais direto com noções como performatividade de gênero, abjeção, deslocamento de discursos binários, ordem heterocentrada, modelo heteronormativo, abordagens queer (SOARES, 2020). Dentro desse contexto, pelo menos dois grandes afluentes se estabeleceram: os de autores/autoras gênero-dissidentes com um olhar autobiográfico, em que o exercício de memória traz à cena literária os mecanismos de constituição da persona narradora; os de autores/autoras gênero-dissidentes que constroem a reflexão sobre o gênero e o estar no mundo por meio especialmente de narrativas que encenam personagens outros e seus dramas cotidianos no espaço onde convivem. Seja com o olhar voltado eminentemente para dentro si, seja para fora de si, para o outro e seu contexto, essa literatura trará para o espaço ficcional os conflitos e as disputas característicos de pessoas gênero-dissidentes, fazendo irromper novas subjetividades e ameaçando estilhaçar a ordem hegemônica. Desse modo, como confirmam Michel Foucault (1988), Judith Butler (2018) e as “guinadas” no nosso próprio sistema literário: onde há poder, há resistência. Diante dessa certeza histórica é que indagamos: a quantas anda a produção literária de pessoas gênero-dissidentes na contemporaneidade? Como a crítica literária tem se comportado diante desta produção? Em que medida suas produções têm colocado em xeque o status quo? Essa produção se confirmaria como uma outra face da literatura brasileira contemporânea? Salientamos que, ao qualificar e delimitar a instância da autoria como gênero-dissidente (BUTLER, 2017), ou seja, de pessoas que por múltiplas formas irrompem contra a compulsoriedade identitária cisheteronormativa, não desprezamos a existência de outros marcadores sociais que relacionados àquele vêm reforçando extermínios em nossa sociedade (CRENSHAW, 1991), não sendo, então, negligenciável nas propostas de comunicação a serem apresentadas. Assim, a proposição deste simpósio temático vem da compreensão da necessidade de se garantir a ocupação deste importante espaço de poder de nosso sistema literário para que essa produção e a sua crítica irrompam de forma fraturadora do status quo, portanto, resistindo, rebelando, revoltando contra as produções e modelagens hegemônicas de existir (es) e saber (es).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. CHAVES, Leocádia Aparecida. A escrita autobiográfica trans como estratégia de resistência e organização: vaga-lumes na escuridão. 2021. 155f. Tese (Doutorado em Literatura) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília, 2021. CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the margins: intersectionality, identity politics, and violence against women of color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, p. 1241-1299, jul. 1991. DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Rio de Janeiro: Editora da UERJ; Horizonte, 2012. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988. FREDERICO, Graziele. Ausências e silenciamentos: a ética nas narrativas recentes sobre a ditadura brasileira. 2017. 105 f. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília, 2017. SOARES, Luiz Henrique Moreira; LOPES, Rosiney Aparecida. Ela é amapô de carne, osso e palavras: personagens travestis no romance contemporâneo brasileiro. Revista do Instituto de Políticas Públicas de Marília, Marília, v. 3, n. 1, p. 79-96, Jan./Jun. 2017. Disponível em: http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/RIPPMAR/article/view/7391. Acesso em: 30 ago. 2017. SOARES, Luiz Henrique Moreira. Sereia do asfalto, rainha do luar: configurações da personagem travesti no romance contemporâneo brasileiro. 2020. 150 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São José do Rio Preto, 2020.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura Contemporânea; Autoria gênero-dissidente; Rebeldia literária; Perspectiva queer; Crítica literária.

PROGRAMAÇÃO

S1 15/09 08h-12h - https://youtu.be/RjxDPDtZV3A