"TUDO INVADE TUDO": RESSONÂNCIAS TRANSDISCIPLINARES DO TECIDO OSMANIANO

SIMPÓSIO - ST1

COORDENADORES

Maria Aracy Bonfim (Universidade Federal Do Maranhão)
Elizabeth Hazin (Universidade de Brasília)
Sandra Margarida Nitrini (Universidade de São Paulo)

RESUMO

Existe na Literatura uma especificidade de suma importância a ser atentamente explorada, aquela precisamente que diz respeito ao fato de seu significado também repousar nas conexões que consegue acionar a partir de outras áreas do saber. Centrando-se aqui na obra literária do escritor pernambucano Osman Lins (Vitória de Santo Antão, 1924 – São Paulo, 1978), este simpósio tem como objetivo uma profunda reflexão sobre de que modo o texto literário pode ser modificado pela experiência de seu trânsito em outras áreas. Lê-se em A ideia de ordem, de Ana Paula Pedro que para Vitrúvio a diferença entre o arquiteto e o artesão repousaria na formação do primeiro, que deveria adquirir conhecimento de um conjunto de disciplinas necessárias a sua atividade: literatura, história, filosofia, direito, medicina, astronomia, música, desenho e geometria. Poderia haver algo mais osmaniano? Em entrevista concedida ao Correio da Manhã (Rio), de 17 de setembro de 1966, e publicada em Evangelho na Taba: outros problemas inculturais brasileiros, Osman Lins afirma que seu livro Nove, novena - lançado publicamente em São Paulo, no dia 6 de julho de 1966 - abrange mais áreas de pesquisa do que seus trabalhos anteriores, o que se deve sobretudo ao fato de que seu espírito “permite agora essa aventura”. Dos aspectos formais constitutivos desse livro, chama a tenção o modo como cada uma das nove narrativas se torna foz e confluência de linguagens, ou seja, uma rede tecida no texto com elementos advindos de outros saberes e que a ele adere tão perfeitamente que já não é possível encará-la como um mero conjunto de informações necessárias à construção textual, mas como algo mais esquivo a definições e que instiga no leitor a reflexão. De fato, o diálogo com outros campos do conhecimento que aí se instaura aponta apara um profundo envolvimento com a pesquisa, por parte do autor. Fruto de suas andanças pela Europa (esteve na França em 1961, por seis meses, como bolsista da Alliance Française) que o puseram em contato com a arte medieval, entre tantas outras novidades, tal envolvimento abriu seus horizontes, permeando seu texto de outros saberes: a geometria, a entomologia, a música, a matemática, a paleontologia, a álgebra, a alquimia, a astrologia, o pensamento filosófico, a arquitetura e tantos outros. Assim – ao refletir sobre o conceito de transdisciplinaridade - este simpósio pretende refletir principalmente sobre o seu desdobramento em relação ao texto osmaniano, ou seja, sobre como se dá neste recinto – o do espaço da obra - o diálogo com outras áreas do conhecimento - o que envolve pesquisa também por parte de quem estuda esse autor - e em que medida isso afeta sua criação literária. Pretende, pois, investigar os diversos campos do conhecimento que – a partir de Nove, novena – surgem em seu discurso ficcional, na tentativa de apreender o mecanismo transdisciplinar que subjaz à fatura do texto, tornando-o tão peculiar: alusivo, metanarrativo e possuidor de estrutura que nasce naturalmente dos saberes que participam de sua oficina. Serão aqui acolhidos trabalhos que: 1) ampliem o conceito de transdisciplinaridade e sua relação com a Literatura; 2) apontem o modo como a literatura dialoga com outros saberes e como lança mão de sua aprendizagem na elaboração estética de seu conteúdo; 3) repensem as possibilidades de abordagem de outras áreas de conhecimento a partir do diálogo entre elas e a literatura; 4) apreendam em que medida a influência de outras disciplinas afeta o fazer literário e configura sua rede de significações; 5) aprofundem a relação da escrita com a leitura, da forma com o conteúdo, do real com a ficção, a partir da transdisciplinaridade do texto osmaniano. O aparato teórico poderá ser constituído pelos textos de Edgar Morin sobre a religação dos saberes e o método, mostrando o conhecimento como um fenômeno transdimensional, inseparável e simultaneamente físico, psicológico, cultural e social; de Foucault sobre a arqueologia do saber e a história dos sistemas de pensamento; de Krzysztof Pomian, sobre natureza, história e conhecimento, em que se lê que o conhecimento não pode ser concebido como uma unidade e, finalmente, no que diz respeito a questões que envolvam a narrativa, poderá ser usado como base o livro de Hayden White que se intitula El contenido de la forma (narrativa, discurso e representación histórica).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio: Forense Universitária, 2013. ______. Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Rio: Forense Universitária, 2006. LINS, Osman. Evangelho na Taba: outros problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1979, p. 137. ______. Nove, novena. São Paulo: Martins, 1966. MORIN, Edgar. A religaçãoo dos saberes: o desafio do século XXI. Rio: Bertrand Brasil, 2002. PEDRO, Ana Paula G. A ideia de ordem: Symmetria e Decor nos Tratados de Filarete, Francesco di Giorgio e Cesare Cesariano. São Paulo: EDUSP/FAPESP, 2014, p. 45. POMIAN, Krzysztof. Coleção. Enciclopédia Einaudi I: Memória – História. Porto: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984, pp. 51-86. WHITE, Hayden. Elcontenido de la forma: narrativa, discurso e representação histórica. Barcelona: Paidós, 1992.

PALAVRAS-CHAVE

Osman Lins; Literatura e Transdisciplinaridade; Literatura e Intertextualidade.

PROGRAMAÇÃO

S1 15/09 15h-17h - https://youtu.be/RVj1BhF_Sn0

S2 16/09 16h-18h - https://youtu.be/g_guBjsOHv4

S3 17/09 15h-19h - https://youtu.be/iEtvkwdhmV4