DAS PERSPECTIVAS DECOLONIAIS: O SUL E SUAS AGÊNCIAS

SIMPÓSIO - ST16

COORDENADORES

Ricardo Postal (UFPE)
Imara Bemfica Mineiro (UFPE)
Daniel Conte (FEEVALE)

RESUMO

Se o termo “decolonial” tem sido usado em escala ampla, nos questionamos sobre quais são as bases teóricas que promovem sua promulgação dentro dos textos acadêmicos e quais trânsitos teóricos ocorrem entre pesquisas que tem, apesar de seus variados objetos, um mesmo vetor de interesse, a saber, a provocação desde as frestas do sistema hegemônico de pensar (e suas estruturas de poder), de um movimento constante de reformulação de teorias e práticas para o desestabelecimento do modo eurocentrado hetero-cis-patriarcal branco de conceber o mundo, a alteridade e a racionalidade. Como sinalizou Achille Mbembe, o “grande acontecimento” ou a “experiência fundamental de nossa época” reside no processo no qual a Europa deixa de ser o “centro de gravidade do mundo” (2018, p.11). Como atestado dessa experiência emergem diversas perspectivas teóricas que colocam em xeque a elaboração mítica da modernidade que permeou o discurso eurocentrado a respeito da história, da racionalidade e dos campos de saber, questionando o lugar da Europa como berço da modernidade e bastião dos principais alicerces da civilização (DUSSEL, 1994). Desvelada a falácia da neutralidade e universalidade dos saberes tidos por hegemônicos - que Santiago de Castro-Gómez denominou “hybris do ponto zero” (2003) -, é explicitado o caráter situado de todo conhecimento (HARAWAY, 1988) e torna-se imperativa a necessidade de “provincializar” (CHAKRABARTY, 2008) os discursos apresentados como universais. Na emergência de perspectivas teóricas que convidam a outros olhares através das frestas do pensamento hegemônico são questionadas as múltiplas hierarquias que caracterizam o sistema-mundo excludente - porque baseado em fundamentos racistas, machistas, heteronormativos, patriarcais e capitalistas (QUIJANO, 2005, GROSFOGUEL, 2009). Olhares esses que sabem-se situados e “encarnados”, conscientes de que partem e de e incidem sobre corpos e localidades, olhares que desafiam os parâmetros naturalizados da racionalidade compreendida como produto exclusivo do iluminismo, e que se interrogam sobre os alicerces de um projeto de modernidade que oculta sua contrapartida, o lado perverso da colonialidade (MIGNOLO, 2017). Nesse sentido, a ideia/imagem de Sul emerge na condição de categoria que evidencia a geopolítica do conhecimento ao mesmo tempo em que recusa a posição “minorizada” ou “subalternizada” a que é relegada pela narrativa da modernidade ocidental eurocêntrica. Pensar o Sul e suas agências implica, portanto, pensar a partir de referenciais epistêmicos mais dilatados e generosos, que contemplem a alteridade como condição mesma da coexistência, reconhecendo a pertinência das questões etnico-raciais, de gênero, sexualidade, espiritualidades e cosmologias para a reflexão sobre a contemporaneidade e seus (nossos) horizontes de expectativas. As perspectivas decoloniais (assim como a teoria queer) tornam “o questionamento, a desnaturalização e a incerteza como estratégias férteis e criativas para pensar qualquer dimensão da existência. A dúvida deixa de ser desconfortável e nociva para se tornar estimulante e produtiva. As questões insolúveis não cessam as discussões, mas, em vez disso, sugerem a busca de outras perspectivas, incitam a formulação de outras perguntas, provocam o posicionamento a partir de outro lugar.” (LOURO, 2001) Pensadas a partir das perspectivas elaboradas acima, as obras literárias oriundas de localidades do sul global, vítimas do processo colonial, precisam ser analisadas a partir de ferramentas conceituais que não esqueçam a atuação da “colonialidade do saber” (QUIJANO, 2005) que lhes é incontornável, e que seja ressaltado o quanto elas se lançam num combate decolonial pela vontade mesma de manifestarem as vozes dos que foram por séculos silenciados. Interessa-nos discutir os mecanismos de manutenção da colonialidade através de imaginários e discursos para, a partir de um olhar crítico, apresentar o estado da arte da agência decolonial tornada literatura. Cabe pensar tanto nas formulações escritas a partir de fronteiras e espaços transculturais, promotoras de hibridismos vários, como também no alargamento dos conceitos mesmos do literário e poético provocados por ações periféricas de ruptura do cânone, bem como pela inserção de novos falares e cenários na tão homogênea espacialidade do imaginário norte-ocidental. Sabendo de tais movimentos, que propõem utopias para além do estado estagnado a que a colonialidade insiste em manter o espaço epistêmico do sul, pensamos nas encruzilhadas de saberes, tradicionais, acadêmicos, orais, eruditos, ancestrais e inovadores que as vozes subalternas vem impulsionando organicamente para uma emergência urgente de exposição, compreensão e reiteração nas pesquisas das humanidades. Sendo assim, esse simpósio se propõe a acolher comunicações que pesquisem tanto articulações teóricas das perspectivas decoloniais Sul-Sul, análises de práticas decoloniais coletivas que gerem representações literárias, bem como análises de narratividades e poéticas que materializem formas dissidentes de pensar suas agências político-identitárias esteticamente, abraçando, portanto, teoria literária e teoria social imbricadas numa proposta de comparatismo contemporâneo que entenda a literatura e seu contexto politicamente motivado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTRO-GÓMEZ, Santiago. La Hybris del Punto Cero: Ciencia, Raza e Ilustración en la Nueva Granada (1750-1816). Bogotá: Editora Pontificia Universidad Javeriana, 2003. CHAKRABARTY, Dipesh. Al margen de Europa.Pensamiento póscolonial y diferencia histórica. Barcelona: Tusquets, 2008. DUSSEL, Enrique. 1492 - El Encubrimiento del Otro: Hacia el Origen del ‘Mito de la Modernidad’. La Paz: Plural Editores, 1994. GROSFOGUEL, Ramón. Para Descolonizar os Estudos de Economia Política e os Estudos Pós-coloniais: transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade global. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina, 2009. HARAWAY, Donna. Situated Knowledges: the Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective. Feminist Studies. v.14, n.3, p. 575-599, 1988. LOURO, Guacira Lopes. Teoria Queer - Uma Política Pós-identitária para a educação. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 9, n.2, p. 541-553, 2001. MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. São Paulo: N-1, 2018. MIGNOLO, Walter. Colonialidade, o lado mais escuro da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 32, n. 94, jun. 2017. QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo. A colonialidade do saber, eurocentrismo e Ciências Sociais. Buenos Aires, Clacso, 2005. p. 107-130.

PALAVRAS-CHAVE

EPISTEMOLOGIAS DO SUL; PÓS-COLONIAL; PERSPECTIVAS DECOLONIAIS

PROGRAMAÇÃO

S01 22/09 09h-12h - https://youtu.be/Eq9GWLwjTDs

S02 22/09 14h-16h - https://youtu.be/DRrwrhCg6DM

S03 23/09 09h-12h - https://youtu.be/IAHro0F2W7w

S04 23/09 14h-16h - https://youtu.be/4BYRoa2kqQE

S05 24/09 09h-11h - https://youtu.be/Ws8uoDJYsIA