LEITURAS CONTEMPORÂNEAS DE VIRGINIA WOOLF II

SIMPÓSIO - ST36

COORDENADORES

Davi Pinho (Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ))
Maria Aparecida de Oliveira (Universidade Federal da Paraíba (UFPB))
Nícea Helena de Almeida Nogueira (Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF))

RESUMO

Em “A torre inclinada” (1940), revelando seu esforço para pensar o futuro da vida e da arte em meio à destruição em massa da Segunda Guerra Mundial, Virginia Woolf conclui que “a literatura não é terreno particular de ninguém; a literatura é terreno de todos. Não foi retalhada em nações; lá não há guerras” (p. 463). E conclama a todos os intrusos — como aqueles que ouviram essa palestra para a Associação Educacional dos Trabalhadores (Workers’ Educational Association) em 1940, os outsiders do Império: “Transgridamos livremente e sem medo e encontremos por nós mesmos nosso próprio caminho” (WOOLF, 1940, p. 463). Woolf esteve em confinamento intermitente não apenas por conta das guerras de seu tempo e de suas crises de depressão, mas também devido à pandemia de gripe espanhola que dizimou milhões de pessoas mundialmente antes, durante e depois do auge de 1918-1919, deixando marcas profundas em sua produção, como elabora Elizabeth Outka (2020) ao comentar o romance Mrs Dalloway (1925) e o ensaio “Sobre estar doente” (1926/1930), no qual Woolf nos convoca a reimaginar a tradição por meio da linguagem “primitiva, sutil, sensual, obscena” do corpo doente (WOOLF, 1926/1930, p. 187). Essa procura por uma nova linguagem mantém vivo o impulso de “reunir as partes separadas” (“A Sketch of the Past, 1976) e de “preservar e criar” (“A torre inclinada”, 1940). Este simpósio propõe que, agora que nossos corpos estão em isolamento, continuemos o debate que se iniciou na Abralic de 2019, quando propusemos pela primeira vez que leitoras/es de Virginia Woolf se reunissem para pensar, coletivamente, as marcas que as obras ficcionais, ensaísticas e auto/biográficas de Woolf deixaram na ficção, na teoria e na crítica contemporâneas, especialmente no que se refere ao dito formalismo modernista e às questões de gênero. De sua primeira recepção, e sua ênfase na forma, aos estudos feministas da década de 70 e além, o nome “Virginia Woolf” constituiu por vezes uma assinatura modernista que ora fechou sua obra completamente no vocabulário dos formalistas de Bloomsbury, ora no vocabulário do feminismo estadunidense, ou ainda na esteira da desconstrução de Derrida e dos saberes rizomáticos de Deleuze. No entanto, como vêm revelando os estudos woolfianos recentes, a questão estética em Woolf está inextricavelmente entrelaçada à questão política que figura em sua obra, o que lança a autora em busca de novas formas de escrita em movimento de eterno devir-outro, como pensa Rosi Braidotti (2011). É justamente essa oscilação produtiva entre o estético e o político que faz com que pesquisadoras/es contemporâneas/os, como Madelyn Detloff (2016), deem privilégio aos hibridismos encenados por Woolf por meio da ficção, sua ferramenta para atravessar diferenças e reorganizar mundos, o que sempre nos permite reavaliar e revalorar sua escrita. Filiando o poético ao material, vale pensar hoje como as leituras de Virginia Woolf do século passado não se excluem mutualmente, mas são complementares no pensamento woolfiano, que é centrífugo por excelência, como pensa Judith Allen (2010). Voltar à escrita de Virginia Woolf nos permite achar os pontos de conexão no mosaico de perspectivas de seus intérpretes, atentando sempre para os sentidos que sua forma deixa escorregar para o nosso presente. Continuando a virada estético-política dos estudos woolfianos (Goldman, 1998 & 2004), convidamos trabalhos que se debrucem sobre releituras de toda e qualquer questão que sua vasta obra suscite – da forma do conto, ensaio e romance modernistas à escrita de si ou a uma filosofia queer e/ou feminista. Se levarmos a sério os choques de realidade que Virginia Woolf diz sentir ao escrever (cf. “A Sketch of the Past”), entenderemos que sua escrita está sempre dentro e fora de seu tempo, uma escrita contemporânea no sentido agambeniano (2006), sempre referida ao passado do passado mas também à sua presença, como antes formulou T. S. Eliot (1919). Hoje, muito do que se anuncia na produção tardia da autora parece mais uma vez ativar quadros de guerra incessantes, e por isso não podemos ainda temer Virginia Woolf. Desse modo, almejamos acolher trabalhos que contemplem os seguintes temas, ou quaisquer outros que estejam em diálogo com a vida, a obra e/ou o tempo de Virginia Woolf: - Woolf e o modernismo, as artes e/ou o Bloomsbury Group; - Woolf e o pós-modernismo, o pós-estruturalismo e/ou a filosofia; - Woolf e os estudos feministas, queer e/ou transfeministas; - Woolf e o trauma, a guerra e/ou o fascismo; - Woolf e a pandemia e/ou a doença; - Woolf e a educação, os movimentos sociais e/ou o materialismo histórico; - Woolf e/em tradução e/ou adaptação; - Woolf e o Império e/ou os estudos pós-coloniais; - Woolf e a ecocrítica; - Woolf transnacional, transcultural, transtemporal; - Woolf e a teoria crítica e/ou a psicanálise; - Woolf leitora/ leitores de Woolf.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, Giorgio. What is the Contemporary?. In: AGAMBEN, G. What is an Apparatus? and Other Essays. Tradução de D. Kishik e S. Pedatella. Stanford: Stanford University Press, 2009. [2006] P. 39-54. ALLEN, Judith. Virginia Woolf and The Politics of Language. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2010. BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Theory: The Portable Rosi Braidotti. New York: Columbia University Press, 2011. DETLOFF, Madelyn. The Value of Virginia Woolf. Cambridge: Cambridge University Press, 2016. ELIOT, T. S. Tradition and the individual talent. In: KERMODE, Frank (ed.). Selected prose of T. S. Eliot. Londres: Faber & Faber, 1975 [1919] p. 37-44. GOLDMAN, Jane. Modernism, 1910-1945: Image to Apocalypse. Basingstoke: Palgrave MacMillan, 2004. GOLDMAN, Jane. The Feminist Aesthetics of Virginia Woolf: Post-Impressionism and the Politics of the Visual. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. OUTKA, Elizabeth. Viral Modernism: The Influenza Pandemic and Interwar Literature. New York: Columbia University Press, 2020. WOOLF, Virginia. A Sketch of the Past. In: WOOLF, V. Moments of Being. Ed. Jeanne Schulkind. Londres: Harcourt Brace and Company, 1985. [1976] p. 64-159 WOOLF, Virginia. A torre inclinada. In: WOOLF, Virginia. O valor do riso e outros ensaios. Tradução de Leonardo Fróes. São Paulo: Cosac Naify, 2014. [1940] p. 427-463. WOOLF, Virginia. Sobre estar doente. In: WOOLF, Virginia. O valor do riso e outros ensaios. Tradução de Leonardo Fróes. São Paulo: Cosac Naify, 2014. [1926/1930] p. 184-203.

PALAVRAS-CHAVE

Virginia Woolf; Modernismo; Contemporaneidade.

PROGRAMAÇÃO

S1 15/09 14h-16h - link não disponível

S2 15/09 17h-19h - link não disponível

S3 16/09 14h-16h - link não disponível

S4 16/09 17h-19h - link não disponível

S5 17/09 14h-16h - link não disponível

S6 17/09 17h-18h - link não disponível