POLÍTICAS DO TEXTO: AUTORIA E AUTORIDADE

SIMPÓSIO - ST74

COORDENADORES

MARIA TEREZA AMODEO (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul)
Paulo Roberto Tonani do Patrocínio (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Ivete Lara Camargos Walty (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais)

RESUMO

O presente simpósio centra-se na discussão da relação entre política e literatura, definindo-a em um sentido expandido que inclui outras manifestações artísticas. Tendo como objetivo central a análise das formas de (auto)representação dos sujeitos subalternos que passaram a ocupar a produção cultural brasileira contemporânea a partir de fins dos anos 1990, problematiza-se a fronteira entre o real e a ficção, a história e a biografia, o eu e o outro, ampliando a compreensão da relação entre arte e vida, já que o ser humano necessariamente produz sentido para viver. Nessa perspectiva, busca-se construir um quadro teórico que permita ler as insurreições dos sujeitos silenciados enquanto mecanismos que expressem as idiossincrasias, as especificidades e as diferenças das identidades “ex-cêntricas” (HUTCHEON, 1998). Identidades que foram, ao longo da história, relegadas à margem, circulando em torno daquilo que simbolicamente é dado como o ideal do grupo social dominante - processo a que Erick Landowski (2002) cunhou como o “Senhor Todo Mundo”. Esse modelo a ser seguido provoca a exclusão, promove o estereótipo, que, conforme Bhabha (1998), atua como “esquema epidérmico”, um conhecimento aparentemente espontâneo, incorporado como algo natural. A discriminação promovida pelas modalidades estereotípicas atua de forma limitadora, reduzindo a realidade a proposições binárias, excludentes, estratificando posições, isolando indivíduos e grupos. É a repetibilidade que garante o efeito de verdade, de probabilidade, de predictabilidade, pelo excesso, sem provas (BHABHA, 1998). Desse modo, propõe-se refletir sobre questões, tais como: a política de construção identitária e formas de subjetivação e diferenciação no texto literário e em outras manifestações e produtos culturais; a posição/lugar do intelectual diante da alteridade construída pelas vozes subalternas na contemporaneidade; os processos de legitimação e autorização dos novos sujeitos da enunciação na cultura brasileira; formas de engajamento e intervenção política na cena cultural contemporânea. Para essa reflexão, há que se recorrer a Jacques Rancière, quando propõe que o que se conhece usualmente como política é justamente a atividade de estabelecer o status-quo, o que, na verdade, constitui-se num ato policial. Para ele a política é a arte do litígio, em que os corpos e as vozes, em ato de insubmissão, expõem suas diferenças e rivalidades, reivindicando visibilidades. Demonstrando essa diferença entre polícia e política, afirma que a escrita se faz política “porque traça, e significa, uma re-divisão entre as posições dos corpos, sejam eles quais forem, e o poder da palavra soberana, porque opera uma redivisão entre a ordem do discurso e a das suas condições” (RANCIÈRE, 1995, p.8.). O autor evidencia, pois, a atividade política como um lugar de dissonância, que faz o ruído se tornar discurso, na medida em que desloca “um corpo do lugar que lhe era designado ou muda a destinação de um lugar”; “faz ver o que não cabia ser visto [...], faz ouvir como discurso o que só era ouvido como ruído.” (RANCIÈRE, 2018, p. 43) O horizonte teórico produzido por Rancière nos permite examinar a produção literária contemporânea como um espaço de disputa protagonizado por novos sujeitos da enunciação que cobram para si uma identidade baseada na afirmação de uma diferença incontornável, intransferível e irredutível. A presença dessas vozes emergentes evidencia “a escrita de uma nova literatura democrática que aposta na instituição de um sistema literário partilhado, que reconhece novas subjetividades e novos atores no mundo da cultura, e na reconfiguração do próprio termo literatura” (RESENDE, 2014, p. 14). A constituição de um sistema literário/cultural compartilhado resulta na necessária reconfiguração do papel e lugar do intelectual. Afinal, outrora o intelectual atuava como porta-voz desses grupos, falando em nome dos sujeitos, silenciando-os. Na contemporaneidade, não haveria mais espaço para tal tipo de atuação; esses atores passam a “falar” e não desejam mais que o intelectual “fale” em nome deles. Se o debate aqui proposto surge em decorrência do protagonismo desses sujeitos contemporâneos, o pensamento crítico ocidental há muito produz interrogações acerca da questão, a exemplo da conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze, ainda em 1972, intitulada “Os intelectuais e o poder”. No diálogo, Foucault já anunciava a necessidade de aparecimento de uma nova forma de engajamento do intelectual, não mais como aquele que dizia a verdade aos que ainda não a viam e em nome dos que não podiam dizê-la. A partir de uma abordagem multidisciplinar, o simpósio busca refletir acerca dos limites do literário/artístico frente às vozes subalternas e propor o debate sobre novos modelos teóricos que possam abarcar as especificidades dos discursos em pauta, tendo como referência leituras que, descartando critérios de valor e hierarquia, conjuguem o entendimento entre literatura e política.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 1999. FOUCAULT, Michel. Os intelectuais e o poder: conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. In: MACHADO, Roberto (Org.). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2002. HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1998. LANDOWSKI, Eric. Presenças do outro: ensaios de sociossemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2002. RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Trad. Raquel Ramalhete et al. São Paulo: Editora 34, 1995. RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. Trad. Ângela Leite Lopes. São Paulo: Editora 34, 2018. RESENDE, Beatriz. Possibilidades da nova escrita literária no Brasil. In: RESENDE, Beatriz e FINAZZI-AGRÓ, Ettore. Possibilidades da nova escrita literária no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2014.

PALAVRAS-CHAVE

Contemporaneidade; Enunciação; Identidade; Litígio; Política.

PROGRAMAÇÃO

S01 02/09 09h-12h - https://youtu.be/rt_4pEPRUyg

S02 09/09 09h-12h - https://youtu.be/_lToIOHO4V0

S03 16/09 09h-12h - https://youtu.be/kGEV4ZWqzBQ

S04 23/09 09h-12h - https://youtu.be/4SGMokGso8w

S05 30/09 09h-12h - https://youtu.be/l2twPAyy6Ek