PODER E VIOLÊNCIA EM LITERATURAS "MARGINAIS"

SIMPÓSIO - ST72

COORDENADORES

NICIA PETRECELI ZUCOLO (Universidade Federal do Amazonas)
Marlise Vaz Bridi (Universidade de São Paulo)

RESUMO

A literatura como manifestação cultural elabora representações sobre o posicionamento de um grupo social, uma época, pela voz paradoxalmente singular e coletiva da autoria, e quanto mais central for essa voz, mais aceita como autêntica pelo cânone ela será. As práticas de sujeitos envoltos em situação de opressão e violência, representadas em diversas manifestações culturais, inscrevem-se na construção simbólica dos corpos e da arte como uma materialidade, um corpo, uma subjetividade. Se essa subjetividade partir de uma ótica descentrada, seja pela elaboração estética, seja pelo ponto de origem, percebe-se que as engrenagens de opressão começam a movimentar-se, exigindo uma aprovação do cânone, tradicionalmente hetero-normativo, branco, masculino. Mulheres, homossexuais, transexuais, negrxs, indígenas, quilombolas, precisam ter seu fazer artístico validado pelo centro hegemônico de prestígio e disseminação cultural de seu país. A tradição, no que tem de negativo e prejudicial às manifestações culturais, insidiosamente oprime a inovação, tanto da perspectiva de autoria, quanto de forma, conteúdo e personagens. Nesse sentido, manifestações culturais, dentre elas a literatura, com obras que problematizam questões de gênero, sexualidade, poder, violência e identidade de modo amplo, são fundamentais como alerta (na falta de outra palavra) para essa situação. Pensar em Stela Manhattan, de Silviano Santiago, Lory Lamb, de Hilda Hilst, Delfina e Maria das Dores, de Paulina Chiziane, Constança H, de Maria Teresa Horta, Fernando Seixas, de José de Alencar, Bento Santiago, de Machado de Assis, a narradora inominada de A manta do soldado, Myra, de Maria Velho da Costa, Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, é perceber como o controle é sutil, normatizando comportamentos e criando espaços de exclusão e de violência institucionalizada. Aqui, podem ser acrescidos elementos como o geográfico: as escritoras do norte do país têm o mesmo trânsito que as escritoras do sudeste? As escritoras do sudeste têm o mesmo trânsito que os escritores do nordeste? As escritoras do séc. XIX tinham sequer sua existência reconhecida? Michel Foucault, em seu primeiro volume da História da sexualidade, afirma que [a] sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede de superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação do discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam?se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. (FOUCAULT, 2005, p. 100). Tome-se a fala de Foucault como fundamental para entender que a sexualidade transcende questões de gênero e desejo. Entenda-se a sexualidade como um mecanismo de controle, uma maneira de educar os corpos, singularizá-los de modo a “desencorpar” o indivíduo, tentando revesti-los de uma igualdade normalizadora, que – ao mesmo tempo em que diz reconhecê-lo individualmente – apaga sua identidade, transferindo-a para o grupo, onde é mais fácil o controle (SCOTT, 2005). O modo como os papéis sociais precisam ser definidos conforme o que é normatizado desvela a necessidade de se buscar a resistência pela literatura ou por outras manifestações culturais, como cinema e música, por exemplo. O domínio do cânone pelo discurso hegemônico masculino ainda é uma realidade, entretanto a abertura para discussão em espaços tradicionalmente masculinos, como a academia e a produção literária, possibilita olhares de diferentes ângulos sobre a construção de papéis sociais de homens e mulheres e seus exercícios de sexualidade e identidade. A literatura e a produção de obras artísticas que abordem a performance de corpos considerados abjetos, de identidades desviantes, são cruciais para o enfrentamento de um cânone literário que espelha uma sociedade misógina, racista, homofóbica e xenófoba. As diversas transformações nos papéis sociais de gênero e sexualidade historicamente vivenciados pela sociedade são uma realidade, e como tal ecoam na literatura e nas produções artísticas, levantando algumas questões como: será que a representação da mulher e do homem assume aspectos distintos a partir da autoria feminina? Será que a sororidade (entendida como resistência ao patriarcado, tida como relação de união, colaboração, apoio e empoderamento entre mulheres) se faz presente no discurso ficcional de autoria feminina? Será que os escritores pensam as personagens femininas a partir de estereótipos, permitindo às masculinas uma maior mobilidade? A relação corpo-desejo-identidade é problematizada tanto por homens quanto por mulheres, sejam trans ou cisgênero? Como e por quem é representada a abjeção e a violência? O poder e a violência são representados igualmente por autores e autoras? O grupo de pesquisa Relações de gênero, poder e violência em literaturas de língua portuguesa espera para este simpósio trabalhos que problematizem questões de gênero (do feminino, do homossexual, do queer, das novas masculinidades, do corpo, do abjeto), trabalhos que investiguem as relações de poder e violência, a cisão – ou não – do poder patriarcal na contemporaneidade, tomando como base o texto literário, erudito ou popular, consagrado ou não canônico, ou outras produções culturais, como as advindas do cinema e/ou da música.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALENCAR, José. Senhora. São Paulo: Penguin, 2013. ASSIS, Machado. Dom Casmurro. São Paulo: Penguin, 2016. CHIZIANE, Paulina. O alegre canto da perdiz. Lisboa: Editorial Caminho, 2008. EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Rio de Janeiro: Pallas, 2003. COSTA, Maria Velho da. Myra. Lisboa: Assírio e Alvim, 2008. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2005. HILST, Hilda. O caderno rosa de Lory Lamb. Porto Alegre: Editora Globo, 2005. HORTA, Maria Teresa. A paixão segundo Constança H. Lisboa: Bertrand Editora, 2010. JORGE, Lídia. A manta do soldado. Rio de Janeiro: Record, 2003. SANTIAGO, Silviano. Stela Manhattan. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. SCOTT, Joan. O enigma da igualdade. In: Revista de Estudos feministas. Vol.13. Florianópolis Jan./Apr. 2005.

PALAVRAS-CHAVE

Resistência; Gênero; Corpo; Opressão; Cânone.

PROGRAMAÇÃO

S01 06/09 14h-19h - https://youtu.be/RQbjfs4kpRs

S02 08/09 14h-19h - https://youtu.be/5ZBtQuJGw0I

S03 10/09 14h-19h - https://youtu.be/HNDeVSkKfPI