OS ESCRITORES-TRADUTORES E A FORMAÇÃO DOS CÂNONES

SIMPÓSIO - ST69

COORDENADORES

SHEILA MARIA DOS SANTOS (Universidade Federal de Santa Catarina)
MARLOVA GONSALES ASEFF (Universidade de Brasília)

RESUMO

Ao longo da história da literatura ocidental, poetas e prosadores estiveram envolvidos, em maior ou menor grau, com a tarefa da tradução. E há várias evidências que comprovam como a atividade tradutória não só contribuiu para promover renovações no interior das literaturas nacionais, como também esteve em suas gêneses. É bem difundido, por exemplo, o impacto que teve a tradução dos escritos de Edgar Allan Poe por Charles Baudelaire, cuja obra, mais tarde, repercutiria no movimento simbolista e, em seguida, no modernismo hispano-americano. No caso da literatura brasileira, desde seus primórdios, os escritores estiveram a cargo das traduções. Ainda no período colonial, Gregório de Matos fez paráfrases e imitações de poemas dos espanhóis Francisco de Quevedo e Luis de Góngora. Já no fim do século XVIII, poetas do Arcadismo, como Cláudio Manuel da Costa e Basílio da Gama, foram buscar na Itália as normas estéticas e os modelos para a vida literária. (PAES, 1990, p. 12). Sabemos também que durante o Romantismo, Machado de Assis, Gonçalves Dias e Castro Alves se dedicaram à tradução literária, principalmente de gêneros como o romance-folhetim, o drama e a poesia. Antonio Candido demonstrou a influência das traduções de Baudelaire por poetas brasileiros no decênio de 1870, na passagem do Romantismo para o Simbolismo. Tais traduções, segundo o crítico, “definiram os rumos da produção poética, traçando a isonomia de uma fase [da literatura brasileira]” (CANDIDO, 2006, p. 28). Candido chama a atenção para o fato de que esses poetas eram, em sua maioria, “secundários”, jovens rebeldes que usaram Baudelaire como “um instrumento libertador”. Na década de 1930, época na qual o mercado editorial brasileiro começava a se organizar, a Livraria do Globo foi pioneira na tradução de romances policiais norte-americanos. Os anos entre 1942 e 1947 constituíram a época de ouro da tradução para essa editora de Porto Alegre, quando importantes poetas brasileiros, como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana, atuaram como tradutores para a casa editorial. Wyler destaca que nesse período os tradutores não eram mais, como nos séculos anteriores, poetas poliglotas e diletantes. Eram escritores consagrados em ascensão, ou seja, os responsáveis em qualquer cultura pela criação e reprodução dos padrões linguísticos do idioma (WYLER, 2003, p. 117). Logo em seguida, ao reconhecer a lucratividade do mercado de literatura traduzida, a editora José Olympio também decidiu apostar em literatura traduzida. Para isso, recrutou um time de escritores para atuar como tradutores, entre eles Lúcio Cardoso, Vinícius de Moraes, Guilherme de Almeida, Raquel de Queirós e José Lins do Rego, que traduziram para essa editora nos anos de 1940 (HALLEWELL, 2005, p. 459-460). Também os poetas pertencentes à chamada Geração de 45 engajaram-se com entusiasmo na tradução de poesia. Podemos citar Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos, Idelma Ribeiro de Faria, Dora Ferreira da Silva, Darcy Damasceno, Paulo Mendes Campos, Dante Milano, Stella Leonardos, Lêdo Ivo, Jamil Almansur Hadad e Foed Castro Chama. Nesse sentido, é possível citar ainda o trabalho dos irmãos Campos e sua teoria da Transcriação, a qual toma o texto traduzido como uma recriação, ou ainda, “criação paralela, autônoma, porém recíproca” (CAMPOS, 2013, p. 5). Com efeito, as observações de Haroldo de Campos evidenciam o aspecto transformador e criador do ato tradutório, o que implica uma mudança na visão que se faz do tradutor e de sua função. Portanto, a atuação dos escritores como tradutores, além de servir como um eficaz instrumento de divulgação e de legitimação dos textos no mercado editorial, suscita uma série de questionamentos pertinentes à História da Tradução Literária, bem como aos Estudos da Tradução e à Literatura Comparada. Um deles diz respeito à voz do escritor presente no texto traduzido, uma vez que a crítica tradicional avilta a visibilidade do tradutor no texto traduzido, como denuncia Lawrence Venuti (1995). Honig (1985, p. 8) também acredita que entre as questões inquietantes neste domínio está a de se pensar em que medida um poeta descobre a sua “voz” no poeta traduzido ou o quanto da “voz” do outro poeta ele toma para si. Assim, dada a riqueza temática identificada na discussão sobre a atuação de escritores-tradutores e a formação dos cânones literários, este simpósio receberá trabalhos que versem sobre os seguintes temas: • Análise de tradução de escritores-tradutores e a relação entre tradução e criação, sob um viés interdisciplinar; • Apreciação de projetos de reescrita poética nos quais existam dificuldades de se estabelecer uma fronteira clara entre o que seria tradução adaptação ou imitação; • Análise de pastiches, enquanto gênero literário híbrido pautado em questões tradutórias; • A literatura traduzida e a formação dos cânones;

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. (Org.) TÁPIA, Marcelo; NÓBREGA, Thelma Médici. São Paulo: Perspectiva, 2013. CANDIDO, ANTONIO. Os primeiros baudelairianos; A revolução de 30 e a cultura. In Educação pela noite. Rio de janeiro: Ouro sobre o Azul, 2006. HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. Traduzido por Maria da Penha Villalobos; Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Edusp, 2005. HONIG, Edwin. The Poet's Other Voice: Conversations on Literary Translation. Amherst: The University of Massachusetts Press, 1985. PAES, José Paulo. Tradução, a ponte necessária: aspectos e problemas da arte de traduzir. São Paulo: Ática, 1990. VENUTI, Lawrence. The Translator's Invisibility: a History of Translation. London and New York: Routledge, 1995. WYLER, Lia. Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

PALAVRAS-CHAVE

Escritor-tradutor; Cânones; Literatura traduzida.

PROGRAMAÇÃO

S01 02/09 09h-13h - https://youtu.be/hXeAn2eUdMo

S02 03/09 14h-18h - https://youtu.be/IhWO1gZhlGs