MOBILIDADES CULTURAIS E FIGURAÇÕES IDENTITÁRIAS NA LITERATURA LATINO-AMERICANA

SIMPÓSIO - ST62

COORDENADORES

Tatiana da Silva Capaverde (Universidade Federal de Roraima)
Juliana Bevilacqua Maioli (Universidade Federal de Rondônia)

RESUMO

Segundo James Clifford (1997, p. 14) as mobilidades e os encontros humanos são complexos e de longa data. Em relação às Américas, podemos afirmar que os deslocamentos fazem parte de sua composição cultural desde os tempos do ‘descobrimento’ e que os fluxos migratórios internos dos povos nômades fazem parte de uma realidade ainda mais pregressa. O convívio entre europeus, africanos e as populações aborígenes nos períodos da conquista e da colonização converteram o continente americano em um espaço de hibridações culturais que se desdobram até nossos dias. O século XXI assiste a um processo de mundialização que, sendo impulsionado pelo avanço das tecnologias de comunicação, internet e transporte, tem favorecido a intensificação dos deslocamentos culturais e a, consequente, aproximação entre distintos povos. Aínsa (2010) considera ainda que, em decorrência das dinâmicas da globalização e seus consequentes efeitos no setor político-econômico, indivíduos de diferentes culturas e lugares podem conviver em permanente contato com alteridades, ensejando, assim, a conformação de identidades alternativas, para as quais não há uma base territorial e linguística única. Nesse mundo interconectado, os sujeitos têm a possibilidade de se converterem em nômades culturais, uma vez que podem se deslocar com facilidade por diferentes territórios e, inclusive, habitar os interstícios de diferentes Estados-nações. Frente a esse contexto, um grande número de intelectuais e artistas passam a explorar a diversidade material, cultural e identitária de um mundo conectado. Dessa forma, os valores simbólicos das fronteiras tendem a ser revisitados e redimensionados em pró da incorporação de outras coletividades que introduzem novos intercâmbios de ideias e experiências estéticas. Destarte, a reflexão teórico-crítica acerca dos processos de desterritorialização/reterritorialização (HAESBAERT, 2011) ressignificaram da ideia de fronteira, a qual passa a ser concebida como lugar privilegiado de encontros e conflitos onde se operam novas negociações de sentidos de identidade e pertencimento, não mais adscritos a uma referência espacial estritamente nacional. As variadas formas de interação entre o local e global materializadas nas narrativas latino-americanas mediante a ressignificação da experiência de trânsito, evidenciam os mecanismos de construção de identidades forjadas a partir de relações dialógicas com o Outro, que, embora nem sempre dialéticas (CORNJEO POLAR, 2000), apontam para a emergência de sujeitos portadores de uma índole identitária fronteiriça, híbrida e fluída, articulada desde a diferença. A relevância e complexidade desse assunto, reflete-se, por exemplo, no Dicionário das mobilidades culturais: percursos americanos (2010), estudo de referência organizado por Zilá Bernd, em cujo prólogo, a autora ensaia uma tipologia com a qual procura sistematizar os possíveis modos de mobilidade presentes nos discursos literários contemporâneos, dentre os quais destaca: 1-) as mobilidades migratórias transculturais; 2-) as mobilidades memoriais e intersubjetivas; 3-) as mobilidades transnacionais; 4-) as mobilidades espaciais (do imaginário das metrópoles); e, 5-) as mobilidades desviantes (BERND, 2010, p. 18-23). Tal classificação demonstra que as representações do deslocamento na literatura e as figurações identitárias delas resultantes, merecem um exame pormenorizado, que leve em conta as particularidades do processo de criação literária, pois como assevera Palermo (2012, p. 134) “os movimentos de diáspora e migração [...] respondem a modelos histórico-culturais específicos”, devendo, portanto, “ser lidos de forma relacional, nas continuidades e contradições, nas dinâmicas de trauma e assimilação” (PALERMO, 2012, p. 134). Considerando que se trata de um tema atual e relevante no século XXI a partir da compreensão do “surgimento de novos padrões de movimento transareais, translinguais e transculturais, que ultrapassam a distinção entre literatura nacional e mundial” (ETTE, 2018, p. 17), o presente Simpósio Temático pretende reunir pesquisadores da área dos estudos literários que se dediquem à análise de narrativas que tenham como tema estrutural ou temático o eixo da mobilidade. O encontro busca discutir os conceitos de movência, hibridez, e impureza, que, desde as últimas décadas do século XX, desestabilizaram os dos conceitos de nação e identidade. Nesse sentido, parte-se do princípio de que a mobilidade instiga a revisão de dicotomias como local/global, centro/periferia, o próprio/alheio, fomentando o surgimento de outras percepções espaço-temporais, que instauram, na literatura, novas zonas de contatos transculturais, nas quais se redesenham territorialidades alternativas e outras geografias do pertencimento. Além dos diálogos com Aínsa (2010), Bernd (2010) e Palermo (2012), sobre as estéticas do deslocamento; a base referencial teórica deste simpósio, orienta-se pelas ideias de identidades, cultura e espaços de autores como Homi Bhabha (1998), Stuart Hall (2001), Cornejo Polar (2000), García Canclini (2001), Zygmunt Bauman (2001), Augé (2010), Nicolas Bourriaud (2009), entre outros. Desta forma, ao explorar a representação das mobilidades culturais no contexto das narrativas latino-americanas, espera-se promover discussões e reflexões sobre as problemáticas que giram em torno dos conceitos identidade e pertencimento, numa época em que o trânsito não constitui apenas um assunto da moda, mas que, ao contrário, revela-se como signo de uma evolução profunda que afeta tanto representações do mundo e a nossa maneira de como vivemos nele, quanto os próprios paradigmas do relacionamento humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AÍNSA, Fernando. Palabras nómadas. Los nuevos centros de la periferia. In: ESTEBAN, Ángel; MONTOYA, Jesús; NOGUEROL, Francisca; PÉREZ LÓPEZ, María Ángeles (ed). Narrativas latinoamericanas para el siglo XXI: nuevos enfoques y territorios. Hildelshein: OLMS, 2010. AUGÉ, Marc. Por uma antropologia da mobilidade. Maceio: EDUFAL; UNESP, 2010. BAUMAN, Zygmund. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BERND, Zilá (org.). Dicionário de mobilidades culturais: percursos americanos. Porto Alegre: Lieralis, 2010. BHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila. Belo Horizonte: UFMG, 1998. BOURRIAUD, Nicolas. Radicante. Trad. de Michèle Guillermont. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora, 2009. CLIFFORD, James. Las culturas del viaje. Revista de Occidente. Madrid: Arce, n. 170- 171, 1997, p. 45-74. CORNEJO POLAR, Antonio. Uma heterogeneidade não dialética: sujeito e discurso migrantes no Peru moderno. In: VALDÉS. Mario J. (Org.). O condor voa: literatura e cultura latino-americanas. Tradução de Ilka Valle de Carvalho. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000. p. 299-310. ETTE, Ottmar. EscreverEntreMundos: literaturas sem morada fixa. Curitiba: Ed UFPR, 2018. GARCÍA CANCLINI, Néstor. Culturas Híbridas: estrategias para entrar y salir de la modernidad. Buenos Aires: Editorial Paidós, 2001. HAESBAERT, Rogério. O Mito da Desterritorialização: do fim dos territórios à mundialização. 6 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 5. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. PALMERO, Elena. Literaturas hispânicas no Canadá: notas de pesquisa para uma história comparada da literatura hispano-canadense. In: PORTO, Maria Bernadette.; VIANNA, NETO Arnaldo Rosa (Org.). Habitar e representar a distância em textos literários canadenses e brasileiros. Niterói: EdUFF, 2012, p. 131-144.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura e deslocamento; Mobilidade cultural; Identidade; Fronteira; Narrativa latino-americana.

PROGRAMAÇÃO

S01 27/09 09h-13h - https://youtu.be/mYOtg_vcv7A